O PATO ALGEMADO – XXV – por Sérgio Madeira

Imagem4O senhor Professor Júlio Marques Mota, um homem de Ciência, que foi mestre de ministros, devia saber alguma coisa de Etologia, ou seja, o estudo do comportamento das espécies.  Os trabalhos do Professor Loeb sobre o tropismo e o dos reflexos condicionados de Pavlov, são conhecimentos elementares. Outro estudo básico para quem fala com patos é ler com atenção o trabalho do Professor Konrad Zacharias Lorenz sobre a o imprinting, ensaio que mereceu o Prémio Nobel da Medicina em 1973. Se os patos corassem (sem ser no forno, claro) eu estaria corado de vergonha por estar a dizer coisas tão básicas a uma pessoa que tanto saber tem espalhado e que a bem dizer não tem culpa que um ex-aluno seu seja motivo de chacota e de repulsa e em vez de reivindicar o Professor Marques Mota como mestre, fala sempre no Milton Friedman… o do Pinochet. Mas se soubesse alguma sobre psicologia dos patos, saberia que nós quando estimamos uma pessoa (ou um objecto) , essa estima é para sempre e que, portanto, tendo eu adoptado o Professor como mestre, como pai (apesar de me recusar a ter como irmão o nefando Gaspar…), pode escrever as cartas que quiser que não conseguirá abalar esssa devoção filial. Saberia também que, nós os patos, animais sensíveis, temos um dispositivo de bloqueamento que mal lemos uma palavra desagradável já não continuamos a ler. “Uma… carta… de» e a seguir vêm as letrs p-r-o-t-e-s-t-o  – E a leitura parou automaticamente. As oito letras de protesto, ainda para mais lembram-se quando comprei um coelho insuflável (não me perguntem para quê – são coisas íntimas) e paguei em letras com vencimento mensal que depois foram protestadas…  Só leio cartas jubilatórias. É um dos segredos da felicidade dos patos – recusam-se a admitir o que é desagradável. E mando ao professor uma actuação minha na televisão que, espero. lhe seja agradável. É uma recordação de infância. A bailarina do meio é a minha prima… a tal. Esse boato das galinhas e do milho painço é uma infâmia – só gosto de patas, embora as galinhas, com aquele seu andar cadenciado e com o pescoço aa mexer ao ritmo dos passos, sejam tremendamente provocantes e eróticas… e um pato não é de pau. Mas milho painço, juro que nunca comi.

Uma carta de protesto  contra um Pato de algemas engalanado

Envergonho-me, sinceramente, sinto-me envergonhado. Escrevo a alguém que identifico como um revoltado dos sete costados,  a lembrar os tempos do CanardEnchainé, escrevo mesmo “meu querido Pato algemado de algemas engalanado”.   Depois, questionei-me:  será  por rimar que coloquei de algemas engalanadoou será antes porque os tempos que   que o esquecimento ainda não  comeu me fizeram  lembrar um livro de Luís de Sttau Monteiro, salvo erro, com o titulo Todos os anos pela Primavera, e já terão passado talvez perto de 50  delas  depois de o ter lido,   em que o autor discorria sobre alguém de direita que se fazia passar por esquerda. Será por uma ou outra razão, pensei.

O malandro do Pato Algemado publicou a minha carta, vá  lá, sem nenhum corte, sem nenhum beliscão. Mas leio a sua introdução e envergonho-me. Não tem nada a ver com o CanardEnchainé   jornal que fez cair poderosos. Não, o nosso pato Algemado quer-se encostar aos poderosos e quem é que ele imediatamente copiar? Quem? Quer-se encostar ao pior ministro de todos os piores e já são muitos os que de muito maus já  terão passado pelo Governo em Portugal. Dizem-me que comprou um curso, não, ou antes, dizem-me oseguinte do ministro Relvas:

.comprou a Universidade e – comprou o ministro do Ensino Superior que sobre o assunto nada falou

-comprou os alunos que deixaram de piar à espera de terem também um curso quase que de borla e legal e  comprou os pais destes que se silenciarem à espera de uns bónus nas propinas porque a crise aperta e o dinheiro falta – comprou as Universidades que nenhuma delas protestou nem contra a legislação  de Mariano Gago que esta bacanal de diplomas veio a permitir  nem contra a degradação do ensino a que se assiste desde há já alguns anos -comprou, em suma,  comprou o país que com a sua política continua a intensamente a f.o.d.e.r.

Na Europa transforma-se por magia carne de cavalo em carne de vaca e em Portugal temos este ministro, o Relvas, que por magia também transforma aulas de nada num diploma com selo branco de Universidadetimbrado e transforma o país de história de orgulhar perante o mundo num espaço de verdadeiros pedintes.  Mais ainda,  conseguetambém   transformar  em terrivelmente feio  um verbo e um acto que ao longo dos milénios tem alimentado a humanidade e graças à qual se andam a fazer as besteiras que nós estamos a ver, verbo e acto que se escrevem com as letras  anteriormente  não agrupadas, isoladas.

