UMA OPINIÃO SOBRE DORINDO CARVALHO – A EXPO-VIRTUAL ABRE AMANHÃ

A Professora Maria João Fernandes fala sobre DORINDO CARVALHO:

 A APARÊNCIA DAS FORMAS  

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Um lugar para nascer. Um lugar
– Na memória.
Um lugar para
Desenrolar o novelo dos possíveis
Um lugar para o real.

Robert Bréchon – Arte Poética.

 

        

Dorindo Carvalho acha uma vez mais na actualidade, o essencial da sua linguagem plástica pautada pela linha, pelos contrastes de cores lisas, no contraponto de vermelhos e negros alquímicos e surreais.

Antes, em 2002, na sua exposição: “Limites (In)visíveis do Corpo” já me encantara a sua capacidade de síntese poética na ondulação de ritmos iniciais, no bailado e na respiração de formas que pareciam emergir de puros contornos de um vazio cintilante de promessas. Promessas de uma vida ausente e presente, do real da poesia que não faz mais do que anunciar uma presença que nos cegaria com a sua luz. Nos “pas-de-deux” da sua pintura as formas evocavam uma anima liberta de todo o seu peso, reduzida ao contorno das suas asas e um espírito rendido à sedução desta liberdade e cultivando-a no seu jardim de amorosas delícias. Sugestão do paraíso, Adão e Eva, representados aliás num dos seus guaches.

Sobre fundos lisos, por vezes em suaves contrastes de cores que se harmonizam, evoluem a partir de 2002 as figuras deste universo que mantém as referências figurativas, depurando-as, nos sinais de uma geometria iniciática, círculos, quadrados, rectângulos, elipses, por vezes apenas sugeridos, para melhor convidar à sua decifração. Depurando igualmente as linhas e outras fornas da sua invenção onde se refaz toda a frescura de uma comunhão de reinos, o vegetal, o marítimo, o solar, o nocturno, num verdadeiro bailado dos elementos, cosmogónico, a que a figura humana parece conferir um sentido.

No mundo de “formas pressentidas” que se desenvolve de 2004 até à actualidade, tudo parece depender, como já antes acontecera, de um encontro amoroso. O encontro do homem e da mulher, unidos e separados por um rio de prodígios, num trabalho de 2007, ou ao centro de uma festa solar de pássaros e flores vermelhas em 2009 e também das metáforas que representam, animus e anima, as energias psíquicas e cósmicas a que se associam. O espírito e a alma, a razão e a intuição, o fogo e a água, o masculino e o feminino, pares de uma alquimia que secretamente vai seguindo o seu curso.

O vermelho alquímico é hoje uma vez mais o sinal de uma ardente combustão onde se joga todo o mistério da noite sugerida pelo negro sobre o ocre de um vazio anunciado. O vermelho e o negro, na depuração caudalosa e abstractizante das formas que a linha não aprisiona, mas liberta, uma vez mais se tornam pólos de uma totalidade apenas entrevista.

Expectativa de uma plenitude anunciada onde nos revemos e se revê a modernidade sequiosa de um reencantamento. Formas fragmentadas do corpo humano conduzidas pelo bailado das linhas, em jogos ilusionistas de rostos fragmentados e de sobreposições de planos, com uma escuridão sempre presente, noite não temível mas enigmática onde se abre como uma janela em forma de coração o limiar de uma nova sensualidade prometida. Os rostos de olhar fixo não são ícones do humano, mas puros índices de uma geometria do oculto, esfinges silenciosas perpassando como nuvens fugitivas no céu da nossa perplexidade. O corpo ora é uma silhueta recortada a negro como um puro vazio, ora se reduz a uma mão ou ao gesto de agarrar outra mão vinda do nada ou da pura sugestão das formas.

Rupturas com uma totalidade sugerida mas ausente, como o Paraíso evocada pela maçã mas perdido na voraz ameaça do vazio das formas vertiginosas sobre fundos mudos. Tensão em acordes de uma sensualidade depurada e requintada, sinfonia do desencontro e do desencanto entre metades que se pertencem e se tocam sem se reconhecerem. Mundo de ausências e de presenças truncadas, jogo de escondidas com a realidade, aposta na realidade das formas, que elas, não são mais do que aparências. A realidade está certamente mais além, ou como diria Rimbaud, “ailleurs”.

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