CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 27 – por José Brandão

Mata pessoalmente o cunhado D. Diogo apunhalando-o.

Os nobres continuam a não se dar por vencidos, o rei sabe-o. Um deles é o próprio cunhado, o duque de Viseu que planeia, com outros conjurados assassinar o rei em Setúbal. D. João II é avisado por Vasco Coutinho, irmão de um dos conspiradores. Chama o duque de Viseu a Palmela apunhalando ele próprio o seu cunhado e fazendo envenenar, numa cisterna do Castelo de Palmela, o bispo de Évora, D. Garcia de Meneses; o irmão é degolado, a muitos outros acontece o mesmo. Só o conde de Penamacor consegue fugir para Itália.Imagem1

Mas tanto primava no seu espírito a política de expansão para engrandecimento da grei que, mesmo no auge das conjuras e ciladas contra a sua vida, se aplicava serenamente, metodicamente, à execução do plano militar henriquino.

Era Lisboa o centro vital aonde convergiam de toda a Europa as últimas informações ou novidades em matéria de investigação ou teorias geográficas, cosmográficas, astronómicas. Em toda a Europa era seguramente o rei de Portugal quem mais sabia a geografia do seu tempo.

A sua acção manifestou-se também na luta contra os Judeus, classe que crescia em número e em rendimento, e à qual D. João muito dificultou a vida, expulsando-os do reino entre muitas outras medidas e perseguições.

Em fins de 1490, no faustoso casamento do seu herdeiro, o moço príncipe D. Afonso, com a herdeira de Castela e Aragão, atingia D. João II o apogeu do seu reinado. Pela primeira vez, depois da Roma Imperial germinava no espírito dum príncipe da Europa a ideia dum imperialismo europeu, de hegemonia sobre os outros povos do globo, dominador e condutor do Mundo, sob a égide da alta cultura ocidental.

Efémero foi esse deslumbramento de 1490. Meses depois, o acaso dum banal desastre da queda dum cavalo, fatal para o seu único filho legítimo, recém-casado e ainda sem herdeiro, fazia-lhe ruir pela base, irremediavelmente o deslumbrante sonho.

O consórcio, que preconizava as esperanças dos reis portugueses ao trono de Castela, resultou em vão, dado a morte precoce do príncipe num acidente a cavalo enquanto seu pai se banhava no Tejo. Estavam desfeitos os sonhos de unificação ibérica, e mesmo a nossa soberania enfrentava perigos.

A partir daí o rei nunca mais foi igual. Outro revés: a descoberta da América (dita Índia) por Colombo, ao serviço dos ex-sogros do filho e não do reino de Portugal, como inicialmente era previsível e tinha sido possível. Desiludido mas não vencido, D. João II elabora o tratado que viria a ser chamado de Tordesilhas, aí assinado a 7 de Junho de 1494. Dividiu-se o mundo conhecido de então, o que veio a «legalizar» a posse portuguesa do Brasil que, não estando ainda descoberto, se adivinhava já.

E todavia nem os tremendos golpes da adversidade lhe quebrantavam o ânimo.

Mais ou menos o perseguia, desde o berço, um signo mau de fatalidade. Órfão de mãe aos seis meses, casava sem amor na adolescência com uma prima que o temia e detestava, feria-o na alma, em pleno esplendor da vida a morte do único filho, legítimo herdeiro, carne da sua carne, e seu único consolo de ternura; e finalmente vencido e humilhado na sua desesperada luta e derradeira ambição de legar a gloriosa Coroa a outro herdeiro do seu sangue, o bastardo D. Jorge, nem isso lhe era dado gozar, em prémio do que tão exclusiva e audaciosamente despendera na curta vida de quarenta anos.

No que toca ao coração, D. João II caiu de amores por uma senhora da alta nobreza do reino, D. Ana de Mendonça «mui formosa e prazenteira». Os cronistas da época, a partir daqui, mais interessados no comércio e nos Descobrimentos pouca atenção prestam às amásias reais em geral, e aos amores em particular.

O que é certo, e disso há registos suficientes, da união nasceu o bastardo, D. Jorge, muito querido de seu pai e ao qual esteve prestes a suceder. Morto seu filho legítimo, a este el-rei se apegou, chegando ao ponto de o mandar criar à rainha. D. Leonor que anuiu e, de bom ou mau grado, recebeu-o no paço e tratou-o como se seu filho fosse. Só que ódios e vinganças, ao longo dos tempos acumuladas, obrigaram-na a tomar partido por D. Manuel e não pelo bastardo, a quando da morte do marido, solução que se veio a concretizar.

Em 1476, D. Leonor ficou como regente do reino, por D. João II ter de se ausentar em defesa de seu pai em Castela.

D. Leonor voltou a ser regente do reino em 1498, já durante o reinado de D. Manuel.

A estranha morte de D. João II, há muito enfermo de «singular padecer», não esteve alheia às artes da rainha. Esmagado de dor, a pouco mais de um ano da sua vitória de Tordesilhas, o incansável batalhador, na tarde de 25 de Outubro de 1495, morria em Alvor, obscura praia do Algarve, onde fora buscar alívio aos padecimentos dum mais que provável envenenamento, em que a própria rainha D. Leonor foi suspeita de cumplicidade.

Quando morre D. João II, Portugal está já preparado para viver a época mais gloriosa da sua História.» *

* José Brandão, A Vida Dramática dos Reis de Portugal, pp. 125-129.

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