GIRO DO HORIZONTE – INDIGNADOS – por Pedro de Pezarat Correia

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A notícia chegou no dia 28 de Fevereiro: morreu Stéphane Hessel, com 95 anos de idade, este jovem que aos 93 anos, olhando para o futuro, apelava aos seus concidadãos do mundo, INDIGNAI-VOS! EMPENHAI-VOS? Este Homem em cuja vida tudo foi simbólico e paradoxal, nasceu em Berlim, alemão e judeu, no ano de 1917 em que se desencadeou a revolução soviética. Com s pais emigrou para França fugindo ao inferno nazi e foi como cidadão francês que iria participar na resistência contra a ocupação e a barbárie hitleriana. Companheiro de comunistas na resistência francesa, depois da guerra foi numa perspectiva europeia ocidental que participaria na ONU na redacção da declaração Universal dos Direitos do Homem. De origem judaica, era pela Palestina que, na actualidade, manifestava a sua principal indignação, solidário com os mais de três milhões de palestinianos que o estado de Israel expulsou das suas terras (Indignai-vos p. 32). Porque,acrescentava, é inadmissível que judeus possam perpetrar crimes de guerra (id. 33).

No dia em que escrevo, 2 de Março, em que multidões de indignados inundam as ruas das principais cidades portuguesas, o apelo de Hessel está vivo em todos nós. Quando afirmava que hoje, mais do que nunca, precisamos dos valores da resistência francesa porque está a ser posta em causa a base das conquistas sociais da Resistência (id. 18 e 20), é o que nós traduzimos aqui, em Portugal, porque hoje, mais do que nunca, precisamos dos valores do 25 de Abril porque estão a ser postas em causa as conquistas de Abril. E por isso todos os dias, em todas as oportunidades em que pode confrontar-se com os (ir)responsáveis do nosso (des)governo, os portugueses, indignados, lhes atiram à cara a mensagem de Abril codificada nas grandoladas.

Hessel lembrava que o motivo basilar da Resistência era a indignação. Hoje, que não cessa de crescer o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, apelava à juventude para que dê vida aos ideais legados pela Resistência (id. 21). Esse apelo vai inteiro para a justamente indignada juventude portuguesa, para que recupere a luta pelos valores que desembocou no 25 de Abril de 1974, que Hessel acompanhou com a simpatia e o apoio de um resistente indefectível.

            Contra a indiferença, façamos eco da indignação de Homens e Mulheres como Stéphane Hessel, porque também as nossas vidas, se bem que menos longas, depois de tanta esperança, nos vêm dando amplos motivos de indignação (id. 24). Estas matilhas de medíocres, hipócritas, tecnocratas obcecados com números e estatísticas mas insensíveis aos dramas humanos que eles próprios fomentam, que estão a destruir a Europa e a encaminhá-la para um desfecho que pode ser trágico, têm de ser urgentemente apeadas. O povo que mais ordena tem de recuperar um valor que lhe está a ser confiscado, o da soberania. Que o faça por meios democráticos enquanto é tempo, no sentido mais nobre da democracia, representativa e participativa, antes que também a democracia lhe seja confiscada.

            Trata-se de, legitimamente, dar sentido à legítima indignação.

4 de Março de 2013

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