Novas Viagens na Minha Terra
Série II
Capítulo 91
Milagre de Santiago
São quatro e um quarto, vejo o céu muito baixo mas, por enquanto, ainda não chove. Situo os passeios de Tomar a cerca de dez quilómetros daqui, não ignoro que terei de caminhar à beira da estrada nacional… Sem – no mínimo – haver bermas. Será um percurso difícil, para além de perigoso. Convém despachar-me para não o percorrer com chuva. E de noite.
Acelero portanto o ritmo. Atravesso Asseiceira, chego a Guerreira. Sigo por uma comprida zona industrial caminhando à beira da estrada, sem passeio, nunca é demais repeti-lo, passo pela Caça Brava, pelo Pinto Valouro, por um campo com painéis solares, por gruas, postes, chaminés, depósitos, armazéns, uma ou outra casa, prossigo pela beira da estrada, vários camiões apitam, sem reduzirem a velocidade, sem respeito pelos peões, percorro contudo o Caminho de Santiago, por aqui passam alemães, ingleses, espanhóis, para além dos portugueses, as setas amarelas vão-nos guiando, porventura ou desventura para o cemitério… Entro em pânico quando a barreira metálica me retira o último recurso: saltar para a valeta. Encontro-me todavia ainda no Caminho de Santiago. Passam camiões a grande velocidade que, nalguns sítios, nem me podem ver, caso queiram evitar-me, chego à rotunda do mobiliáro “A Feira”, ignoro se ainda inteira, ter-me-á escapado qualquer peripécia na margem da realidade, na margem do mundo, na margem da morte… Haverá quem venha aqui fazer compras?! Consigo enfim alcançar um passeio. Desço para o caminho paralelo à linha do comboio. Sento-me para recuperar… Embora sem alívio: não ignoro que este trilho termina em Carvalhos de Figueiredo. Surgem entretanto duas mulheres, consigo recuperar a voz, inquiro se conhecem algum recurso pedestre de Carvalhos de Figueiredo a Tomar, porém elas não mo sabem explicar, segue-se pela beira da linha, não só mas também, é preciso saber…
Não me sinto com paciência para ascender ao Alto do Piolhinho, ziguezaguear pelos arredores, subir e descer, como há dois anos, lembrando-me que caminhei, aqui e além, à beira de estradas perigosas e terminei a etapa, a partir de S. Lourenço, pela nacional; por conseguinte opto, a partir daqui, já pela N110: o percurso mais curto. Saio por isso provisoriamente do Caminho de Santiago, cujas setas voltarei a encontrar no último quilómetro. Daqui até Tomar há sempre casas, há sempre peões – faltam os passeios. Caminho com o pé direito no alcatrão, o esquerdo na valeta, é extremamente cansativo, os habitantes escolheram há muito o alcatrão, chego a ver uma família, a mãe com um bebé, a menina e a avó, os carrros apitam, mais uma agressão, para além do risco… Deixo ao leitor as conclusões sobre o respeito da autarquia pela população que aqui mora e paga impostos.
Não voltarei a percorrer esta etapa. Seja com calor, seja com frescura, seja de que maneira for: a entrada em Tomar com vida é um milagre. Aconselho muito que quem seguir o Caminho de Santiago opte pela variante de Santarém a Arneiro das Milhariças, Minde, Fátima… É um percurso para caminhantes.
