Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
17 min de leitura
Os dividendos do Ministério da Guerra
A finança aposta no financiamento privado na indústria de guerra.
Por
Alfredo Soad-Filho e
Jack Taggart
Publicado por
em 27 de Julho de 2026 (original aqui)

Em junho de 2025, a BlackRock anunciou a criação de um fundo negociado em bolsa (ETF) focado no setor europeu de defesa, em resposta ao que Jane Sloan, diretora de Soluções Globais de Produtos da empresa, descreveu como um “interesse manifestado de forma consistente” por parte dos clientes europeus em investimentos no setor de defesa. Segundo ela, o novo fundo não apenas “ofereceria aos investidores uma exposição direcionada ao setor europeu de defesa”, mas também contribuiria para “canalizar capital para a Europa, a fim de apoiar a indústria local e os objetivos estratégicos dos países da região”.
O novo fundo ETF da BlackRock é emblemático da impressionante aceleração do interesse e dos investimentos do setor privado no setor militar e de defesa global. Ao longo da última década, o valor das participações dos gestores de ativos na indústria mundial de armamentos quase triplicou, com uma aceleração dramática desde 2022. Na Europa, a defesa tornou-se o setor que mais cresce como destino de capital de risco, com os investimentos a aumentarem cerca de 130% apenas em 2025, no meio de ambições crescentes relacionadas com o crescimento económico, com a competitividade e com “autonomia estratégica”. As empresas de tecnologia também se estão a virar para os lucrativos contratos de defesa com o Pentágono, numa tentativa de enfrentar o “problema de rentabilidade” da IA, competindo diretamente com grandes empresas do setor já estabelecidas, como a Lockheed e a Boeing.
A relação entre finanças, tecnologia e guerra obviamente não é nova. Os mercados de títulos surgiram pela primeira vez na Grã-Bretanha, no século XVII, para financiar a guerra contra a França. Após a Segunda Guerra Mundial, empresas de capital de risco, como a American Research and Development Corporation (ARD), foram criadas com o objetivo de lucrar com novas tecnologias militares. Assim, há muito tempo o capital financeiro desempenha um papel tanto na viabilização das guerras quanto na obtenção de lucros que obtém com elas.
O que diferencia a atual corrida aos investimentos militares é a dimensão sem precedentes com que o financiamento privado se tornou predominante, tanto a nível nacional como internacional: gestores de ativos, fundos privados de investimento e fundos de capital especulativo (hedge funds) influenciam cada vez mais as indústrias militares. Esta hibridização sem precedentes entre os setores militar e financeiro é impulsionada por duas mudanças. Primeiro, o agravamento das tensões geopolíticas entre as grandes potências — nomeadamente os EUA, a China, a Rússia e a UE —, bem como os conflitos recentes na Ucrânia, na Palestina e no Irão, têm gerado fortes exigências por investimentos militares e pelo rearmamento. Segundo, os investidores ocidentais procuram retornos mais seguros num contexto de estagnação económica persistente.
O resultado é aquilo que chamamos de “militarização financeirizada”; isto é, uma importante via de acumulação e, ao mesmo tempo, uma resposta à intensificação da rivalidade imperial e um fator que contribui para ela. Isso é particularmente evidente na “corrida armamentista da inteligência artificial”, uma competição entre as grandes potências pelo domínio dos sistemas de armas autónomas, que reforça a importância estratégica do desenvolvimento de modelos de IA de fronteira [avançados] e atrai capital especulativo. A indústria de armas autónomas tornou-se, assim, fortemente dependente do investimento privado para financiar a expansão industrial e a infraestrutura intensiva em capital necessária para novos avanços em IA.
O papel crescente das finanças privadas, juntamente com as mudanças nos padrões de propriedade da indústria de defesa, provocou uma mudança visível nas estratégias nacionais de aquisição de equipamentos militares, de modo a acomodar empresas de tecnologia menores financiadas por capital de risco e pelo setor financeiro privado, ambos orientados para a experimentação e para métricas de desempenho de curto prazo. Além disso, esse mesmo conjunto de capitais privados está agora a financiar projetos geopolíticos concorrentes nos Estados Unidos, na Europa e na China: gestoras de ativos como a BlackRock e a Vanguard mantêm simultaneamente investimentos no rearmamento europeu, nas principais empresas de defesa americanas e em empresas militares chinesas que foram colocadas na lista negra pelo Pentágono.
