EDITORIAL: HUGO CHÁVEZ E A DEMOCRACIA

Diário de Bordo - II

 

Na nossa Assembleia da República foram aprovados por unanimidade  quatro votos de pesar pela morte de Hugo Chávez. Também se guardou um minuto de silêncio. Os votos de pesar eram obviamente diferentes: mesmo sem conseguir ter acesso aos textos completos consegue-se perceber que os da direita falam  mais na comunidade portuguesa, e fazem votos de que continue a ser respeitada, e referem negativamente as políticas de Hugo Chávez, à medida que se caminha para a esquerda estas últimas são referidas de um modo cada vez mais positivo.

É de salientar o ponto dos quatro votos terem sido aprovados por unanimidade, apesar do seu conteúdo diferente. Claro que as interpretações poderão ser diversas, e não apenas por uma questão de liberdade de opinião; é que o assunto tem várias facetas. Por outro lado na redacção de um voto de pesar nem sempre convirá expô-la a retaliações. A comunidade portuguesa da Venezuela é sem dúvida um aspecto importante, que obrigatoriamente  tem de estar presente nas relações bilaterais, mas um voto de pesar é discutível se é o melhor local para salientar a sua importância, até recordando, no caso concreto, o peso que continua a ter a oligarquia   venezuelana. Já as opções políticas que Hugo Chávez tomou, nacional e internacionalmente, são abordadas nos votos de pesar de maneira diferente, o que será compreensível. Terão estado subjacentes às opções de voto dos deputados as eleições que proximamente vão ocorrer na Venezuela, mas, de certo modo, o reconhecimento do enorme papel que Hugo Chávez desempenhou.

Um dos aspectos curiosos da acção do novo governo é a sua opção, em política internacional, por seguir, em muitos casos, os mesmos caminhos que o Governo de José Sócrates. A Venezuela foi um exemplo. Com certeza, que os  importantes contratos comerciais, já celebrados ou a celebrar, pesam muito na balança.

Mas também será de referir que os comentadores políticos de direita (e alguns da chamada esquerda caviar, que insistem em passar por esquerda) continuam a sua campanha contra Chávez. Ele foi realmente um problema grande para o grande complexo político-administrativo-financeiro que nos domina. Era um ser humano, com as suas limitações, como todos nós. Mas teve um peso grande, do lado certo, o do povo. A sua morte prematura mergulhou a Venezuela na incerteza. Esperemos que consiga vencê-la.

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