E o nosso pato quem quer copiar, então ? Exactamente o Relvas, pois claro. Mas o malandro do nosso pato quer ir mais longe, quer por essa via um emprego também, quer, vejam-me lá,  o cargo de   “de Guarda-Mor da Torre do Tombo” .  Nada disto é inocente. Nesta Europa de golpes de Estado palacianos, na Itália, na Grécia, de quedas provocadas por Bruxelas ou por esta capital negociadas, na Irlanda, em Portugal, com a queda de Sócrates a quem exigiram um plano de austeridade nas costas do povo, em Espanha, forçando Zapatero a saltar e indo lentamente permitindo que Rajoy faça o que eles querem, mas  mais lentamente do que o exigiram a Berlusconi, nesta Europa, onde a François Hollande,o candidato da esperança,  obrigaram que ele  matasse   rapidamente a esperançaa renascer na Europa porque esta esperança seria a via capaz de quebrar as algemas que o Pato não algemam  mas que tem o povo europeu amarrado e por causa das quais está a sofrer dramaticamente, nesta Europa  o nosso Pato afinal só está engalanado e quer emprego de luxo ganho pela pior forma possível, comprado a custo de nada, ou seja disposto depois a tudo.

E porquê assim? Porque o nosso Pato que só virtualmente está algemado, está é de algemas engalanado, e completamente mercadorizado a querer exclusivamente o que os financeiros querem: dinheiro fácil.  Quer emprego de posto garantido, porque por um lado a Cultura essa não morre, por outro lado, quer esse emprego para a vida garantido porque sabe que com esta Europa cheio de ministros semelhantes ou a disputarem todos eles o rating de pior ministros com o Relvas, qualquer dia nessa Europa  não haverá empregos para mais ninguém. Como?

Quem o diz é o patrão do grupo Titan( grupo americano) que nos diz “que em França brevemente vai deixar de haver empregos  e toda a gente passará o dia sentado nos cafés a beber vinho tinto”.

Numa carta enviada  a Arnaud Montebourg ,  ministro da Renovação do Aparelho Produtivo de França, o Presidente do grupo americano  Titan, Maurice Taylor Jr,  antigo candidato às presidenciais nos Estados Unidos em 1996, avisa que deixou de estar interessado em adquirir as instalações fabris da Goodyer-Dunlope escreve nos termos seguintes que,de tão violentos que são, eu  os deixo no original, na língua de Molière :

Vous pensez que nous sommes si stupides que ça ? Titan possède l’argent et le savoir-faire pour produire des pneus. Qu’est-ce que possède le syndicat fou ? Il a le gouvernement français. Le fermier français veut des pneus à bon prix. Il se fiche de savoir si les pneus viennent deChine ou d’Inde, et si ces pneus sont subventionnés. Titan va acheter un fabricant de pneus chinois ou indien, payer moins de 1 euro l’heure de salaire et exporter tous les pneus dont la France a besoin. Dans cinq ans, Michelin ne pourra plus produire de pneus en France. Vous pouvez garder les soi-disant ouvriers. Titan n’est pas intéressé par l’usine d’Amiens-Nord”.

O exemplo dos pneus pode ser referido e aplicado seja ao que for e portanto dentro de pouco tempo e em nome da globalização, da concorrência não falseada que Bruxelas defende, há a possibilidade de não haver empregos para mais ninguém, a não os da elite a que o nosso Pato de algemas engalanado se quer vender, como Bruxelas aliás está também ela a vender a Europa.

Assim:

-Depois de sabermos que Madrid será transformado no maior bordel da Europa por um lado, por  obrado desemprego criado pelas políticas impostas por Bruxelas e por  outro, pela empresa  Las Vegas Sandsque aqui irá em condições bem preferenciais criar o maior complexo de casinos que a Europa poderá conhecer,

-Depois de sabermos que na Alemanha o Instituto de emprego arranja emprego para raparigas para trabalharem nas  casas de putas.

-Depois de sabermos que em Bona e para preencher os cofres da Câmara vazios,  porque a imposição fiscal pode ferir a concorrência alemã  na economia global, as putas pagam um imposto à cabeça de 6 euros por noite de trabalho, em bilhete para o efeito comprado em “putómetros” especiais, disponibilizados e colocados pela Câmara nas zonas da cidade.

Depois disto, é claro que nada édiferente portanto, do que uma venda do Pato de algemas engalanado  ao  senhor Relvas,  mas não engane ninguém, senhor Pato afinal, a menos que queira  envergonhar toda a gente.

Júlio Marques Mota

E terminamos esta edição especial com um cartoon que o famoso Vasco desenhou expressamente para nós

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