À medida que a militarização financeirizada avança, uma ordem geopolítica global estável torna-se cada vez mais incompatível com a lógica dos retornos para os investidores. Em vez de promover a paz, a integração e o internacionalismo, como previam os pensadores liberais, a financeirização está a alimentar tensões nacionalistas e a aumentar o risco de conflitos armados.
Financiando a corrida armamentista da IA
A financeirização contemporânea do setor de defesa é impulsionada, em grande medida, pela necessidade de desenvolver e ampliar a capacidade de IA. Na busca por desenvolver e expandir capacidades nacionais de IA de “duplo uso”, para fins civis e militares, os Estados estão a reformular as práticas de contratação pública, os modelos de investimento e os incentivos à inovação, com o objetivo de atrair capital de risco, empresas emergentes e empresas de tecnologia para a produção de defesa.
Esta transformação é mais explícita nos Estados Unidos. Entre 2022 e 2023, o valor dos contratos federais de IA aumentou de US$ 355 milhões para US$ 4,6 mil milhões. Esse aumento dramático foi impulsionado quase inteiramente pelo Departamento de Defesa. Em 2025, a Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump reafirmou a ambição dos EUA de “continuar a ser o país mais avançado e inovador do mundo em termos científicos e tecnológicos”, reconhecendo a preeminência tecnológica como elemento central da dissuasão militar. Com o objetivo de desenvolver um exército “AI-first” (orientado prioritariamente pela inteligência artificial), o governo dos EUA concedeu contratos de até US$ 200 milhões a chamadas “empresas de IA de fronteira” para desenvolver fluxos de trabalho baseados em agentes de IA destinados a missões de segurança nacional.
Mais recentemente, a plataforma de IA Grok, de Elon Musk, foi destinada à integração nas redes do Pentágono, com o secretário de Defesa Pete Hegseth a confirmar que o país em breve “terá os principais modelos de IA do mundo em todas as redes não classificadas e classificadas do nosso departamento”. A “Estratégia de Aceleração da IA” do Departamento de Defesa também está virada para a redução das barreiras à experimentação e ao investimento, incluindo uma integração mais profunda de empresas privadas de tecnologia no planeamento e na execução das atividades de defesa.
Do outro lado do Atlântico, os Estados europeus estão a implementar políticas industriais e mecanismos de investimento estratégico especificamente concebidos para desenvolver ecossistemas nacionais de IA. No Reino Unido, a Estratégia de Inteligência Artificial para a Defesa sublinha a importância de utilizar o National Security Strategic Investment Fund (NSSIF) para desenvolver um ecossistema de capital de risco que apoie tecnologias de IA e computação quântica de dupla utilização (civil e militar).
Está previsto que o NSSIF receba um reforço de £330 milhões entre 2025 e 2029, destinado ao financiamento de empresas consideradas capazes de fortalecer as capacidades do Reino Unido nas áreas de segurança nacional e defesa. Os seus parceiros de coinvestimento — entre eles AlbionVC, Evolution Equity e Atlantic Bridge — são indicativos de um esforço mais amplo para atrair investimentos privados e capital de risco, alinhar o capital privado com as prioridades de defesa e, simultaneamente, impulsionar o crescimento económico numa economia que, de outra forma, permanece estagnada.
No meio das preocupações com a posição atrasada da Europa no desenvolvimento de IA e com a sua dependência tecnológica tanto de Washington como de Pequim, o Fundo Europeu de Defesa destinou €800 milhões a projetos de IA, tecnologias digitais e ciberdefesa. O Comissário para Defesa e Espaço, Andrius Kubilius, observou recentemente que “sem IA para a nossa defesa na União Europeia, não haverá prontidão de defesa europeia”. Paralelamente às projeções de que os Estados-membros da UE gastarão €3,4 milhões de milhões em defesa propriamente dita até 2035, a Comissão Europeia incentivou os governos a destinar pelo menos 10% dos gastos com defesa a empresas de IA e computação quântica sediadas na UE.
