GIRO DO HORIZONTE – O EMBUSTE DE CAMARATE – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]José Manuel Barata-Feyo lançou o livro de sua autoria “O Grande Embuste” (Ed. Clube do Autor) que, pelo título e pelo local da sessão de lançamento, Assembleia da República é, obviamente, uma provocação. Uma dupla provocação. Mas uma justa, oportuna e saudável provocação. Ainda não li o livro, o que farei logo que puder, mas pelos sinais que Barata-Feyo anuncia, o livro é também um acto de coragem, porque actos de coragem são os que remam contra a maré, contra o politicamente correcto, ou seja a ideia feita do atentado de Camarate, construída sem quaisquer evidências que justifiquem tão grave conclusão e que acabou por ser acolhida na IV Comissão Parlamentar de Inquérito, depois de as anteriores e as investigações judiciais, assentes em competentes peritagens, terem concluído o contrário, isto é, negado o atentado e concluído pelo acidente.

A direita política, que na luta contra o fascismo carecia de vítimas e só podia invocar algumas figuras que, timidamente, se demarcaram dos algozes, precisava de heróis, de vítimas da violência. O nome de Sá Carneiro já deve ser, dos políticos portugueses depois do 25 de Abril, o que mais assinala praças, avenidas, monumentos e grandes obras deste país. Para as gerações futuras que, eventualmente, queiram basear na toponímia um estudo sobre o que foi a luta pela liberdade, o 25 de Abril e a instauração da democracia em Portugal, Sá Carneiro perfilar-se-á como um dos maiores lutadores antifascistas, apóstolos da revolução dos cravos, doutrinadores e artífices da edificação do regime democrático português. Era preciso conferir-lhe a carga dramática,indispensável para a consagração do mito.Deputados, advogados da família, ensaístas oportunistas, jornalistas comprometidos, disso se encarregaram. E ao mínimo disparate, quando um qualquer marginal, por vezes até a cumprir pena por condenação em tribunal, lança fantasiosas e bombásticas “novidades” sobre o pretenso atentado, sem correr riscos por já ter expirado a validade processual, mas que na verdade nada acrescentam, lá vem a Assembleia da República nomear nova comissão de inquérito que mais não faz do que repetir as frustradas diligências anteriores.

Como nem sequer há mobil do suposto crime é preciso inventá-lo a partir de meras suposições, primeiro era Soares Carneiro, depois Sá Carneiro, agora Amaro da Costa. Penso que é este “grande embuste” que Barata-Feyo se propõe desmontar. Ainda bem que o faz. Não vou adiantar mais antes de ler o livro, mas deixo aqui uma nota intrigante, entre as muitas que povoam a minha observação de toda esta montagem.

Uma das pessoas que mais surpreendeu pelo seu volte-face, foi Freitas do Amaral. Peremptoriamente defendia a tese do acidente. Recentemente, quando as hipóteses se viraram para que o alvo fosse Amaro da Costa, juntou-se aos que defendem a tese do atentado. Não porque surgissem novos factos probatórios, mas porque apareceram novas fontes de especulação. Amaro da Costa era ministro da defesa e estaria empenhado numa investigação sobre o Fundo de Defesa do Ultramar, verba de tipo “saco azul” que vinha desde os governos da ditadura e que estaria a ser clandestinamente usado num obscuro negócio de armas para o Irão. Daí a necessidade de eliminar Amaro da Costa.Freitas do Amaral levou muito tempo, mais de dez anos, para ser sensibilizado para esta hipótese. Com uma agravante. É que, com a morte de Amaro da Costa e a recomposição do governo da AD, quem substituiu Amaro da Costa na pasta da defesa foi, exactamente, Freitas do Amaral. Não é credível que quando Amaro da Costa morreu em Camarate levasse com ele todos os processos e as investigações que tinha reunido sobre o Fundo de Defesa do Ultramar. Como não é credível que fosse o ministro quem, pessoalmente, conduzisse os inquéritos, as investigações, já que tinha para isso os seus assessores, os seus conselheiros, que não desapareceram em Camarate com o ministro. O que fez Freitas do Amaral quando assumiu a pasta que era do seu fraterno amigo – que aliás o teria sensibilizado para as suas suspeitas –, pediu os processos, ouviu os colaboradores? Se não fez é incompreensível.Se o fez o que terá ouvido foi o que lhe permitiu sustentar a tese do acidente que perfilhou enquanto ministro e nas décadas que se seguiram.

De facto tudo isto é um enorme embuste, que se aproveita da tendência portuguesa para o fatalismo, o atávico sebastianismo, à espera do salvador da pátria que há-de renascer das brumas do nevoeiro.

Provavelmente haverá ocasião de voltar a este tema.

 11 de Março de 2013

1 Comment

  1. Parabéns, Pezarat Correia, pelo seu comentário. O desastre de Camarate, transformado em atentado, tornou-se em mais um espectáculo que serve para distrair o povo português dos seus problemas. E agitar espantalhos, quando as reivindicações se tornam mais fortes. Foi sem dúvida uma grande tragédia, mas é vergonhoso o aproveitamento tentado. É preciso desmontar esta encenação. Também vou ler o livro de Barata-Feyo.

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