CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 24 – por José Brandão

Lutas pelo trono — Invasão de Castela

Apenas faleceu Henrique IV, sua irmã D. Isabel, que estava em Segóvia, fez-se ali proclamar rainha de Castela. Por seu lado, os partidários de D. Joana incitavam D. Afonso V a invadir Castela e casar logo com sua sobrinha, prometendo que assim o reconheceriam como rei. Por simples formalidade, ainda el-rei de Portugal enviou embaixador a D. Isabel e D. Fernando, a convidá-los a reconhecerem os direitos de D. Joana. Tudo baldado.

Enquanto em Castela D. Isabel procurava atrair os partidários de D. Joana, com promessas e ameaças em alternativa, D. Afonso V escrevia aos grandes senhores de Portugal, declarando-lhes a determinação em que estava de invadir Castela, no princípio de Maio (1475), e ordenava-lhes que em Arronches se lhe juntassem com as forças que pudessem levar.

Como Luís XI de França desejava recuperar o condado do Rossilhão, que lhe fora tomado pelos Aragoneses, mandou D. Afonso propor-lhe que os dois ao mesmo tempo fizessem guerra ao rei de Aragão e a seu filho D. Fernando. A proposta foi aceita, Luís XI invadiu a Biscaia.

El-rei de Portugal, confiado o governo do reino a seu filho D. João, transportou-se a Arronches no princípio de Maio e dias depois entrava no território castelhano. Foi encontrar sua sobrinha em Placência ali a recebeu por esposa, e passaram a intitular-se reis de Castela, Leão e Portugal. Porém, o casamento não foi consumado, por não ter sido concedida pelo Papa a dispensa de parentesco, à qual Fernando e Isabel opunham em Roma todos os embaraços. Com entendimentos de castelhanos apoderou-se D. Afonso V de Toro e de Samora. A Toro veio procurá-lo D. Fernando com numeroso exército e desafiou-o para batalha campal, mas nem D. Afonso podia aceitar o combate, porque tinha grande parte das suas tropas dispersas por outros lugares, nem o exército de D. Fernando podia demorar-se a cercar o inimigo, porque não tinha artilharia nem provisões. Retirou-se.

Entretanto, forças castelhanas invadiam a comarca de Elvas, onde tomaram as vilas de Ouguela e Noudar; a comarca de Noudar, onde se apoderaram de Alegrete. Na fronteira da Galiza faziam-se invasões de lado a lado, em luta, diz Góis, «que foy a mais crua, e sem piedade, que toda a das outras comarcas».

Enquanto se travavam lutas parciais entre os dois partidos, D. Fernando mandou secretamente fazer propostas de paz por intermédio do cardeal D. Pedro de Mendonça. D. Afonso transigia se lhe dessem o reino de Galiza com todos os seus termos e senhorios limitados e as cidades de Samora e Toro com todos os seus castelos e termos, para livremente juntar tudo à Coroa de Portugal, sem nenhuma cláusula de tributo nem obrigação de serviço, e uma quantia de dinheiro fixada por árbitros para ajuda das despesas feitas. As cláusulas foram rejeitadas.

Batalha de Toro

Chegou-se ao fim de 1475, oito meses andados depois da invasão de Castela por D. Afonso V, sem se travar combate de que pudessem esperar-se resultados decisivos ou de sério alcance.

Junto ao fim do ano, o príncipe D. João, estando na Guarda, convocou ali os Estados do reino, e com o conselho de todos se apercebeu para entrar em Castela, levando de reforço a seu pai a mais e melhor gente que pôde. Deixou o governo do reino à princesa D. Leonor, sua esposa.

Partiu D. João da cidade da Guarda, com as tropas de reforço, nos últimos dias de Janeiro ou princípios de Fevereiro de 1476, e junto ao fim do mês estava com seu pai em Toro. Quinze dias depois marchou o exército português a caminho de Samora, onde estava D. Fernando a cercar o castelo. Os portugueses tomaram a entrada da ponte. Ali estiveram em campo aberto cerca de quinze dias, com grande incómodo que recebiam da chuva, do frio e da neve até que no dia 2 de Março se pôs D. Afonso V novamente a caminho de Toro. Parecia que o maior empenho dos dois exércitos era evitar um grande combate!

D. Fernando decidiu logo seguir com o seu exército a marcha dos portugueses, e veio encontrá-los muito descuidados no vasto campo que se alarga desde Toro até uma serra que separa os campos de Toro dos de Samora.

Os preparativos do combate levaram até à tarde. Quando estava tudo a postos, chegou um rei de armas pelo qual D. Fernando mandava desafiar D. Afonso para a batalha. Era a moda antiga: «Que podia dar em resposta ao príncipe da Sicília, que era mais tempo de se encontrarem, que não de lhe mandar desafios.»

Estava o dia encoberto, com nevoeiros e chuva miúda. Dados os sinais de parte a parte, o príncipe D. João foi com a sua gente atacar seis alas castelhanas. O choque foi violento: os castelhanos combatiam com ardor, mas não sustentaram tão bem a peleja que não começassem de fugir, deixando muitos mortos e prisioneiros.

Em seguida corre D. Afonso com os seus à ala real de Castela. Estes combates duraram uma hora, sem a vitória se inclinar a nenhuma das partes. Intervieram então as quatro alas maiores dos castelhanos, que estavam ao longo do rio. Acudiram pelos portugueses as forças do arcebispo de Toledo, do conde de Monsanto, do duque de Guimarães, do conde de Vila Real.

A peleja atinge o seu auge. Os nossos, cedendo ao número, começam a desordenar-se, de forma que desampararam a bandeira real, que estava nas mãos de Duarte de Almeida. Caem sobre ele muitos castelhanos e procuram arrancar-lha, ferindo, acutilando, mas o alferes resiste à violência dos golpes, segurando sempre o depósito que lhe fora confiado. De uma cutilada cortam-lhe a mão direita, e ele continua segurando a bandeira com a esquerda. Decepam-lhe esta igualmente, e o heróico alferes toma o estandarte entre os dentes disposto a defendê-lo até à última. Cai finalmente vencido de dores e de cansaço, levam-no semimorto para o acampamento inimigo e de lá para um hospital castelhano, onde lhe salvam a vida.

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