Também foi criado, com apoio do Banco Europeu de Investimento, um “fundo de fundos” de €1 milhar de milhões para ampliar empresas emergentes do setor de defesa em todo o bloco. Esses investimentos são, entre outras coisas, direcionados para o fortalecimento das capacidades europeias de “defesa contra drones”, uma prioridade decorrente do conflito na Ucrânia. Institucionalmente, eles integram empresas de tecnologia financiadas por capital de risco nos sistemas de aquisição e fornecimento de defesa, com o objetivo de alcançar autonomia estratégica em relação ao armazenamento de dados nos Estados Unidos e às infraestruturas tecnológicas.
Propriedade e governança
A intensificação dos vínculos entre a IA e a tecnologia militar também alterou as atitudes dos investidores em relação à defesa. No contexto pós-Guerra Fria, investidores institucionais e empresas de capital de risco tradicionais manifestavam objeções éticas ao investimento e ao envolvimento com atividades relacionadas com o setor militar. Por exemplo, o enquadramento dado por Environmental, Social and Governance (ESG) — Ambiental, Social e de Governança — na década de 2010 frequentemente consideravam a defesa incompatível com os princípios do investimento responsável, colocando a fabricação de armas ao lado de setores como o jogo e o tabaco nas listas de exclusão. No início do século XXI, empresas de tecnologia tradicionais, como a IBM, também priorizavam aplicações viradas para o consumidor e procuravam destacar o seu posicionamento progressista em detrimento das suas alianças da época da Guerra Fria com o Pentágono, enquanto algumas das empresas de tecnologia mais novas divulgavam amplamente a sua posição contrária à guerra.
Estas atitudes mudaram drasticamente nos últimos anos. Na comunidade de investimentos europeia, por exemplo, a invasão russa da Ucrânia normalizou o entendimento defendido pela Global Advisory Alliance de que “defender a democracia pode ser o investimento mais responsável de todos” e de que isso justifica a ampliação do investimento privado na preparação militar europeia. As empresas de tecnologia também convergiram para uma posição semelhante; nas palavras do Google, “as democracias devem liderar o desenvolvimento da IA”.
A mudança de rumo é impulsionada tanto pela transformação do cenário de investimentos como pela mudança do cenário geopolítico. Diante das pressões competitivas, da saturação dos mercados, das taxas de crescimento do PIB e da produtividade cronicamente baixas, das limitações estruturais à rentabilidade da IA e da disponibilidade de enormes volumes de dinheiro público, as grandes empresas de tecnologia passaram a estabelecer amplas parcerias com os complexos militar-industriais dos Estados Unidos e da Europa. Um estudo do MIT publicado em 2025, por exemplo, revelou que, “apesar dos US$ 30 a US$ 40 mil milhões investidos pelas empresas em IA generativa (…), 95% das organizações não estão a obter nenhum retorno”. Para as empresas de IA, a oferta de subsídios relacionados com o setor militar, apoio estatal e um suporte governamental mais amplo — tanto na forma de novos contratos como de apoio diplomático à expansão no exterior — proporciona uma proteção vital contra lucros dececionantes, a volatilidade e as perspetivas de dificuldades económicas no mercado interno.
Os mercados financeiros e os agentes do setor reconheceram as oportunidades de investimento geradas pelos esforços dos governos para desenvolver ecossistemas de defesa baseados em IA, complexos e dispendiosos. A PricewaterhouseCoopers elogia a “IA como um impulsionador exponencial das capacidades militares” e como “um elemento fundamental para viabilizar as capacidades de defesa da próxima geração”. Segundo a empresa, as tecnologias de IA irão “revolucionar as operações militares” até 2030. Da mesma forma, a Morgan Stanley sustenta que “os conflitos geopolíticos estão a catalisar investimentos e esforços de modernização em todo o mundo”, observando que “cenários semelhantes aos da era da Guerra Fria poderiam elevar os gastos globais com defesa para 3,5–4% do PIB, potencialmente desbloqueando centenas de milhares de milhões de dólares em despesas adicionais”. O texto identifica oportunidades significativas tanto no investimento relacionado com a IA nos setores da defesa e aeroespacial, como em áreas a jusante, nomeadamente indústria transformadora, cadeias de abastecimento, logística, cibersegurança e energia.
