D. JOÃO II – O PRÍNCIPE PERFEITO
(reinou de 1481 a 1495)
Manda prender o duque de Bragança que é degolado.
Mata pessoalmente o cunhado D. Diogo apunhalando-o.
«Filho de D. Afonso V e de sua prima, a rainha D. Isabel. Nascido em Lisboa, a 3 de Março de 1455, logo em Junho era jurado herdeiro, por ter morrido, ainda de colo, o primogénito de Afonso V, e ser o segundo filho do casal régio uma princesa, D. Joana, mais velha que ele três anos.
Aos seis meses de idade, falecia-lhe a mãe, amargurada ainda pela tragédia recente de Alfarrobeira. Seu pai, viúvo de 23 anos, confiou os órfãos aos cuidados da cunhada e prima solteira, infanta D. Filipa, irmã mais nova da defunta rainha. Não é demais admitir que teria sido esse estreito convívio de criança com a filha mais nova do avô materno o que no seu espírito precocemente grave de herdeiro da Coroa mais teria influído para a sua futura conduta de homem e de rei.
Aquilo que em tal ambiente teria longamente ouvido dos trágicos sucessos familiares e dos êxitos da Ínclita Geração acaso lhe teriam preparado o duro ânimo e a clara inteligência para as directivas dominantes do seu ofício de rei.
Alguns cronistas descreveram-no como «um homem mais alto do que baixo, espadaúdo mas bem proporcionado, enxuto de carnes e dextro, de grande força a ponto de cortar de um só golpe quatro tochas juntas; coisa que nunca achou quem fizesse». Aos seus olhos afluía por vezes, muito sangue, o que, nos acessos de ira, lhe davam «um ar mui temeroso». No entanto, dois cronistas, Rui de Pina e Garcia de Resende, também observadores directos e admiradores, não acharam D. João tão formoso assim. Rosto e nariz compridos e este «derribado», o que lhe daria fala nasal. Olhos pretos com as «brancas» raiadas de sangue. Aos 37 anos, cabelo e barba grisalhos. Depois dos 30 começou a engordar, ou a inchar devido à doença, ou à peçonha, de que morreu aos 40 anos e meses.
Casamento com a prima D. Leonor.
Em 1471, então com 15 anos, desposou D. Leonor, com 12 anos, sua prima e co-irmã, filha do infante D. Fernando, duque de Viseu. Da união resultou apenas um filho D. Afonso, que casou com D. Isabel, filha dos Reis Católicos. D. Leonor de Lencastre, destacava-se, pela formosura, inteligência era de temperamento muito diverso do seu real consorte. Ela, linda e faceira, era impressionantemente bondosa. Tinha a fisionomia suavíssima, marcada pelos olhos azuis e cabelos louros, herdados de sua bisavó, D. Filipa de Lencastre.
D. João II começa cedo a destacar-se em tudo o que é acção. Com 16 anos – e por sua firme decisão de se provar também pelas armas, embora já recém-casado com sua prima D. Leonor – levou-o seu pai na expedição de assalto e tomada de Arzila, em cujas ruínas fumegantes o armou cavaleiro por sua bravura de combatente. Três anos depois, delegava-lhe já plenos poderes para gerir em seu nome a administração política das possessões de Portugal em África «nas partes da Guiné»; e foi essa, inconscientemente, a mais acertada, se não a única, das suas resoluções régias.
Bem cedo, seu pai, monarca tão culto como incongruente, lhe reconheceria a superioridade precoce, nele se revendo com ingénuo orgulho e quase se lhe submetendo por fim num misto de enlevo, respeito e confiança.
Com mão de ferro, o moço príncipe de 19 anos apossou-se dos mais instantes problemas, dando a medida da sua capacidade e rija têmpera de futuro monarca.
Em Agosto de 1481, por morte de Afonso V, era D. João aos 26 anos aclamado rei. Desde logo, D. João II mostra grande capacidade governativa, mas queixa-se que o pai só lhe deixara as estradas do reino.
O seu sentido de poupança no que tocava às despesas do reino não obstava a que andasse sempre ricamente vestido, ostentando-se nos magníficos festins que promovia.
Logo no início do reinado, D. João II conseguira, com decisão, retirar à Nobreza o poderio que se tornara perigoso por ser quase tão grande como o da Coroa; mas não pusera de parte a colaboração dos nobres nas altas funções para que estavam especialmente preparados. Apesar de ser o primeiro dos Reis de Portugal que teve o cuidado de ter nas suas mãos todos os poderes do Estado, reúne Cortes com frequência e ouve, atento, as queixas e os conselhos.
Os seus primeiros anos de reinado, de 1481 a 1484, viu-se coagido a consumi-los na áspera luta pela sobrevivência pessoal.
Manda prender o duque de Bragança que é degolado.
As conspirações e tentativas de assassínio forçaram-no a manchar as mãos de sangue, em 1483, com a execução pública do poderoso duque de Bragança, em Évora, por crime de lesa-majestade. Os problemas surgem-lhe no interior do país. A nobreza, cada vez mais poderosa e arrogante, contesta o rei e bandeia-se com Castela. D. João finge não perceber os insultos e a possível traição. Depois de ter a certeza que D. Fernando, duque de Bragança era o chefe, prende-o, julga-o e manda-o degolar, confiscando-lhe todas as terras que possuía. O irmão do duque, o marquês de Montemor consegue fugir e o conde de Faro, também irmão dos primeiros, morre antes de ser condenado.
