O GARDEN-PARTY, de Katherine Mansfield – 2 – por João Machado

Hoje, antes da segunda parte da tradução que João Machado fez de Garden Party, apresentamos um pequeno documentário sobre a vida e a obra da grande escritora britânica – Katherine Mansfield – life and writings:

O GARDEN- PARTY – II (tradução de João Machado)

― Não me parece―disse ele. ― Não dá suficientemente nas vistas. Está a ver, quando se tem um toldo ― virou-se para Laura com o seu jeito descontraído, ― procura-se metê-lo num sítio em que nos apareça tal como um estalo na cara, se me faço compreender.

A educação de Laura fez com que lhe viessem à cabeça dúvidas sobre se não seria uma falta de respeito um simples trabalhador falar com ela com termos como um estalo na cara. Mas procurou seguir a ideia dele.

― Um canto do campo de ténis ― sugeriu ela ― Mas a orquestra também tem de ficar num canto.

― Hum, vão ter orquestra? ―disse outro homem. Estava pálido. Tinha um ar ansioso enquanto os seus olhos negros percorriam o campo de ténis. No que estaria a pensar?

― Vai ser só uma orquestra muito pequena, ― disse Laura delicadamente. Talvez ele não se importasse tanto se a orquestra fosse realmente pequena. Mas o fulano interrompeu.

―Olhe, menina, ali há lugar. Ao pé daquelas árvores. Ali fica muito bem.

Ao pé das karakas. Assim, as árvores das karakasficavam escondidas. Eram encantadoras, com as folhas largas e reluzentes, e os cachos de frutos amarelos. Eram como as árvores que imaginamos numa ilha deserta, altivas, solitárias, erguendo as folhas e os frutos ao sol num esplendor silencioso. Porque haveriam de ser escondidas por um toldo?

Tinha que ser. Os homens já tinham posto ao ombro as aduelas e encaminhavam-se para o lugar em questão. Apenas o fulano alto ficava para trás. Baixou-se, apanhou um rebento de alfazema, levou o polegar e o indicador ao nariz e aspirou o cheiro. Ao ver este gesto Laura esqueceu tudo a respeito das karakas, estupefacta por ele dar atenção a coisas como o cheiro da alfazema. Quantos homens conhecia ela que fariam uma coisa assim? Pensou que os trabalhadores eram muito simpáticos. Porque não poderia ela ter trabalhadores como amigos em vez dos rapazes parvos com quem dançava e que vinham cear ao domingo? Dar-se-ia muito melhor com homens como estes.

Isto é tudo, concluiu ela, enquanto o fulano alto desenhava nas costas de um envelope uma coisa que tinha de ser envolvida ou pendurada, por causa destas absurdas distinções de classe. Bem, por parte dela, não as levava em conta. Nem um bocadinho, nem um átomo… E agora começava o pam – pam dos martelos de madeira. Alguém assobiou, outro gritou ―Estás aí, rapaz?―. ― Rapaz! ― O afecto com que era dito … Para provar como estava contente, para mostrar ao fulano alto como se sentia á vontade, e como desprezava convenções estúpidas, a Laura deu uma grande dentada no seu pão com manteiga enquanto olhava para o pequeno desenho. Sentia-se uma trabalhadora.

― Laura, oh Laura, por onde andas? Vem ao telefone, Laura!

― Lá vou! Deslizou pela relva fora, até ao caminho, subiu os degraus, atravessou a varanda e entrou em casa. No átrio o pai e Laurieescovavam os chapéus para irem para o escritório.

― Ouve, Laura ― disse Laurie rapidamente, ―podias dar  uma vista de olhos ao meu fato antes de logo à tarde? Para ver se precisa de ser passado a ferro.

― Eu vejo―respondeu ela. De repente, não se conseguiu conter. Correu atrás de Laurie e agarrou-lhe o braço. ― Gosto muito de parties, e tu? ― sussurrou.

― Bastante ― disse Laurie com a sua voz quente e juvenil, e agarrou também no braço da irmã, empurrando-a suavemente. ― Olha o telefone, miúda.

Claro, o telefone. ― Sim, sim. Olá. É a Kitty? Bom dia, querida. Vens almoçar? Vens, pois. Fico muito contente, é verdade. Vai ser tudo improvisado, uns restos de sanduíches e de merengue, tudo sobras. Olha que linda manhã que está! Vens com o branco? Era o que eu faria também. Espera só um momento, não desligues. A mãe está a chamar. ―e a Laura chegou-se para trás e endireitou-se ― O que é, mãe? Não oiço.

A voz da senhora Sheridan ecoou na escada. ― Diz-lhe que traga aquele lindo chapéu que ela tinha domingo passado.

― A mãe diz para trazeres aquele lindo chapéu que tinhas no domingo passado. Está bem. À uma hora. Até logo.

Laura poisou o auscultador, levantou os braços acima da cabeça, respirou fundo, esticou-os e deixou-os cair. ―Uuuh!― suspirou, e levantou-se rapidamente. Parou, a ouvir. Todas as portas da casa pareciam abertas. A casa estava viva com o som de passos rápidos e suaves e vozes activas. A porta forrada a baeta verde que dava para os lados da cozinha abria e fechava com um som abafado. Ouvia-se um som longo, absurdo, como um cacarejo. Era o piano tão pesado a ser arrastado sobre as rodinhas rijas. Mas o ar! Parando a observar, seria que o ar era sempre assim? Ligeiras correntes de ar brincavam a apanhar por todo o lado, no cimo das escadas, ou às portas. E apareciam dois pequenos reflexos de sol, um no tinteiro, outro numa moldura de prata de fotografia, também a brincar. Que lindos reflexos. Sobretudo o na tampa do tinteiro. Estava mesmo quente. Uma pequena estrela quente de prata. Gostava de a ter beijado.

A campainha da porta da frente tocou, e ouviu-se o roçagar da saia estampada de Sadie a descer a escada. Uma voz de homem disse qualquer coisa; Sadie respondeu despreocupadamente, ― Não sei nada. Um momento. Vou perguntar à Senhora Sheridan.

― O que é, Sadie? Laura entrou no átrio.

― É o florista, menina Laura.

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