Como resultado, dados do setor sugerem que as vendas globais de IA destinadas exclusivamente aos mercados militares deverão quase quintuplicar entre 2025 e 2034, passando de US$ 22 mil milhões para US$ 101 mil milhões. As principais áreas de investimento incluem sistemas autónomos colaborativos, algoritmos de tomada de decisão preditiva e gestão dinâmica de recursos.
Sem surpresa, tanto as avaliações das empresas de tecnologia de defesa como a dimensão do investimento nelas direcionado aumentaram significativamente: 2025 foi considerado o “melhor ano de sempre” em termos de financiamento para a tecnologia de defesa. Os negócios de capital de risco (venture capital) no setor de tecnologia de defesa quase duplicaram entre 2024 e 2025, passando de 27 mil milhões de dólares para 50 mil milhões de dólares, enquanto o financiamento através de fundos privados de investimento para empresas emergentes orientadas para a defesa também duplicou no mesmo período.
Embora a maior parte do financiamento captado no Ocidente tenha sido direcionada para empresas emergentes sediadas nos Estados Unidos, a Europa registou um aumento homólogo de quase 40%.
Este aumento no financiamento e nas avaliações segue a elevação “sem precedentes” dos gastos militares globais, sobretudo na Europa. Em particular, a ampla utilização de drones e de softwares de IA na Ucrânia serviu como campo de testes, e tanto os governos como os investidores privados estão a apostar na possibilidade de ampliar a utilização dessas tecnologias em todo o complexo de segurança europeu.
O resultado foi uma profunda mudança na estrutura de propriedade e na governança interna das empresas globais dos setores aeroespacial e de defesa. Ao longo da última década, as empresas de gestão de ativos viram o valor das suas participações acionistas quase triplicar no setor aeroespacial e militar global (Tabela 1). Para além do crescimento agregado desse setor, impulsionado pela valorização das empresas e pela entrada de novo capital, essa tendência reflete uma interpenetração cada vez maior entre as estruturas de gestão e governança das empresas de segurança e das empresas financeiras.
Mesmo antes da militarização ocorrida após 2022 e da consequente rápida expansão dos investimentos relacionados com a IA, a especialista sobre Médio Oriente Shana Marshall havia referido que “a maioria das empresas de fundos privados de investimentos combina nomes de destaque e contactos governamentais de militares de alta patente e ex-integrantes da área de segurança nacional com experientes banqueiros de investimento, que usam a sua rede de clientes ricos para investir em empresas do setor de segurança”.
Fundos privados de investimento e aquisição pública
A grande ironia por trás do atual retorno à política industrial é que este está simultaneamente a impulsionar e a ser impulsionado por uma maior financeirização. Enquanto os Estados implementam políticas e instrumentos industriais orientados pela segurança para fomentar a capacidade tecnológica nacional, empresas de capital de risco, gestoras de ativos e fundos privados de investimento assumem um papel cada vez maior na definição das prioridades e das estratégias de produção das empresas de defesa. Assim, em vez de simplesmente enfraquecer a capacidade estatal, a militarização financeirizada tem levado os Estados a mobilizar e direcionar recursos públicos ampliados de formas que proporcionam retornos substanciais ao setor financeiro.
