RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Eleições italianas: a responsabilidade da Europa

mapa itália

Thomas Piketty é Director de Estudos na   l’Ehess e professor na Escola  de Economia de Paris

Texto disponibilizado por Philippe Murer, Membre du bureau du Forum Démocratique e Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange.

Vista da França, a incrível ascensão de Berlusconi, durante a campanha italiana e mais geralmente a elevada percentagem alcançada  do voto populista e a instabilidade política   que  se anuncia   para os próximos anos, tudo isto parece difícil de entender. Há na verdade uma irredutível especificidade italiana chamada  Berlusconi?

No entanto, seria muito fácil explicar tudo isto apenas por esse  exotismo transalpino, sem qualquer relação  com  a nossa própria realidade e com as nossas próprias responsabilidades. A França tem também ela os seus tropismos eleitorais  surpreendentes, a começar pelo votos Le Pen, de pai e filha,  que não deixa   de surpreender os observadores estrangeiros.

Mas, se a eleição italiana nos interpela  é principalmente porque a crescente desconfiança dos italianos face à  Europa, enquanto eles tinham sido até há bem pouco tempo os mais  Europeístas de todos, é em parte devida ao nosso egoísmo e à  nossa indisponibilidade. A União Europeia, e em especial os dirigentes das suas  duas  principais potências  económicas e políticas,  a Alemanha e a França, têm uma enorme responsabilidade na situação catastrófica em que está  hoje a área do euro e que pesa cada vez mais e mais sobre o clima político nos países do Sul da Europa. A faísca pode em qualquer momento reactivar-se  na Grécia ou Espanha, país em que terá lugar em 2014 uma votação de alto risco sobre a independência da Catalunha.

Costuma-se dizer que o BCE,  a única instituição federal forte, conseguiu convencer os mercados financeiros que ele sempre estaria lá para vir em socorro dos países atacados e disponível para o resgate   do euro, e que isto teria permitido sair da crise. Na verdade, um Banco Central por si só não pode garantir a sustentabilidade de uma União Monetária. A melhor prova disso é que a Itália e a Espanha continuam a pagar as taxas de juros muito mais altas do que as que são pagas pela  Alemanha e pela França.

Em 2012, a Itália reduziu fortemente as suas despesas públicas e aumentou os  impostos, nomeadamente através da criação de um novo imposto sobre a propriedade imobiliária (assim como sobre os activos financeiros, mas a uma taxa  8 vezes menor, por falta de   cooperação europeia adequada), a tal ponto que o país se encontra-se numa   situação de  excedente orçamental   primário:  os impostos excederem as despesas em cerca de  2,5% do PIB. O problema é que esta política mergulhou o país na recessão, sem que até agora tenha saído da espiral da dívida:  o pagamento de juros sobre a dívida pública excede os 5% do PIB, de tal forma que o défice secundário, o único que conta para a evolução da dívida  –  é superior a 2,5% do PIB. Os esforços da população parecem ser feitos em vão.

Monti é adorado por toda a Europa; mas para os italianos, tudo isso parece absurdo. Sem surpresas, Berlusconi oferece- se para pagar o novo imposto e Beppe Grillo propõe que se possa sair do euro.

Para dizer a verdade, é uma situação tradicional para a Itália, que se encontra regularmente à frente de fortes excedentes primários elevados, a fim de fazer face ao fardo da dívida, dos juros exigidos pelos défices anteriores. Durante todo o período de 1970-2010, a Itália é o único país do G8 em situação de quasi-equilibrio   primário ( em média, as despesas praticamente não ultrapassaram as receitas). É também o país cuja dívida é  a que mais  progrediu  porque os juros sobre a dívida ultrapassaram    em média os 6% do PIB (contra cerca de 2-3% noutros  lugares).

A novidade é que, até agora, a Itália poderia desvalorizar a sua moeda para sair das situações difíceis e relançar a  máquina. Com o euro, os  países  renunciaram à sua   soberania monetária. A contrapartida deveria ser uma dívida pública mutualizada, permitindo que todos beneficiem  de taxas de juros baixas e previsíveis. Isso exigiria  evidentemente  o voto em comum do défice , de forma  transparente e democrática, sem dúvida, para juntar os membros das comissões das finanças dos parlamentos nacionais para criar um verdadeiro Parlamento orçamental da  zona do euro. Se a Alemanha e a França não saem enfim  do seu  egoísmo para propor uma tal solução, uma solução deste tipo, o risco é forte de que se provoque novos abalos  políticos, mais graves ainda do que a votação italiana.

Thomas Piketty, Elections italiennes: la responsabilité de l’Europe, Libération, 26 de Fevereiro de 2013

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