O GARDEN PARTY – de Katherine Mansfield – 4 – por João Machado

Hoje, Dia Mundial da Poesia, faz sentido ouvir um poema de Katherine Mansfield,

Camomile Tea

Outside the sky is light with stars;
There’s a hollow roaring from the sea.
And, alas! for the little almond flowers,
The wind is shaking the almond tree.

How little I thought, a year ago,
In the horrible cottage upon the Lee
That he and I should be sitting so
And sipping a cup of camomile tea.

Light as feathers the witches fly,
The horn of the moon is plain to see;
By a firefly under a jonquil flower
A goblin toasts a bumble-bee.

We might be fifty, we might be five,
So snug, so compact, so wise are we!
Under the kitchen-table leg
My knee is pressing against his knee.

Our shutters are shut, the fire is low,
The tap is dripping peacefully;
The saucepan shadows on the wall
Are black and round and plain to see.

E agora, a quarta parte da tradução de The Garden Party, por João Machado:

O GARDEN- PARTY – IV

Lá conseguiram encontrar o envelope atrás do relógio da sala de jantar, embora a Senhora Sheridan não tivesse a menor ideia sobre como teria ido lá parar.

― Uma de vocês surripiou-mo da minha mala, porque eu lembro-me muito bem … queijo creme e requeijão. Escreveste?

― Sim.

― Ovo e… ― a Senhora Sheridantirou-lhe o envelope. ― Parece ratazanas. Não pode ser ratazanas, pois não?

― Azeitonas, mãezinha, ― disse Laura, por cima do ombro dela.

― Azeitonas, pois claro. Que mistura horrível. Ovo e azeitonas.

Lá conseguiram acabar, e Laura levoufoi levar tudo à cozinha. Encontrou Jose a acalmar a cozinheira, que não parecia querer aterrorizar ninguém.

― Nunca tinha visto sanduíches com um aspecto tão requintado, ― diziaJose com uma voz entusiástica.De quantas qualidades é que disse que há, cozinheira? Quinze?

― Quinze, Miss Jose.

― Bem, cozinheira, os meus parabéns.

A cozinheira varreu umas migalhas com a faca de cortar pão, e mostrou um grande sorriso.

― Chegaram da Godber, ―avisou Sadie, a sair da copa. Tinha visto o homem a passar em frente á janela.

Portanto as bombas tinham chegado. A Casa Godber era famosa pelas suas bombas. Ninguém pensava sequer em fazê-las em casa.

― Trá-las e põe-nas na mesa, menina, ― ordenou a cozinheira.

A Sadie trouxe-as para dentro e voltou à porta. Claro que a Laura e a Jose eram demasiado crescidas para ligarem muito aquelas coisas. De qualquer modo, não podiam deixar de concordar que as bombas tinham um aspecto muito atraente. Muito. A cozinheira começou a arranjá-las, limpando o açúcar gelado a mais.

― Não achas que nos fazem recordar todas aquelas festas em que já estivemos?

― Acho que sim, ― disse a prática Jose, que não gostava de recordar o passado. ― Parecem muito leves, como penas.

― Tirem umcada uma, queridas, ― disse a cozinheira com voz tranquila. ― A vossa mãe não dá por isso.

Oh, não podia ser. Imaginem, bombas logo a seguir ao pequeno almoço. Só pensar nisso causava sobressaltos. De qualquer maneira, dois minutos depois Jose e Laura lambiam os dedos com aquele ar pensativo que só o chantilly consegue causar.

― Vamos ao jardim, pelo caminho de trás, ― propôs Laura. ― Quero ver como é que os homens se estão a haver com o toldo. São tremendamente simpáticos.

Mas a porta de trás estava impedida pela cozinheira, por Sadie, pelo homem da Godber e por Hans.

Tinha acontecido alguma coisa.

―Tac, tac, tac, ― a cozinheira parecia cacarejar como uma galinha agitada. A Sadie tinha a mão a agarrar a cara como se estivesse com dor de dentes. O rosto de Hans contorcia-se com o esforço para compreender. Só o homem da Godber parecia estar contente; era ele quem contava a história.

― Que se passa? Que aconteceu?

― Houve um acidente terrível. ― disse a cozinheira. ―Morreu um homem.

― Morreu um homem! Onde? Como? Quando?

Mas o homem da Godber não deixava que contassem a história por ele.

― Estão a ver aquelas casinhas ali em baixo, meninas? ― Se as conheciam? Claro que as conheciam. ― Pois, vivia ali um rapaz chamado Scott, que trabalhava como carroceiro. O cavalo dele, na curva da rua Hawke, assustou-se com um tractor,  e ele foi projectado e bateu no chão com a parte de trás da cabeça. Morreu,

― Morreu! Laura olhava para o homem da Godber.

―Estava morto quando o levantaram, ―disse o homem da Godber com ar prazenteiro. ― Iam a levar o corpo para casa quando eu vinha para aqui. ― E disse para a cozinheira, ― Deixa mulher e cinco filhos.

― Anda cá, Jose. ― Laura puxou a manga da irmã e levou-a através da cozinha até passarem a porta forrada a baeta verde. Parou e encostou-se ali. ― Jose! ― disse, horrorizada, ― como é que vamos suspender tudo?

― Suspender tudo, Laura! ― exclamouJose espantada. ― Que queres dizer?

― Suspender o garden-party, claro. ― Porque é que a Jose fingia não perceber?

Mas Jose estava cada vez mais espantada. ―Suspender o garden-party? Minha querida Laura, não sejas absurda. Claro que não podemos fazer nada disso. Ninguém espera que o façamos. Não sejas tão extravagante.

― Mas nós não podemos de modo nenhum dar um garden-party com um homem morto mesmo do lado de fora do nosso portão da frente.

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