Uma consequência desta mudança é que os processos nacionais de contratação pública e de aquisição incorporam cada vez mais a especulação, a gestão de portefólios e o desempenho de curto prazo nos ciclos de contratação, nos calendários de I&D e nas estruturas de governação empresarial. Considere-se, por exemplo, as mudanças no processo de aquisição de equipamentos de defesa do Reino Unido, sustentadas pela Revisão Estratégica da Defesa (Strategic Defence Review — SDR) e pela Lei de Contratos Públicos (Procurement Act), que entrou em vigor em 2025. Procurando-se uma “prontidão para a guerra” (warfighting readiness), a SDR compromete o Reino Unido com uma reformulação radical do processo de aquisição, que deverá ser “medido em meses, não em anos”, juntamente com a eliminação das “barreiras à entrada” e das barreiras “entre os militares e o setor privado”. Anualmente, 10% dos processos de aquisição e dos equipamentos do Ministério da Defesa deverão ser destinados a tecnologias inovadoras. A sua nova abordagem segmentada está explicitamente orientada para aproveitar os avanços tecnológicos desenvolvidos por empresas emergentes financiadas por capital de risco, oferecendo contratos direcionados dentro de horizontes temporais que variam entre três meses e dois anos. Na prática, estes contratos funcionam como um portefólio de compromissos de aquisição, calibrados de acordo com diferentes perfis de risco e períodos de tempo.
Rumo a uma transformação das capacidades de defesa do Reino Unido “orientada pela inovação” e “apoiada pela indústria”, a SDR também se compromete a criar um novo “Grupo Consultivo de Investidores em Defesa”. Este grupo inclui membros de empresas de capital de risco (venture capital) e de fundos privados de investimento, e aconselhará diretamente sobre as prioridades e estratégias do governo para atrair investimentos adicionais. Esta parceria é apresentada como uma forma de estimular avanços tecnológicos no Reino Unido e como um veículo para o chamado “dividendo de defesa” [“defense dividend”], impulsionando o crescimento económico nacional.
Desenvolvimentos paralelos podem ser observados em toda a UE e nos EUA. Nos Estados-membros da UE, os processos europeus de aquisição de equipamentos de defesa estão a ser reformulados para “incluir empresas emergentes inovadoras e pequenas empresas”, como no caso do Bundeswehr Cyber Innovation Hub (CIHBw) da Alemanha, que colabora diretamente com investidores de capital de risco para fomentar capacidades de defesa. No âmbito da UE, a estratégia ReArm da Comissão Europeia também está orientada para alavancar o financiamento público a fim de desbloquear investimentos privados e capital de risco em tecnologias críticas de defesa — subsidiando, na prática, com recursos públicos, os lucros privados nos setores de tecnologia e defesa.
Os EUA também estão a reformular as suas práticas de aquisição e contratação de defesa e de uma forma que reflete a velocidade, a tolerância ao risco e os modelos de expansão comercial do capital de risco e do capital financeiro: uma mudança para longe de ciclos de desenvolvimento que duram décadas, uma ênfase na “rapidez na entrega de capacidades”, um compromisso com a contratação “comercial em primeiro lugar” e a eliminação de obstáculos burocráticos. Assim, os EUA procuram aproveitar as suas ligações tanto com Wall Street como com o Vale do Silício para impulsionar o desenvolvimento da sua capacidade militar e dos seus sistemas de inovação, ao mesmo tempo em que procuram uma “renovação” de US$ 150 mil milhões em infraestrutura, financiada por fundos privados de capital. A sua ampla reforma dos processos de aquisição e contratação está, em última instância, voltada para o fortalecimento da base industrial de defesa dos EUA e, nas palavras do secretário Pete Hegseth, para permitir que “as empresas inovadoras da América concentrem os seus talentos e as suas tecnologias nos problemas mais difíceis de segurança nacional”.
Assim, os EUA estão a expandir as redes de capital de confiança e parcerias extensas entre o seu Departamento de Defesa e empresas de tecnologia financiadas por capital de risco, incorporando sistematicamente o financiamento privado à base de inovação em defesa dos EUA e ao complexo industrial-militar em sentido lato. Este último tem sido dominado por um conjunto relativamente pequeno de grandes contratantes — Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, RTX (anteriormente Raytheon) e General Dynamics — e financiado principalmente por contratos governamentais diretos. No modelo atual, porém, uma nova geração de “neo-contratantes”, como Anduril, Skydio e Shield AI, desempenha agora papéis significativos.
