Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Hoje morreu um homem, Robert Castel, um homem de ontem ainda e que um homem de amanhã o será igualmente. Deste homem lembro apenas um telefonema meu a convidá-lo para uma conferência e a participar num debate sobre um filme sobre as marginalizações sociais em França, sobre as questões sociais nas periferias das grandes cidades. Estava a telefonar-lhe muito em cima da hora, tinha-me enganado e tinha enviado o convite para um Castels, mas de Espanha, que nunca me respondeu. Consegui depois o seu número de telefone, para abreviar a chegada do convite, descoberto que foi o meu engano, era já muito perto do acontecimento e Robert Castel disse-me que não poderia vir. Sugeriu-me Sami Nair mas a sequência da sua resposta, hoje, garantidamente não a posso esquecer. Se Sami Nair não puder, volte a telefonar-me e, depois, veremos.
Sami Nair, mesmo em cima de um Conselho de Estado, aceitou vir e nunca mais telefonei a Robert Castel. Mas agora relembro a sua voz, cavernosa de muito tabaco fumado, talvez apenas isso face à sua própria história pessoal que apenas conheço agora com o presente texto. Relembro a sua disponibilidade como qualquer coisa de inesquecível, nos limites do tempo e da sua saúde de então. Relembro isso e a atitude de dádiva face a estudantes que nunca viu e face a uma realidade que, essa, ele bem sentiu.
Hoje morreu e aqui deixo uma síntese da sua vida e da sua obra, tão ligadas as duas coisas são, tão entrançadas elas estão.
E é tudo.
Júlio Marques Mota
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Morreu o sociólogo Robert Castel
LE MONDE | 09.11.2011 • Nicolas Truong
Reproduzimos aqui o retrato que o jornal Le Monde fez deste intelectual em 2011.
Robert Castel, o especialista da condição salarial e da psiquiatria , director de estudos na École des Hautes Études em ciências sociais (EHESS), morreu ontem, dia 12 de Março, aos 79 anos de idade.
A loucura e o trabalho, a doença mental e a questão social: estes foram os objectos de estudo de que Robert Castel se tornou um dos importantes sociólogos do nosso tempo e estes foram também os temas da sua vida. Em Brest, a sua cidade natal, ele deveria ter sido um dos trabalhadores no porto do Arsenal. Mas ele tornou-se um dos mais finos conhecedores da questão salarial. Uma maneira de permanecer fiel às suas origens de classe operária, ao mesmo tempo que assumia o seu estatuto de transfuga social.
Filho de um empregado da Grande École des Ponts et Chaussées, ele obteve o seu “certificado de aptidão profissional” de torneiro-mecânico – “como Pierre Bérégovoy”, sublinhou ele, e depois um certificado-diploma de ensino industrial. O destino deste filho de trabalhador parecia completamente traçado. E isto sem contar com a tragédia que o envolveu. Em 1943, a sua mãe morreu de cancro. Robert Castel tinha então 10 anos de idade. E o seu pai suicidou-se dois anos depois. Um buraco negro da infância que irá selar toda a sua sensibilidade “para com as pessoas vulneráveis, de trajectórias incertas e de tremidas”. Esta travessia da noite fez dele um dos melhores observadores da psiquiatria e do tratamento da loucura.
No colégio técnico de Brest, um professor de matemática, tão ridicularizado quanto temido, revelou-se-lhe: Castel, você pode fazer uma outra coisa, não fique aqui, você deve-se ir-se embora. Na vida, devemos amar a liberdade e assumir riscos”, disse-lhe este professor. Os alunos alcunharam este professor triste e severo de “Buchenwald”, o campo de morte nos arredores de Weimar. Um ex-deportado, não haja qualquer dúvida. Um mestre em questões sobre a liberdade que ele nunca mais voltou a ver e que já morreu. Mas um sobrevivente que provavelmente lhe permitiu transcender a sua origem de classe, de fazer a sua trajectória ” de um milagre escolar “, para utilizar um termo da sociologia à Bourdieu, de ir para o liceu como bolseiro, de ser recebido para fazer a sua agregação em filosofia, de ensinar no secundário e depois na Universidade. E, finalmente, de ser altamente considerado por uma figura importante na filosofia como Eric Weil, de que será o seu assistente na Faculdade da cidade de Lille.
Muito próximo do Partido Comunista, Robert Castel despertará a admiração do grande liberal intelectual Raymond Aron, o seu director de tese, junto de quem este último se iniciará na filosofia e na sociologia, e que o levará a declarar mais tarde: “Castel, é um sociólogo!” Uma homenagem à sua procura de cientificidade e de objectividade, assim como às suas orientações ideológicas ou às suas opções políticas que nada tinham mudado. Em 1966-1967, depois da sua formação filosófica, junta-se a Pierre Bourdieu no Centre de sociologie Européenne e participa nalguns exercícios sociológicos na linha metodológica do “construtivismo estruturalista” do seu mestre daqueles lugares . Mas Robert Castel rapidamente informa Bourdieu do seu desejo de ‘ trabalhar fora da sociologia da educação, uma terra já um pouco demasiado balizada , pelo co-autor dos Héritiers.
Fora dos trabalhos de Michel Foucault, não havia na época, em França, grandes reflexões sobre a instituição psiquiátrica. Robert Castel é este o seu caminho, o caminho que escolhe . Com uma mulher psiquiatra e uma infância altamente marcante , ele sabe de bem perto o que é o “conhecimento dos abismos”, para citar o poeta Henri Michaux. No entanto, o jovem sociólogo é pouco sensível à saga dos jovens esquerdistas de “cabelo comprido e despenteados” que defendiam ” a libertação pela loucura “, muito pouco fascinado pelo mito de Antonin Artaudou ou mesmo pelas exaltações romantico-políticas de alguma marginalidade e da lógica do absurdo. Apanhado no turbilhão de Maio de 68, liga-se, contudo, a certas correntes da antipsiquiatria, nomeadamente encarnado pelo seu amigo Franco Basaglia, que obteve o encerramento dos terríveis hospitais psiquiátricos italianos.
