NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 88 – por Manuela Degerine

O eucaliptal da Atalaia (continuação)

A travessia da floresta em outubro de 2011 representa uma das piores torturas da minha vida, hoje vou apenas inquieta – mas não demasiado – nesta solidão que, espero, se prolongará durante duas horas. Ninguém me viu virar para aqui, agora avanço sem fazer barulho, atenta a todos os ruídos e, se qualquer Lobo (ou Raposo) passar: escondo-me. Um Capuchinho Castanho fundir-se-á nesta paisagem com nevoeiro. (Começo a achar a situação cómica.)

Há dois anos a sede e a angústia gerada pela falta de sinalização quase me mataram, contudo desta vez, para além de a temperatura continuar propícia, vejo nos pontos essenciais uma tabuleta amarela. Ah, obrigada! Sinto uma imensa gratidão por quem aqui colocou as setas e, desde o início, é também a Pequena Polegar quem atravessa a floresta. (Continuo a divertir-me.)

Não é neste lugar que Almeida Garrett encontraria a Natureza das suas fantasias, pois a espécie vem da Austrália, as árvores foram plantadas e alinhadas, têm quase todas o mesmo tamanho, empobreceram a vegetação rasteira… Almeida Garrett e Eça de Queirós criticavam a mesmice sentida em Paris e, quando muito, no Chiado, nós confrontamo-nos com o mesmo – o que vemos, o que vestimos, o que comemos, o que pensamos, o que fazemos – multiplicado à escala global. Surge-me a imagem dos portugueses nos seus prédios, sentados diante da televisão, uns ao lado dos outros, uns por cima dos outros, esvaziando o tempo e as cabeças…

Ainda assim, por as encostas e caminhos obrigarem às vezes a desarrumar a floresta, por loureiros e medronheiros conseguirem manter-se num ou noutro sítio, por alguns pinheiros terem escapado ao corte e plantio, por haver um pouco de urze, bastante tojo, fiapos de gramíneas, poças, lamaçais, fios de água, pedras e mais pedras, sobretudo por eu própria viver na cidade, este eucaliptal, mesmo tão uniforme, tão vazio na sua espessura, não deixa de me agradar. As estradas passam perto, oiço o barulho abafado pelo relevo, mas também assobios dos pássaros, rangidos dos eucaliptos, o nevoeiro é mais ténue aqui, além mais denso, respiro um ar perfumado… No dia 19 de janeiro o vento deitou abaixo centenas de árvores; e muitas atravessaram-se no caminho. Alço-me para cima do tronco, a mais de um metro de altura, salto para o outro lado, tentando não me arranhar nos paus. (Felizmente, com esta frescura, as carraças hibernam.) Embora – comendo – eu reduzisse a metade o peso da mochila, pesa-me mais do que quando saí da casa… (Estranho, não é?) Passo por cima da auto-estrada, viro à esquerda, não vejo sinalização, sigo portanto em frente, desço, volto a subir outra longa encosta e… encontro-me à beira da estrada!

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