ENTREVISTA COM SHLOMO SAND, O AUTOR DE “A INVENÇÃO DO POVO JUDEU” – por Juremir Machado da Silva*

*Transcrito de O  Correio do Povo, Porto Alegre, Brasil, com revisão para a norma portuguesa. A Juremir Machado da Silva e ao jornal, os nossos agradecimentos

Diz Juremir: “Adoro voltar a ser repórter de cultura. Mandei um e-mail para o historiador Shlomo Sand. Ele me enviou seus telefones. Liguei para ele em Israel. Conversamos durante quase uma hora. Pagarei uma fortuna. Resumo do papo:”Imagem6

JMS – O senhor lutou na Guerra dos Seis Dias?

Sand – Claro. Fui soldado. Infelizmente ajudei a conquistar Jerusalém para Israel. Saí sem ferimentos.

JMS – O senhor nasceu num campo de refugiados, não de concentração, obviamente, na Áustria ou na Alemanha?

Sand – Na Áustria, onde só ficamos três semanas. Passámos imediatamente

para um campo de refugiados na Alemanha.

JMS – Mantem as suas ideias de que judeus atuais askenazes descendem dos khazares, um reino convertido ao judaísmo?

Sand – Claro que mantenho. É uma evidência. Só os ignorantes e os sionistas rejeitam isso. Em todos os sentidos, inclusive demográficos, os judeus do leste europeu não poderiam ter saído de onde se diz. A origem mítica judiaica é uma construção sionista do século XIX.

JMS – As críticas não o abalaram?

Sand – Tive mais elogios do que críticas. Grandes historiadores como Tony Judt, Marcel Détienne e Eric Hobsbawm elogiaram-me. Edgar Morin apoiou-me. Noam Chomsky gostou. Eles são muito mais importantes do que os sionistas que me atacaram. Críticas sionistas são comprometidas. Ganhei o Prix Aujourd’hui 2009, o mais importante prêmio atribuído pelos jornalistas franceses. O meu livro será traduzido em 21 línguas. Só os sionistas fanáticos é que o recusam. Mas não conseguem refutá-lo.

JMS – Alguns dos seus críticos afirmam que as suas ideias servem aos antissemitas? Isso chega a incomodá-lo?

Sand – Dizer que isso é uma asneira é pouco. Não passa de uma chantagem primária. Não sou antissemista. Sou de origem judaica. Mas ser judeu não é pertencer a uma raça. Isso não existe. Quem pensa assim é racista. Um judeu brasileiro é antes de tudo um brasileiro de religião judaica. Quase nada há em comum entre um judeu polaco e um judeu brasileiro. Não existe uma cultura laica judia.

JMS – O facto de ser um especialista em história europeia deslegitima o seu trabalho sobre a história judaica?

Sand – Outro disparate. Trabalho na Universidade de Telavive, onde há um departamento de história judaica e outro de história geral, que não se comunicam. Por eu ser especialista em história geral não poderia falar da história judaica? Só aos sionistas interessa essa ideia.

JMS – Para o senhor, como mostra em “A invenção do povo judeu”, o judaísmo é uma religião, não uma nação ou um povo. Significa que Israel não tem direito histórico ao seu território ou que deve partilhá-lo com os palestinianos?

Sand – Israel não tinha qualquer direito histórico sobre o actual território. Isso é loucura. Dois mil anos depois, com gente nascida por toda parte e de origens diferentes, que é direito é esse? Estou escrevendo uma continuação de meu livro, “O mito da terra de Israel”. Por que um brasileiro de remota origem judaica tem direito a ir morar em Israel e um palestiniano nascido em Jerusalém não pode voltar para a sua terra natal? Israel deve existir por ser um facto consumado. Recuar seria uma tragédia. Devemos formar uma confederação de dois estados nacionais para resolver o problema e ir em frente. Viveremos em paz quando formos israelitas, não judeus.

