Os gritos de alarme alastram por toda a Europa. Bem, nem por toda a Europa porque grande parte do continente, infelizmente dentro e fora da União, já sabe do que se trata. Nacionalismos e populismos correm nas veias do espaço europeu, de oeste a leste, e não é necessário que venha um palhaço em Itália – e aqui se respeita o talento e os méritos dos que verdadeiramente o são – alarmar as consciências postas em sossego.
É importante relembrar o que se sabe e às vezes se esquece: os populismos crescem como ervas daminhas onde falha a democracia. Não é preciso ir buscar o caso de Hitler, todos sabemos onde podemos encontrar exemplos. O exemplo de Beppe Grilo, e também o de Berlusconi – ou será este poupado ao anátema do populismo só porque se deu bem com a srªa Merkel e com o dr. Barroso? – não fogem à regra. A sua presença em força impede a Itália de formar um governo decente e de acordo com as normas ditas democráticas.
Não adianta gritar aos quatro ventos “aí está o populismo!” Está sim senhores, a surpresa seria se não aparecesse em tais circunstâncias. Recessão, desemprego, salários de miséria, fome, ausência de perspetivas e futuro tanto para jovens como para menos jovens, eis o caldo de cultura dos populismos ao longo da História.
No entanto, recessão, desemprego, salários de miséria, fome e a ausência de perspetivas para jovens e menos jovens é o que a senhora Merkel e os senhores de Bruxelas sabem oferecer aos europeus que têm a triste sina de penar na União Europeia. Apesar dos sinais, continua a não existir alternativa: austeridade ou nada.
Deste quadro só é possível extrair uma conclusão. Enquanto gritam contra os populismos, os poderes europeus são os principais responsáveis pelo ascenso do populismo. Eles são aliados objetivos, não inimigos. São farinha do mesmo saco. Ambos cuidam de criar situações propícias aos pescadores de águas turvas. A diferença é que, na maior parte dos casos, os populismos estão fora dos centros de decisão e assim pretendem continuar, até ver. Os poderes não: mandam, decidem, escravizam. É isso que está em jogo. Os populismos são os maiores aliados do status quo. Nada criam, apenas arengam. Os que sempre decidiram, continuam a decidir.
Enquanto isso, os dirigentes no poder e os seus aliados, jornais ditos “de referência”, continuam a falar de democracia como se ela existisse. À sua volta, as instituições democráticas desmoronam-se, as Constituições são letra morta, os aprendizes de feiticeiros medram, mas todos os outros estão errados menos eles, os donos da democracia, seja lá o que entendem por isso.
Na verdade, o que eles querem é que se confunda o poder do povo com populismo. A manobra é reles e insidiosa. “O povo é quem mais ordena”, canta-se em Portugal, e também por essa Europa fora. Esta força e esta mensagem democrática é que afligem os populismos e os que deles se servem, dizendo que os exorcizam.
Os que liquidam a democracia e abrem a porta aos populismos seguem uma estratégia que não é inocente. A estratégia de inviabilizar a aplicação da democracia… em nome da democracia.

Não deixava de ser interessante uma referência ao papel demolidor da Democracia que, durante anos,foi uma obra nefasta das chamadas esquerdas. As suas obediências alienígenas – vergonhosamente alienígenas – desde o final da 2ª Guerra, só lhes deram descrédito e argumentos fortíssimos para que a População – para mais multinacional – sucessivamente as abandonasse. Não só conseguiram ser afastadas da área do poder político como, sobretudo, contribuiram para gerar o vazio que abre as portas aos populismos.CLV