O eucaliptal da Atalaia
Chego a Vila Nova da Barquinha, passo junto ao portão onde, há dois anos, pedi que me enchessem as garrafas, sigo agora em frente, olho vivo e pé ligeiro, sem o cansaço do calor, sem a tortura da sede, atravesso nesta passagem de nível com um gato e margaridas amarelas, ainda no nevoeiro, embora menos denso, prossigo na direção da Atalaia… Não é um jardim, não é uma praça, apenas uma fonte e dois bancos neste triângulo entre ruas, mas oferece o necessário para uma pausa; a humanização do espaço urbano não arruína, pena é que tantas municipalidades a descurem. Vejo uma senhora a trabalhar na horta. Este labor acrescenta vida – e beleza – à Atalaia. Sabe-me bem descansar as pernas, sabem-me melhor os flocos de aveia com leite, nozes, passas e casca de limão… Como damascos secos, como mais duas laranjas, encho a garrafa de água e prossigo o caminho saboreando outro pedaço de chocolate.
Passo pela – singular – igreja da Atalaia. Mais adiante o Caminho entra numa zona florestal onde, há dois anos, a atitude de um morador me assustou. Almeida Garrett queixa-se de não encontrar o pinhal da Azambuja, mas eu já atravessei o eucaliptal da Atalaia e, embora sabendo não ter seguido em linha reta, posso sem exagero chamar-lhe floresta. “Onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura?” Almeida Garrett não tem onde poisar os salteadores de Schiller nem os assassinos de Sue, eu encontro-me com mais espaço e personagens do que preciso neste momento… Ignoro qual a realidade da Mouraria, homóloga da atual Cova da Moura, nos tempos de Almeida Garrett; hoje a literatura só recorre à importação – dos USA – se não quiser olhar à volta, já que Portugal se pode orgulhar, em alguma coisa somos os primeiros na Europa, de possuir mais salteadores do que a França e a Alemanha juntas. (Não acreditem nas estatísticas, leitores sagazes, por as vítimas não irem à polícia, sabendo que perdem tempo para nada.) Atualidade pavorosa: o telejornal mostrou-nos entrevistas de residentes ingleses assaltados e torturados no Algarve. Mesmo se tudo o resto fossem laranjeiras em flor, bastaria este exemplo para longamente nos perturbar…
Cinquenta metros antes da zona verde, do outro lado da estrada, vejo dois homens a pedir boleia. Caminham desanimados, olham-me intrigados, eu digo-lhes boa tarde mas sigo em frente. Não desconfio deles, quem anda à boleia não é melhor nem pior do que quem caminha, porém a minha estratégia é a discrição… Sigo o conselho do grilo na fábula de Claris de Florian: “Para viver felizes, vivamos escondidos”. Portanto… Se ninguém me vir entrar neste deserto, é pouco provável que, numa tarde de frio e nevoeiro, com uma população tão sedentária, eu faça encontros até chegar aos arredores de Grou. Embora não ignore que as árvores podem ter olhos, nem todos maléficos, felizmente, espero – ao menos – que não passe nenhum carro antes de virar à direita.