3 Comments

  1. O texto e a ideia são bem interessantes. Mas, quando diz que quase nada há de comum entre um judeu polaco e um judeu brasileiro, o autor demonstra certa ignorância sobre o Brasil. Ignora, por exemplo, que, por aqui, a maioria dos judeus vieram – tanto antes quanto depois da guerra – justamente de países como Polônia, Alemanha, Rússia. Poucos ou quase nenhum vieram de Israel ou da península Ibérica. Então, não se trata de conversão. Pode ser que os que vieram da Alemanha, da Rússia e da Polônia ou Ucrânia, estes, sim, sejam apenas europeus convertidos, mas, os daqui, são, sem dúvidas, descendentes deles, diretamente, e não apenas índios ou brasileiros convertidos à mesma religião deles. Esta mesma ideia, equivocada, é retomada em sua última resposta, quando diz que os brasileiros teriam uma “remota origem judaica”. Como se estivesse estabelecendo uma gradação, racial, que diminuiria, por sua, digamos, pele, o judaísmo dos brasileiros em comparação com outros povos, europeus ou caucasianos. Mas a ideia do livro em si e seu posicionamento quanto ao suposto direito dos povos vindos de todos esses outros lugares, inclusive do Brasil, em detrimento de não menos racialmente judeus palestinos é bastante interessante, parece correto.

    1. Mesmo os católicos brasileiros têm pouco em comum com os católicos portugueses, quanto mais os judeus polacos com os judeus brasileiros.

      Desde quando em Portugal se assiste a esse espectáculo terceiro mundista do golpe/não golpe de estado, com deputados a revelar um grau de atraso cultural e analfabetismo nunca vistos por aqui em Portugal.

      Mesmo os brasileiros são diferentes entre si, qual é a semelhança entre um nordestino de um paranaense? Só se for o analfabetismo e a ignorância típica do brasileiro.

      O mundo é um bocadinho maior que o Brasil, e muito mais diverso que aquilo que existe na mata descoberta pelos portugueses. Os portugueses descobriram o mundo, os brasileiros nunca saíram da mata, e essa é uma grande diferença entre um católico brasileiro e um católico português.

  2. Em 18 de março de 2019

    Mensagem a qualquer leitor: gostaria de frisar um aspecto não focalizado na obra de Shlomo Sand: o de um cristão católico que abandona a sua religião de nascimento e de sua família, e torna-se judeu, no sentido religioso do termo.Foi o que me sucedeu. Isto não afetou em nada minha brasilidade. Amo a minha pátria, o Brasil, e proclamo minha crença na religião judaica, independentemente de Israel ter passado e existir como um Estado independente. Se tal fato histórico não tivesse ocorrido, isto não teria impedido minha conversão ao Judaísmo. Por que a conversão ocorreu? Porque, teologicamente falando, considero o Judaísmo uma religião muito mais razoável do que o Cristianismo. Para mim, Deus é único, e creio nEle tanto quanto Jesus também acreditava. A Trindade é algo que me parece ilógico. Acreditar que Deus é trino, e que o sacrifício do Filho foi imposto a este como preço do pecado de Adão, que comeu do fruto proibido, parece-me algo delirante. E, de acordo com os cristãos, se o Filho é Deus, em nada ele é inferior ao Pai, nem pode haver duas vontades divinas conflitantes. Portanto, não faz sentido a frase de Jesus, registrada nos Evangelhos: “Não se faça porém a minha vontade, e sim a vossa.” Como duas Pessoas da Trindade podem ter vontades conflitantes? E como Deus (Pai) pode determinar que Deus (Filho) tem de ser crucificado, para que Deus em sua Unicidade possa perdoar o pecado de Adão e Eva? Tudo isto não parece delirante? Portanto, optei pelo Judaísmo, mas não estou fazendo proselitismo. E se o leitor católico, após ler essas considerações, quiser continuar a professar sua crença cristã, eu estou aqui pronto a defendê-lo com unhas e dentes. Grato pela atenção, leitor amigo.
    Francimar de Oliveira (oliveiracearense@gmail.com,br)

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