Capital sem fronteiras encontra a territorialização
Em vez de integrar os mercados globais, o financiamento privado móvel é canalizado por meio de sistemas nacionais de aquisição e inovação cuidadosamente protegidos. A inovação militar é absorvida por mercados e cadeias de abastecimento delimitados territorialmente e protegidos por barreiras protecionistas. As arquiteturas de segurança resultantes são compartimentadas, e cada uma delas está vinculada a um projeto geopolítico distinto.
Isto é mais visível no seio da agora conturbada aliança atlântica. A estratégia da UE de ReArm Europe depende da mobilização de capital através de grandes investidores institucionais, empresas de private equity e capital de risco, para canalizar milhares de milhões de euros para empresas europeias de tecnologia de defesa. No entanto, esta estratégia está orientada para a construção da Base Tecnológica e Industrial Europeia de Defesa (EDTIB) e é condicionada por rigorosas disposições de «Comprar Europeu», que exigem que pelo menos 65% dos componentes e munições tenham origem na UE ou em Estados associados, juntamente com metas de capacidade para sistemas de defesa aérea e antimíssil, inteligência artificial, drones e capacidade de ataque de longo alcance. A resposta do Pentágono foi contundente. Este «opôs-se fortemente» ao que classifica como políticas «protecionistas e excludentes que pressionam as empresas americanas para fora do mercado» e ameaçou retaliar contra as empresas europeias.
Os próprios investidores, contudo, não enfrentam tais barreiras, atravessando a divisão que eles mesmos ajudam a tornar mais rígida. A BlackRock, por exemplo, figura entre os maiores acionistas institucionais da Airbus e da Rheinmetall, empresas que estão na vanguarda do rearmamento europeu (detendo cerca de 6–7% das ações), e criou fundos para lucrar com esse processo, mas também é uma importante acionista de gigantes da defesa norte-americanos, como a Lockheed Martin e a Northrop Grumman. Assim, a “soberania” europeia em matéria de defesa, embora financiada pelo mesmo capital móvel, prenuncia uma infraestrutura tecnológica e de segurança paralela, colocada em desacordo com a dos Estados Unidos.
Um padrão semelhante é visível nas forças armadas dos EUA e da China. A estratégia chinesa de Fusão Civil-Militar (Military-Civil Fusion — MCF) considera setores de uso dual, como inteligência artificial, aeroespacial e computação quântica, centrais para a modernização do Exército de Libertação Popular (ELP), e procura eliminar as barreiras entre o desenvolvimento tecnológico civil e a produção para a defesa. A própria estratégia de MCF funciona como um mecanismo de territorialização: incorpora investimentos móveis (e frequentemente estrangeiros) em tecnologias de uso dual e vincula-os a uma base industrial-militar enraizada nacionalmente, mantida sob rigorosos controles de exportação por razões de segurança. No entanto, apesar das tentativas dos EUA de restringir o acesso chinês a financiamento, semicondutores avançados e outros componentes, o capital continua a fluir para a China. Investidores sediados nos EUA, como o Goldman Sachs e a Intel Capital, investiram em empresas chinesas de IA de uso dual, levando alguns a afirmar que “os imperativos do capital se sobrepõem às mais profundas rivalidades geopolíticas.”
Este padrão persiste mesmo diante das próprias classificações de segurança do governo dos EUA. Em 2024, o Comité Especial da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês constatou que provedores de índices e gestores de ativos dos EUA facilitaram US$ 6,5 mil milhões em investimentos em 63 empresas chinesas que tinham sido colocadas na lista negra pelos EUA, dos quais US$ 5,3 mil milhões foram destinados especificamente a empresas militares da República Popular da China (RPC). Além disso, os mesmos dois gestores de ativos americanos que sustentam o rearmamento europeu — BlackRock e Vanguard — também são os maiores investidores em empresas militares chinesas incluídas na lista negra, fornecendo aproximadamente US$ 1,9 mil milhões cada.
Mais recentemente, um relatório de 2026 do mesmo Comité Especial da Câmara alegou que o JPMorgan e o Bank of America ajudaram a gigante chinesa de baterias CATL a levantar milhares de milhões de dólares, apesar de a empresa ter sido classificada pelo Pentágono como uma “empresa militar chinesa”. Embora tais transações não fossem proibidas pela legislação americana, o relatório afirma que “cada banco optou essencialmente por ignorar a classificação do governo dos EUA de empresa militar chinesa para ganhar milhões de dólares”.
