Faz hoje, 15 de Março, 113 anos, nasceu o grande antropólogo, historiador e sociólogo brasileiro Gilberto Freyre. É uma figura do universo da lusofonia que justifica plenamente uma homenagem como aquelas que recentemente prestámos a Almada Negreiros, Manoel de Oliveira, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Clarice Lispector, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Eugénio Tavares. Num segundo ciclo de homenagens, não devemos esquecer Gilberto Freyre. Pela importância intrínseca da sua obra e pela importância que assumiu nas obras de outros grandes vultos da cultura do seu país – Jorge Amado, incluído. Casa-Grande & Sanzala, que publicou em 1933, é referido pelo grande ficcionista baiano como elemento capital no despertar da sua consciência social e como base teórica para a sua efabulação de uma realidade feita de injustiças e de assimetrias cruéis.
Outra das suas obras, O Mundo que o Português Criou (1940), é de uma importância vital para compreender, sem lugar para maniqueísmos ou para exaltações patrióticas, o fenómeno único da colonização portuguesa. Uma perspectiva traçada a partir da observação feita da sanzala e não da casa -grande – e sem as costumeiras artimanhas de sobrevalorização da mestiçagem, esquecendo o racismo, a escravatura, a brutalidade colonial, diferente da que castelhanos, ingleses e neerlandeses, por exemplo, impuseram, mas não isenta de crimes e de consequências dramáticas.
Gilberto Freyre criou a teoria do luso-tropicalismo, assinalando a adaptação dos colonizadores portugueses ao mundo tropical, essa sim, uma característica que foi vital na diferenciação da colonização portuguesa. Nenhum povo, nenhum conquistador, segundo ele, se adaptou aos territórios recém-descobertos como os portugueses e essa adaptação determinou o nascimento de nações como o Brasil, Angola, Moçambique… Gilberto Freyre lembra-nos que a função da História, da Antropologia, das ciências sociais e humanas em geral, não pode confundir-se com o objectivo de um romance policial – descobrir o criminoso.
Porque o criminoso está descoberto à partida – a natureza humana.
