UMA LEITURA SOBRE A ALEMANHA DOS ANOS 30 – por Júlio Marques Mota

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Brunning, o chanceler da fome

A Alemanha da década de 1920 viu a expansão de Sozialstaat,com os salários a acompanharem pouco mais ou menos a produtividade, com as políticas deempregos públicos, com a forte pressão orçamental. No entanto o seu crescimento económico é muito baixo, e desde a estabilização do marco, em 1924, o valor da sua moeda, que está garantida em ouro, é forte. Da mesma forma, as exportações enfraqueceram e a sua participação no comércio mundial não é mais doque6,8% em 1925, contra 7,2% para a França por exemplo (em 1913, a França estava ao mesmo nível, mas a Alemanha r

epresentava13,1%.). Enquanto que a França, cujo franco se deprecia naquela época, conhece uns anos de forte crescimento e de um grande reforço na competitividade das suas indústrias, a Alemanha não consegue relançar-se, em grande parte devido à sobrevalorização de sua moeda.

A principal consequência deste diagnóstico, é a fraqueza do investimento produtivo, que irá provocar desde o final de 1928 a recessão da economia alemã. A parte do investimento no produto nacional líquido alemão passa assim de15,2% no período de 1910-1913 para 11,1% em 1925-1929.

A crise de 29, na Alemanha

São estesos obstáculos às exportações alemães (especialmente as desvalorizações) e assim como a fraqueza do investimento produtivo, que levaram à diminuição da produção (segundo Holtferich). A estrutura concentrada das empresas alemãs (konzerns) também fomentou o desenvolvimento do desemprego.

Em 1929, o PIB diminuiu de 1,5%, o desemprego sobe para 5,9%. Desde Março de 1930,Hindenburg, antes de bloquear o Parlamento que não chega a acordo para constituir uma maioria, chamaVon Brüning para a Chancelaria e a conselho de Von Schleicher.Era já o fim do parlamentarismo alemão. O Chanceler governava por decreto. Este será rapidamente alcunhado de “O Chanceler da fome”, assim denunciado pelos comunistas.

Na verdade, face à diminuição das receitas de Estado devido a diminuição das receitas (dos impostos) e ao aumento dos benefícios sociais (aumento do desemprego), face à deterioração da balança comercial alemã, Bruning decidiu aplicar um programa de deflação para reduzir as despesas do Estado e impulsionar a competitividade das empresas. No entanto a recessão aprofunda-se em 1930, o PIB cai de 7,8%, as exportações de 5,2%, subindo para 9,1% a taxa de desemprego. Nas eleições de Setembro, os nazis obtêm 18% dos votos, contra apenas 2,6% em 1928.

Mas em 1931, a situação agrava-se dramaticamente, ano em que o Danat, um grande banco alemão, declara falência, arrastado pela crise americana e pela falência do CreditAnstalt em Viena. Os bancos alemães também estão muito expostos ao exterior, os seus fundos próprios são muito baixos, enfim, eles utilizam a poupança delongo prazo para financiar os créditos de curto prazo. O sistema bancário alemão está à beira do colapso. O Estado deve intervir e recapitalizar os bancos, convertendo os seus créditos em participações no capital próprio. Mas o crédito encontra-se consideravelmente diminuído, reforçando-se assim a depressão na actividade industrial, contudo já ela própria em plena queda. Em 1931, o PIB cai ainda de 7,8%, as exportações de 9,1%, o desemprego aumenta novamente e atinge os 13,9%.

Além disso, os capitais estrangeiros estavam agora a fugir da Alemanha em massa reduzindo as possibilidades de revitalização da produção e ameaçando a paridade ouro do marco. Perante esta situação Bruning recusa-se a desvalorizar. Ele, é verdade, iniciauma política tímida do controle do mercado cambial(o que equivale a uma desvalorização), mas por outro ladovai aumentar ataxa de desconto dobanco central oque anula estes efeitos. O marco permanece forte, enquanto a Grã-Bretanha, grande concorrente industrial da Alemanha, contra todas as expectativas e crenças, desvalorizou a sua moeda no dia 31 de Setembro. As indústrias alemãs passam a ficar rigorosamente estranguladas.

Para fazer o ajustamento necessário, ou seja, para equilibrar o défice orçamental e o défice comercial, que eram não financiáveis sem desvalorização, Bruning conta com a redução do salário dos funcionários, baixados duas vezes de 10%, conta como aumento de 5% de imposto sobre os rendimentos, conta coma redução das ajudas ao desemprego, à habitação, às cantinas escolares, provocando ainda mais miséria e ainda menos actividade económica.

Ele apela a que se continuem a “prosseguir os esforços”, a não parar ” a 5 metros da meta”, mas ninguém parece estar a ver o fim. Após as manobras desenvolvidas por Schleicher,é entãoVon Papen que o substituiem Junho de 32 e que com os seus planos de’ Setembro assume comBruninga responsabilidade dodesastroso ano de 1932: menos 7,6% de crescimento,menos 31% nas suas exportações, o desemprego é elevado para 18% e os 5 metros aparecem afinal bem longos…

É a República de Weimar propriamente dita, que é considerada responsável por esta situação e istopor uma grande parte dos patrões. Sob a tutela de Halmaj Schacht, o ex-governador do Reichsbank, ter-se-á cada vez menos escrúpulos para defender os seus interesses num quadro ditatorial, provavelmente ignorando  que a manobra em si-mesma lhe seria fatal.

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