Uma vez canalizado através do quadro MCF da China, o capital financeiro móvel contribui para uma estrutura de inovação concorrente com a dos EUA e da Europa. Consideremos a Aviation Industry Corporation of China (AVIC). A AVIC é o principal fabricante de aeronaves militares para o Exército de Libertação Popular (ELP) e o responsável pelo projeto do caça de sexta geração da China; a empresa recebeu 178 milhões de dólares através de fluxos de investimento passivo em índices dos EUA, mesmo estando “envolvida numa corrida com os EUA para determinar quem é que conseguirá colocar a tecnologia operacional em primeiro lugar”. Como reconheceu o antigo vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Matt Pottinger, perante a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes: “As empresas, instituições financeiras e fundos de investimento dos EUA têm […] ajudado a financiar e a acelerar a modernização do ELP e do Estado policial chinês de alta tecnologia.” Posteriormente, lamentou que “a nossa [dos EUA] criatividade e o nosso dinheiro estejam a fornecer as chamadas tecnologias de uso dual”, incluindo “semicondutores avançados e aplicações de IA de ponta para veículos aéreos não tripulados […]”, todas elas integradas em programas militares e de inteligência chineses. O capital financeiro móvel é canalizado para aparatos tecnológicos e de segurança paralelos, compartimentados e potencialmente concorrentes, cada um deles promovendo ativamente projetos geopolíticos alternativos.
Limites das coligações
O aprofundamento da financeirização dos setores militares e de defesa nacionais é resultado de duas crises. A primeira é uma crise estrutural das economias neoliberais: a perda de dinamismo das economias ocidentais avançadas e altamente financeirizadas tem levado à busca por retornos garantidos pelo Estado. A segunda é o aumento da instabilidade geopolítica, impulsionada, por sua vez, por uma ampla gama de problemas contemporâneos: a crescente concentração de riqueza, a deterioração das condições de trabalho, o acumular de dívidas incobráveis, o aumento dos custos da habitação, a retirada de serviços públicos e de direitos universais e, não menos importante, as mudanças climáticas e a disputa por energia, minerais e outros recursos [negritos nossos, JM].
A convergência entre os setores militar, financeiro e tecnológico constitui uma poderosa forma de enfrentar essas crises sobrepostas, permitindo que cada setor consolide o seu poder e gere retornos financeiros. Paradoxalmente, toda essa estrutura depende de injeções de recursos financiados pelos contribuintes — que frequentemente levam os Estados a reduzir recursos destinados às despesas sociais, numa tentativa de aparentar equilíbrio orçamental — e dos investimentos dos fundos de pensão. Assim, os trabalhadores arcam com as consequências da militarização financeirizada, enquanto os seus próprios fundos de pensão a financiam [negrito nosso, JM].
Embora poderosa, a coligação entre as grandes tecnológicas, o setor financeiro privado e as indústrias militares nacionais tem as suas limitações. Em primeiro lugar, existem restrições potenciais ao grau em que a produção militar pode ser territorializada. A tecnologia de defesa (e o Vale do Silício de modo geral) depende fortemente de terras-raras e minerais críticos, seja para sistemas de orientação de mísseis, comunicações por satélite ou caças. A crise de 2026 em torno da soberania da Gronelândia, juntamente com a busca agressiva dos EUA por minerais críticos na República Democrática do Congo (RDC), pode ser interpretada como uma tentativa de garantir o abastecimento americano perante o domínio chinês nesse setor. A urgência é ainda maior diante das novas regras de aquisição que proibirão, a partir de janeiro de 2027, o uso de ímãs e metais de terras-raras de origem chinesa na tecnologia de defesa dos EUA. Na ausência de cadeias de abastecimento alternativas e considerando as limitações estruturais dos EUA no processamento intermediário de terras-raras, é provável que a interdependência entre EUA e China persista tanto no que diz respeito às finanças como no acesso a materiais críticos.
