REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

Nota de leitura sobre o  texto da revista The Economist:

Publicámos um texto com fotografias dos anos 30, na sequência de uma série de textos que diariamente temos vindo a publicar em A viagem dos argonautas e que tem como título A caminho dos anos 30 . Hoje, retomamos a série  de forma mais específica  com textos sobre os anos 30 que espaçadamente serão publicados no nosso blog, um por semana,  a relembrar a terrível relação  entre a situação presente e a daquela época.

Diz-nos Satyajit Das , num texto que publicámos de 24 a 27 de Fevereiro,  que o jogo está a chegar ao fim mas sem se saber como vai acabar a partida:

“Enquanto, de facto, a integração é o resultado mais provável, uma transição suave não está ainda garantida. As fugas actuais do dinheiro para as nações sitiadas, querendo em primeiro lugar activos sobre o orçamento alemão, a poderem significar degradação da notação para os membros do núcleo da zona Euro ou então um aumento da inflação e o aumento dos preços no consumidor pode alterar rapidamente a dinâmica. Se os eleitores na Alemanha e nos outros Estados mais fortes tiverem conhecimento da realidade do pool de dívida e das transferências de riqueza estrutural institucionalizada, o resultado pode ser bem diferente. Uma contínua deterioração da actividade económica, exigindo mais resgates assim como um nível de desemprego insustentável e uma forte desagregação social pode ainda desencadear o repúdio de dívidas, incumprimentos ou mesmo um colapso do Euro e da zona do Euro “.

A crise agudiza-se, Portugal, Itália, seja quem for que aí venha a ganhar as eleições, a Grécia, Chipre,  Espanha, mostram à evidência que o fim do jogo pode ser explosivo, hipótese que DAS não rejeita, embora  considere que esta hipótese é a menos provável.  Um fósforo, socialmente queimado, em qualquer sítio, em qualquer manifestação, em qualquer funeral de uma das vítimas da crise, um incidente de detalhe com a polícia ou mesmo uma qualquer provocação por esta montada pode colocar a Europa a arder, a lembrar de modo diferente é certo, o Reischstag a arder. Esperemos que não venha a ser assim. O   texto que agora apresentamos, publicado por uma das mais importantes e  influentes revistas semanais,   defensora de referência do liberalismo,  é um exemplo claro de que a direita mais lúcida do capitalismo  se apresenta assustada perante os cenários que as opções de Bruxelas, de Merkel, do FMI, podem levar a que se verifiquem  na Europa.

 Claramente, um texto a não perder. Sinceramente esperamos que haja um rasgo de lucidez por aquelas bandas e que estes cenários dantescos possam ser evitados.

Boa leitura

Júlio Marques Mota

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Lições dos anos de 1930

The Economist, Lessons of the 1930s

Parte I

Depois, pode ainda haver graves problemas

Em 2008 o mundo evitou uma segunda Grande Depressão, evitando os erros que levaram à primeira, à de 1929. Mas há ainda mais lições a aprender quer na Europa quer na América

1930 - I

“Tem razão, nós fizemo-lo, disse Ben Bernanke a  Milton Friedman num  discurso em que se celebrava  o 90º aniversário do Prémio Nobel em 2002. Ele referia-se à conclusão de   Friedman que os bancos centrais  foram responsáveis por grande parte dos males provocados na depressão de 1929. “Mas graças a si ,” continuou o futuro Presidente do Federal Reserve, “nós não vamos  fazê-lo novamente.” Nove anos  mais tarde,  Bernanke e os seus pares estavam-se  a congratular  eles próprios  por terem  cumprido  essa promessa. “Nós impedimos  uma outra grande depressão”, disse o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, segundo relata  o Daily Telegraph em Março deste ano.

O choque que atingiu a economia mundial em 2008 foi equivalente em intensidade,  em profundidade, em dimensão, ao  choque que lançou a economia americana na Grande Depressão de 1929. Nos 12 meses que se seguiram ao pico  económico de  2008, a produção industrial caiu tanto como ela caiu no primeiro ano da Grande Depressão de 1929. Os preços dos títulos e o  comércio global cairam ainda mais. Mas desta vez sem ser seguida, depois, como o foi nessa altura, por  uma grande depressão. Embora a produção industrial mundial tenha diminuído de 13% do seu valor máximo ao seu valor mínimo alcançado no que era já definitivamente uma recessão profunda, esta produção caiu  cerca de 40% na década de 1930.  As taxas de desemprego na América e na Europa subiram para um  pouco mais de 10% na crise recente; os valores correspondentes  na crise de 1929 são estimados terem alcançado perto de  25% na década de 1930. Esta notável diferença nos resultados deve-se, e em muito, às lições aprendidas com a depressão

O debate continua quanto ao que terá feito com  que a depressão tenha sido tão  longa  e tão profunda. Alguns economistas sublinham os factores estruturais tais como os custos do trabalho. Amity Shlaes, um historiador sobre questões económicas, defende que “a intervenção governamental  ajudou a criar  a Grande Depressão.”  E Shlaes  observa que o Presidente Franklin Roosevelt criminalizou  os agricultores que venderam galinhas a muito mais baixo preço  e que “gerou  mais papel do que  em toda a legislação do governo federal desde 1789”.  O seu  livro, “The Forgotten Man”, é extremamente influente entre os republicanos na  América. Newt Gingrich adora-o.

Uma visão mais habitual  entre os economistas, no entanto, é a de que as políticas monetárias e orçamentais restritivas aplicadas em simultâneo transformaram   uma   situação difícil numa situação terrível. Os governos desta vez não cometeram tais asneiras Enquanto na altura, nos anos 30, os dirigentes  cortaram nos orçamentos e os bancos centrais   aumentaram as taxas  de juro,  agora, em 2008, a política foi quase uniformemente expansionista após o crash de 2008. Enquanto na década de 30 a cooperação internacional face à crise se  desfez durante a depressão, levando à concorrência entre as moedas, as desvalorizações,  e ao proteccionismo, os dirigentes de agora estiveram todos unidos, em conjunto,  em 2008 e 2009. Sir Mervyn tem razão.

Olhando  agora  e com mais detalhe, no entanto, a imagem é porém menos confortante. E isto em duas importantes áreas e entre si relacionadas, o mundo rico ainda pode estar a cometer    erros semelhantes aos que também foram feitos na década de 1930. Corre-se  o risco de repetir a pressão orçamental que se aplicou na altura, na década de 1930.  Corre-se o risco de repetir a pressão orçamental que criou na América  ” a recessão dentro da  depressão” nos anos  de 1937-38 nos Estados Unidos . E a crise na Europa parece estranhamente similar à turbulência financeira da década de 1920 e do início da década de 1930, em que as economias caiam como peças de dominó sob a pressão das políticas de austeridade , de crédito a taxas altas e com a falta de um refinanciador de última instância . Em suma, há mais lições que ainda estão por aprender.

(continua)

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