REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

Lições dos anos de 1930

The Economist, Lessons of the 1930s

Parte II

(continuação)

A correr para o abismo 

Foi muito mais fácil estimular a economia em 2000 do que na década de 1930. As linhas de  segurança social — introduzidas  no rescaldo da Depressão — significam que hoje os desempregados têm dinheiro para gastar, fornecendo-se assim  uma almofada contra a  recessão sem qualquer outra  intervenção activa. Os estados são mais desinibidos face a eventuais situação de  criação de défices e têm muito poder sobre grandes partes das  respectivas economias que então. O pacote de despesas públicas, de obras públicas, de outras despesas públicas e de cortes nos  impostos que o presidente Herbert Hoover introduziu face ao crash de 1929 era qualquer coisa que não atingia  0,5% do PIB. O plano de estímulo do Presidente Barack Obama, pelo contrário, foi equivalente a 2-3% do PIB em 2009 e 2010. O orçamento no tempo do Presidente Hoover representava cerca de 2,5% do PIB; hoje, com Obama representa 25% do PIB e vive-se com  um défice de 10%.

Roosevelt gerou despesas públicas correspondentes a 10,7% do PIB  em 1934, através das quais  a economia americana estava a crescer fortemente. Em  1936, o PIB ajustado pela inflação já estava a atingir os valores de  1929. De quanto é as despesas públicas gastas com o New Deal ajudaram a recuperação, isso é  ainda hoje um tema de debate . Alguns economistas, como John Cochrane da Universidade de Chicago e Robert Barro de Harvard, dizem não a tudo, que as medidas orçamentais nunca funcionam, dizem eles.

Aqueles que pensam que as medidas orçamentais dão resultados positivos, isto é, que  estas medidas funcionam, contudo , tendem a acreditar que, na década de 1930, os gastos  públicos foram menos importantes do que a política monetária, o que eles vêem como a principal causa do mal provocado. Num artigo de  1989,  Bernanke e Martin Parkinson, agora o funcionário de topo no Ministério das Finanças na Austrália, escreveram que mais do que fornecer a recuperação económica propriamente dita “o New Deal é melhor caracterizado   como tendo “aberto o  caminho ” para uma recuperação natural.” Outros, tais como como Paul Krugman, atribuem um papel ainda bem mais positivo para as despesas públicas de relançamento da economia.

Qualquer que seja a  importância relativa atribuída à política monetária e orçamental, porém, há pouca dúvida de que as duas aplicadas em simultâneo e ambas restritivas  durante cinco anos na situação de Depressão levaram a que se desse e se caísse numa outra perigosa espiral recessiva, a recessão na Depressão. Devido à pressão feita  pelo seu secretário do Tesouro, Henry Morgenthau — que em 1935 se preocupava  que “nós podemos não estar a  ajudar as pessoas mas sim a correr para o abismo a não ser que nós continuemos a reduzir o nosso défice ano após ano e o orçamento fique  equilibrado” — Roosevelt apresentou ao Congresso um  orçamento em que se defendia a aplicação  de políticas de austeridade orçamental, em 1937.

1930 - II

Deste  ponto a dívida nacional alcançou um valor inédito de 40% do PIB (enorme pelos padrões da altura, mas a dívida era então  metade do que é a dívida da  Alemanha actualmente). O Congresso cortou nas despesas públicas, aumentou os impostos e atacou fortemente o défice de 5,5% do PIB entre 1936 e 1938. Tratava-se de uma consolidação maior do que a que  Grécia até agora enfrentou  durante mais de dois anos (ver gráfico 1), mas é muito mais pequena  do que o que para ela está actualmente planeado em termos de  longo prazo. Ao mesmo tempo a Reserva Federal dobrou a sua exigência de  reservas mínimas entre meados de 1936 e 1937, incentivando os bancos a baixar a liquidez disponível na economia, via taxas de juro mais altas. O Tesouro começou a restringir a oferta de moeda em sintonia com o nível das importações de ouro. Em 1937 e 1938, a recessão criada dentro de uma depressão já existente levou a  uma queda real do PIB de 11% e um adicional de 4 pontos percentuais na taxa de desemprego , que alcançou 13% ou 19%, dependendo de como a taxa de emprego é calculada.

(continua)

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