As tecnologias militares equipadas por IA também expõem o setor da defesa às dinâmicas especulativas que caracterizaram ondas anteriores de investimento financeiro e tecnológico, sobretudo à possibilidade de uma crise da IA. A estrutura emergente do setor da defesa torna-o um domínio comparativamente de baixo risco para o capital privado, uma vez que as garantias estatais asseguram, na prática, a procura, os investimentos em larga escala e os lucros daí resultantes. Neste sentido, as aquisições militares já funcionam como um subsídio antecipado ao setor da IA, que ainda não demonstrou plenamente a sua viabilidade comercial. Mas essa mesma estrutura também levanta a possibilidade de que qualquer futura contração das avaliações relacionadas com a IA seja gerida através de mecanismos de resgate público, justificados por razões de segurança nacional, transferindo as pressões orçamentais — e as medidas de austeridade — para outras áreas da despesa pública. Isto reproduziria o resgate que foi feito com a indústria financeira após a Crise Financeira do Atlântico Norte de 2007–09, mas sem a possibilidade de compensar esses custos através de cortes na despesa com a defesa.
De uma forma ou de outra, a militarização financeirizada deverá continuar: um processo que simultaneamente se alimenta da instabilidade geopolítica e a aprofunda seriamente.
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Os autores
Alfredo Saad-Filho é um economista brasileiro, professor de Relações Internacionais na Queen’s University Belfast. Foi professor de Economia Política e Desenvolvimento Internacional no King’s College de Londres (2019/2024). As suas principais obras são O Valor de Marx – Economia política para o capitalismo contemporâne (2012) e O Capital de Marx (1975), em parceria com o professor de economia Ben Fine.
Alfredo Saad-Filho é graduado em Economia pela Universidade de Brasília e pela Universidade de Londres, na (Escola de Estudos Orientais e Africanos). Os seus textos abrangem críticas ao pós-Consenso de Washington; políticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial e alternativas de políticas em favor dos pobres. Também incluem análises concretas de políticas fiscais, monetárias, financeiras, de balanço de pagamentos e de emprego, bem como metas de inflação, uso de recursos (incluindo a ‘maldição dos recursos naturais’ e a doença holandesa) e formulação de políticas na África Subsaariana, América Latina (especialmente no Brasil) e no Oriente Médio. Foi Diretor Sénior de Assuntos Económicos na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em Genebra, entre 2011 e 2012. Lecionou em universidades e instituições de pesquisa no Brasil, Canadá, China, Alemanha, Itália, Japão, Moçambique, Suíça e Reino Unido. É membro do Comité do Prêmio Deutscher Memorial Prize, idealizado em 1969 e concedido anualmente aos melhores e mais inovadores escritos. dentro da tradição marxista. Também é editor associado da publicação inglesa Socialist Register e membro do conselho editorial da revista brasileira de economia política Brazilian Journal of Political Economy e do jornal sul-coreano Marxism 21. Também é editor participante da Latin American Perspectives, membro do conselho consultivo do Materialismo Histórico e membro do conselho editorial internacional de Studies in Political Economy, entre muitos outros periódicos. Sobre as suas publicações ver também Wikipedia aqui.
Jack Taggart é professor de Economia Política Internacional na faculdade de História, Antropologia, Filosofia e Política da Queen’s University de Belfast e supervisiona estudantes de Doutoramento em todos os amplos campos da economia política internacional e das Relações Internacionais. Os seus interesses abrangem o desenvolvimento internacional, a política ambiental, a governação global e a geopolítica da economia mundial contemporânea. Trabalha numa perspectiva heterodoxa e crítica da economia política internacional. Escreveu e publiqcou extensivamente sobre as mudanças no mundo do financiamento do desenvolvimento e o crescente papel dos intervenientes financeiros privados ao lado da China; a economia política dos plásticos e o pivô da indústria dos combustíveis fósseis para os petroquímicos; e o desenrolar mais amplo da ordem multilateral liberal no meio da intensificação da rivalidade geopolítica.
É licenciado em Relações Internacionais e doutorado em Política e Relações Internacionais pela Universidade de Durham (Inglaterra).


