Nota da Coordenação – Os textos publicados sob o título genérico de “Saúde uma emergência nacional”, foram escritos por Carlos Leça da Veiga em 1974.
Trinta anos passados sobre a elaboração do texto acabado de transcrever sinto ser necessário fazer-lhe alguns comentários. De facto, para descanso da minha consciência, reconheço impor-se-me o dever de avançar com algumas observações cujas entendo terem toda a razão de ser. Nos tempos que correm e em que são tantas e tão flagrantes as voltas e as reviravoltas dos ideários políticos que, por força, terei de sentir-me muito mais satisfeito por deixar transparecer, com a clareza bastante que, agora, como há anos – como desde sempre – no mais essencial, posso continuar a julgar-me com lugar no mesmo lado da barricada.
Se a necessidade de pronunciar-me sobre algumas daquelas coisas que foram escritas há tantos anos atrás é coisa que não consegue abandonar-me não será demais, antes porém virá muito a propósito, deixar esclarecido que, a isso, nenhum dever obriga e muito menos qualquer preocupação de querer ou ter de prestar esclarecimentos sobre algo, o que quer que seja, recente ou antigo. Se ser assaltado pela tal necessidade de pronunciar-me, isso, só por si, já seria o bastante para poder dar curso ao que possa ser-me conveniente vir a dizer, a seu par, tenho, também, o dever de confessar-me muito satisfeito em, por evento, poder chegar a tirar algum prazer do menosprezo endereçado aquelas mentes férteis nas carambolas políticas e nas jogadas de oportunidade operadas na mesquinhez reles dos interesses e das conveniências muito pessoais ou do seu grupo.
São três as observações que, quanto a mim, constituem aquelas indispensáveis de deixar registadas e das quais, duas, reconheço, são demasiado longas.
A primeira, a que, por natureza, nas minhas mãos, a pouco desenvolvimento pode abalançar-se é a que diz respeito ao português usado cujo, em nada, ilustra a língua mãe. Já noutra ocasião, mais atrás, não esqueci de colocar os meus textos ao abrigo de quanto possa chamar-se literatura. Faltam-lhe os atributos ou as características mais fundamentais porquanto – ao que penso – não poderá dizer-se conterem nem a generalidade no pensamento nem a generalidade na expressão, exigências consagradas pelos estudiosos da matéria. Do léxico, ou melhor, da sua pequenez, melhor será nada dizer-se.
A segunda observação, tem que ver com o amontoado demasiado volumoso dos juízos emitidos quando, como parece, deveria ter–me ficado, apenas, pela contestação da opção política conducente à criação duma modesta Secretaria de Estado da Saúde. Era o que faria quem, que não eu, bem avisado, andasse metido pelas cavalarias do jornalismo e tivesse em vista qualquer prebenda política.
Quando, então, naquele inesquecível 1974, tinha de encarar-se um dos problemas mais importantes como é o da Saúde e que, à época (tal como, agora, de novo e mais outra vez) afligia a população nacional por necessitar, reconhecidamente, de soluções audazes, vigorosas e rápidas, o nível intelectual baixíssimo e a reconhecida falta de informação (os juristas continuavam a pontificar) daqueles que deitaram as mãos ao poder político começaram, logo, a dar os seus primeiros frutos. Quem, na altura, talvez por até então ter sido discípulo do fascismo e, como assim, não ter o estofo intelectual e político mais necessário para acompanhar a situação democrática que começava a viver-se é que terá olhado para a Saúde e o seu departamento estatal sem a importância devida e, em consequência, decidiu que o 25 de Abril iria continuar a olhar para esse sector tão importante para um estado de justiça social com os mesmos olhos com que o regime político acabado de derrubar já o via.
Quantos anos tiveram de passar para que a Saúde tivesse direito a poder apresentar-se e representar-se, em directo, no Conselho de Ministros por intermédio dum Ministro. Fica-me o consolo de ter percebido o erro dos novos senhores do País, tal como foi cometido em 1974, mau grado não poder dizer-se que a elevação político–administrativa dada, alguns anos mais tarde, ao sector da Saúde tivesse trazido aquele incremento de benefícios que eu desejava e, muito mais importante, que o País esperava, em boa verdade, ainda, espera, isto, para não dizer, que desespera.
Quem, como eu, já nesses tempos, não previa voltar a ter uma oportunidade de ver-se publicado na imprensa – como foi difícil conseguir aquela possibilidade – aproveitaria para incluir no texto, mesmo que um tanto atabalhoadamente, mais um tantos aspectos que gostava de contemplar.
Se tenho de reconhecer não ter palmilhado o caminho mais recomendável, apesar de tudo, prossigo muito feliz para, por exemplo – um exemplo que aprecio recordar – não ter deixado de referir as figuras notáveis dos Professor Doutor Cid dos Santos e do Dr. Leopoldo Laires, nomes que – como tantos outros – foram, são e serão figuras indeléveis do património científico e cívico nacionais cujos, por triste sina nacional, têm sido mandados abandonar pelos tasqueiros que, sucessivamente, têm governado o País.
