RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

ITÁLIA, DEMOCRACIA PRECÁRIA, por  OLIVIER FAVIER.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 (Do site On Ne Dormira Jamais)

Parte I

Os serviços sociais chamam-nos de “acrobatas”. Esta massa de contornos indecisos formava há pouco tempo uma grande parte das classes médias. Num filme que será lançado em França dois dias depois das eleições italianas, nos dias 24 e 25 de Fevereiro, o realizador Ivano de Matteo fez o retrato de um deles. Um funcionário da prefeitura, pai de dois filhos, está afundado na pobreza e isto devido a um simples divórcio. Funcionário municipal de contrato fixo, ele deixou de ter possibilidade de poder morar em Roma. Na Itália, são cerca de 200.000 pessoas como ele a dormir no seu carro.

Em Nápoles, para os muitos que andam na casa dos trinta anos forçados a morar na casa dos seus pais, os carros também são usados para terem relações sexuais. A nova direcção da Câmara Municipal reservou para esses casais um parque de estacionamento com vigilância. Nos anos de 90, o fenómeno parecia já condenado a desaparecer. Nos últimos anos, a emigração também tem estado a ser retomada na sua melhor forma. Agora está a atingir enorme número de licenciados.

No jogo do “elo mais fraco”, com excepção da França, a Itália não deixa de ser o país em melhor condição no conjunto dos países mediterrânicos. Mas o mal-estar económico e social adiciona-se desde há 20 anos a uma profunda crise da cidadania, que, longe de ter queimado os velhos tumores fê-los aparecer, crescer e crescer. As eleições serão mais um sinal paradoxal de um “fim das ideologias” – quase sempre confundido com o colapso do comunismo – e com referências cada vez mais apoiadas no fascismo.

O laboratório italiano, barómetro europeu do melhor e do pior, anuncia-nos um céu  com aspecto de grande tempestade já  próxima a cair em cima das  nossas democracias. No Outono de 2012, pela primeira vez, mais da metade dos eleitores da Sicilia não votaram nas eleições regionais. O “anti-político” na verdade triunfou, mas fora dos partidos.

itáliaprecária - I O actor Valerio Mastandrea em Les Équilibristes d’Ivano de Matteo (lançado em França em 2013)

“A casa dos pais” é uma estrutura de acolhimento reservada aos homens separados que estão na impossibilidade de encontrar um alojamento e pedindo-se-lhes uma renda muito baixa. A sua capacidade está bem abaixo das dificuldades actuais.

O fracasso do bipartidarismo e a ficção de um governo “técnico”.

As últimas sondagens foram publicadas a 8 de Fevereiro. Nos últimos meses, o Partido Democrata, “centro-esquerda”, liderado por Pier Luigi Bersani, ex-comunista, perdeu grande parte da sua confortável vantagem eleitoral a favor do Povo das Liberdades, partido “centro-direita” de Berlusconi. Depois de dez anos no poder quase ininterruptamente, de 2001 a 2011, Silvio Berlusconi conseguiu em dois meses voltar a ser verdadeiramente um candidato ao poder . Em 2008 a vida política parecia tender para um bipartidarismo à americana. As eleições de 2013 revelam, bem pelo contrário, a complexidade das questões a resolver.

A explicação do poeta e historiador Carlo Bordini é sem contra-argumento : «aqueles que governaram a Itália durante dez anos, são de direita, isso é claríssimo, mas mais do que um “directório que administra os negócios da burguesia”, é um directório  que gere os seus próprios interesses. E eles têm uma enorme proximidade (uma proximidade necessária) com o crime organizado. »

Assim, quando em Novembro de 2011, Silvio Berlusconi se afastou do Quirinal sob as vaias da população, na ausência de uma clara maioria, o economista Mario Monti, Presidente da única Universidade italiana a não ter feito greve na Primavera de 68, mas que é um membro de nenhum partido e, portanto, ‘apolítico’,  pode formar um “governo de técnicos”. É hoje bem claro que o novo ‘Super Mario’  terá  assumido, como o actual director do Banco Central Europeu, Mario Draghi, funções importantes dentro do banco de negócios , Goldman Sachs, acusado pelo New York Times de ter especulado sobre a dívida grega em 2009, e que isto despertou suspeitas de conflito de interesses. No entanto, rejeitado apenas pelos membros da Liga do Norte e por dois membros do PDL, entre os quais Alessandra Mussolini, Mario Monti beneficiou do mais amplo voto de confiança até agora alcançado na história da República italiana.

itáliaprecária - IIPier Luigi Bersani, líder do partido democrático, e Mario Monti, Presidente do Conselho cessante, lançados no “grande concurso” como foi  o grande título do jornal Il Manifesto de 18 de Dezembro de 2012. Menos de dois meses depois, a situação mudou totalmente.

Europeu convicto, Mario Monti marcou também claramente o seu apoio à política de austeridade impulsionada por Angela Merkel e por Nicolas Sarkozy. A nível nacional, isto traduziu-se,   como noutros países, por uma reforma do sistema de pensões, por uma redução das despesas públicas e por uma liberalização do mercado de trabalho – inspirada,  no caso italiano, no modelo dinamarquês de flexi-segurança. A tributação das propriedades da Igreja, a luta contra a evasão fiscal e a implementação estruturada das reformas reforçaram, na verdade, a sua imagem de gestor rigoroso.

No entanto, assegura Carlo Bordini, quando ele chegou ao poder, ‘ ninguém sabia (excepto as pessoas autorizadas, que também não eram muitas) o que seria o programa de Monti.» Ele era o Salvador. (alguns media) Um ano mais tarde, depois de ter perdido o apoio do PDL, Mario Monti apresenta a sua demissão enquanto ele mantém alguma popularidade junto dos italianos e especialmente mantém a confiança inegável dos seus homólogos ocidentais. As sondagens mais recentes, cada vez mais desfavoráveis, colocam agora a «Agenda Monti» em quarto lugar: a hipótese mais provável, apoiada por declarações recentes, dos dois candidatos, é um governo de centro-esquerda, apoiado por aqueles que estão próximos do governo cessante. Mas uma aliança de última hora com o PDL como parceiro dominante é realmente impossível?

(continua)

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