Durante estes anos, Robert Castel pratica não uma sociologia sobre a loucura, mas do apoio que a esta deve ser dada . Os seus estudos colocam à luz do dia as questões do constrangimento social que exercem todos estes lugares de controlo, todos estas ” instituições totais e totalitárias” e que são o asilo ou a prisão, assumindo o caminho do sociólogo americano Erving Goffman (1922-1982), de que foi ele que introduziu os seus trabalhos em França. Entre proximidade e distância, Castel analisa o tratamento social da loucura (L’Ordre psychiatrique, Editions de Minuit, 1977) e mostra como é que os indivíduos se desenrascam, como é que inventam núcleos de resistência no seio de instituições que têm como função gerir as populações em risco. Incapaz de articular o mental ao social, a psicanálise desilude-o e aparece-lhe mesmo como uma prática que não deixa de sucessivamente de recolocar o sujeito apenas face a si-mesmo e para si-mesmo (Le Psychanalysme, Maspero, 1973). Hoje, considera ainda a “culturapsy” como o emblema de uma sociedade neoliberal, que exalta a “gestão de si-próprio” e que pretende que o homem se torne um “empresário de si mesmo”.
“Incapable d’articuler le mental au social, la psychanalyse le déçoit et lui apparaît même comme une pratique qui ne cesse de ramener le sujet à lui-même”
Depois de uma quinzena de anos passados em instituições psiquiátricas, Robert Castel investe a questão social de forma frontal. Resultado de um enorme trabalho de pesquisa, a obra Les Métamorphoses de la question sociale (Fayard, 1995), mostra, à maneira de um romance policial como é que o assalariado, outrora indigno e odiado, pouco a pouco se transformou numa procurada condição de emprego. “A questão social começa em 1349,” tinha já escrito Robert Castel em 1989 com um certo sentido de provocação.
Depois da grande peste, a sociedade feudal desfaz-se e os seus antigos servos começam a vaguear, entre a vadiagem , a delinquência e o trabalho alcançado como resultado da sorte, ao acaso. Mas, naquela altura, o assalariado é um alienado . Não tem mais nada a vender a não ser a sua força de trabalho, de que vai dispor o seu comprador . Na praça de Grève, o actual Hôtel de Ville de Paris, ” as pessoas vinham de manhã e esperavam que os seus empregadores lhes propusessem um trabalho”. Até à Revolução, o assalariado era uma condição miserável. Depois, as coisas mudaram.
É claro, as “classes trabalhadoras” permaneceram “classes perigosas”. Mas ” a sociedade salarial” conseguiu impor-se . De um lado a prosperidade das empresas era a garantia e do outro lado os trabalhadores eram geralmente protegidos (direito do trabalho, pensões, segurança social). Após o apogeu dos famosos “30 anos gloriosos” (1953-1970), o modelo não deixou sucessivamente de se degradar . E degradou-se a um ponto tal que nós passamos da situação de assalariado à de “precariado”, de um mundo de colectivos solidários a uma sociedade de indivíduos precários, diz Robert Castel na obra L’Insécurité sociale (Seuil, 2003). A hegemonia do capital financeiro, os trabalhos fragmentados, os contratos a termo fixo, os estágios de longa duração: nós vivemos o tempo do “aumento crescente das incertezas”, o da modernidade desencantada .
No entanto, Robert Castel nunca se resignou: “O futuro é incerto. Mas o pior não está necessariamente atrás de nós, porque também ele, o pior, é incerto. O futuro, é o imprevisto, é o inesperado….” Reformista, pensa que é necessário “domar o mercado.” Horrorizado por uma certa direita que fustiga os “imigrantes” e os “assistidos”, ele procura ajudar a Esquerda e o Partido Socialista a proteger as pessoas mergulhadas nos tempos escuros do “precariado” a inventar novos direitos e novas protecções . A brutalidade da nossa modernidade “, a que se pede sempre mais àqueles que têm menos “, e em que o indivíduo pode ser atingido pela “morte social” nunca deixa de o preocupar, como já o sublinhou em La Montée des incertitudes (Seuil, 2009).
Num belo texto autobiográfico publicado em Esprit, em que Robert Castel presta homenagem a “Buchenwald”, o seu professor de matemática e da liberdade, o sociólogo lembra até onde a discriminação nos pode levar. Numa conferência em Jena, ele visitou Buchenwald, imaginando de perto “a grande mesa de mármore branco onde se arrancavam os dentes de ouro e a pele de alguns cadáveres” lembrou o que terá podido fazer o seu professor para sobreviver neste inferno. Aqui, onde se encontra o seu Graal sociológico ” mostrar como os pequenos indivíduos que nós somos com as nossas pequenas histórias são atravessadas por uma grande história que os molda .” Ligar, entrançar, numa palavra, o objectivo e o subjectivo. Porque “os chamados determinismos objectivos também são as chaves que abrem a compreensão da privacidade do sujeito, dos seus amores como dos seus lutos, da sua ousadia como da sua covardia, das suas políticas como das suas recusas.” Que ele se acalme, o seu sonho já está realizado. Por uma obra que é uma vida, por uma vida que é uma obra, por tudo o que pacientemente elaborou e que nos aparece a todos nós como sendo unanimente respeitada.
Nicolas Truong
