Adão Cruz apresenta hoje o seu quinto e penúltimo trabalho nesta EXPO-VIRTUAL.
Hoje, vamos recordar o que o argonauta António Gomes Marques, em Junho de 2011 disse sobre «rente ao cair da folha», uma exposição de Adão Cruz:
.No regresso de uma viagem em serviço ao Porto, fiz um pequeno desvio para ver a exposição de pintura do Adão Cruz, na Galeria Zeller, em Espinho, desvio que me deu oportunidade de, por fim, ver ao vivo alguns quadros do pintor, dado que apenas conhecia reproduções em livros que têm vindo a ser editados, para além das fotografias divulgadas no «estrolabio».
Não poderia ter ocupado melhor aquele tempo. Gostei muito do que vi.
Quando vejo uma exposição de pintura, vou sempre a pensar qual dos quadros gostaria de ver pendurado nas paredes da minha casa. Nesta exposição senti que escolheria vários.
Há quem diga que a pintura é para uma elite cultural, dado que o comum dos mortais não tem capacidade para apreciar arte tão maravilhosa, do que discordo profundamente. Criem condições para que as pessoas tenham acesso a estas manifestações, levem os estudantes a visitas periódicas a museus e a exposições, tornem-nas mesmo obrigatórias no ensino secundário, ou seja, criem-se hábitos e depois veremos o resultado.
Ao ver esta exposição de Adão Cruz fui pensando em tudo isto, mas o que me faltava compreender era a razão desta pintura.
Na impossibilidade de adquirir pelo menos um dos quadros, e eleger um não me seria fácil, – a crise também não facilita e esperemos que não venha a haver alguém, um dia, a dizer que, afinal, o Medina Carreira era um optimista! – resolvi então comprar um dos livros, «Um gesto de silêncio», que reproduz muitos dos quadros expostos que tinha acabado de ver. Folheando o
livro, cheguei ao texto que o finaliza, de Eva Cruz, irmã do pintor, ficando a saber que, para além de nascer e crescer «na pequena aldeia das Figueiras do Concelho de Vale de Cambra», foi nesta vila (cidade desde Maio de 1993) que começou a exercer medicina. Escreve a sua irmã: «No fim do estágio, um grupo de amigos montou-lhe o seu primeiro consultório pessoal, a partir do qual se dedicou de alma e coração ao sofrimento de todo o povo de Vale de Cambra e concelhos limítrofes, numa altura em que a Medicina dava um salto científico e qualitativo entre o empirismo do passado e a medicina moderna.» Era isto que me faltava saber e julgo não me enganar nas conclusões a que cheguei.
Na pintura de Adão Cruz sinto as vivências do médico, testemunha privilegiada do sofrimento daquele povo, mas também do poeta que ama a natureza, cheia da beleza colorida que rodeava as gentes da zona. Adão Cruz foi testemunha do sofrimento do seu povo e, na sua pintura, sinto que sofreu em profunda solidariedade com os seus conterrâneos.
Lembro os tempos das grandes polémicas à volta dos conceitos de naturalismo, realismo, abstraccionismo, objectivismo, subjectivismo e vários outros ismos, que em vez de nos esclarecerem mais nos perturbavam a espontânea apreciação do que aos nossos olhos os artistas apresentavam para que pudéssemos, livremente, sem preconceitos, fruir da arte que produziam. Pessoalmente, valeu-me o convívio e a leitura de autores como Fernando Lopes Graça e Mário Dionísio, de Costa Ferreira, Rogério Paulo e Luís Francisco Rebello, para apenas citar os que, na minha juventude, mais me terão ensinado a ver e a usufruir da arte que ia sendo produzida no Portugal fascista de então. E valeu-me também uma outra grande corrente – o Movimento do Neo-Realismo. Claro que depois o curso de Filosofia ajudou a arrumar tudo isto. Será que arrumei?
Dou claramente preferência a uma arte que me ajude a ter uma visão dialéctica da realidade que me rodeia, que me faça acreditar que essa realidade pode ser transformada pela acção do homem, que me leve a continuar a ter esperança que tal transformação possa contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, para uma sociedade onde seja possível a igualdade de oportunidades para todos, uma sociedade solidária. A pintura de Adão Cruz está pois dentro da arte da minha preferência. Mas não confundamos a Arte com a imagem da realidade, para ter essa imagem não necessito da Arte. Da Arte necessito para me ajudar a compreender essa realidade que a Natureza me dá, para me ajudar a ver o que estará por detrás dessa imagem, para me ajudar a construir um diálogo dialéctico com o Mundo em que vivo, que me ajude a compreender o caminhar do Homem ao longo dos séculos.
Relembremos Mário Dionísio: «Não há nova arte possível fora do “desenvolvimento natural” das aquisições que a humanidade alcançou nos últimos séculos, incluindo os anos mais recentes. Tal desenvolvimento não se processa por mero acaso ou pela simpática deliberação dos artistas isoladamente considerados. Não é função de um decreto nem de um acto de fé. Pode-se interferir no seu processo, mas não é possível levá-lo pela mão. Ele nutre-se do diálogo ininterrupto – mesmo quando arredio e caprichoso – amorosamente travado entre a paleta e o mundo. Depende das relações interactuantes que permanentemente se estabelecem entre os fenómenos da sociedade e a capacidade de resposta e transfiguração dos artistas, entre a vontade dos grupos humanos e a atitude de concordância ou de rebeldia dos artistas que lhe dão voz ou a combatem, da riqueza da criação dos artistas e do comportamento dos homens perante essa riqueza. É função do que é mais geral na sociedade e do que é mais particular no indivíduo. Todas as partes estão em jogo.» (in«a paleta e o mundo», vol. 1, Publ. Europa-América, 2.ª edição, Novembro de 1973).
Esta frutuosa inquietação que esta exposição criou em mim fez-me revisitar não só a obra de Mário Dionísio, mas também a obra do meu querido e saudoso amigo Manuel da Fonseca (e deste não foi por eu estar envolvido nas comemorações do centenário do seu nascimento); fez-me também ir à procura da poesia de Adão Cruz, que não consigo encontrar nas principais livrarias de Lisboa, fez-me comprar um outro dos seus álbuns: «Hora a hora rente ao tempo», uma edição da Campo das Letras de Setembro de 2007. No texto que Adão Cruz escreve a abrir esta edição, pode ler-se, a determinado momento: «A Arte é um produto de ideias mas também um veículo de ideias. Quando deixa de ser transparente como veículo de ideias, quando não é mais do que configurações, cores e sons, transforma-se numa técnica de
entretenimento superficial dos sentidos. Quando se diz apenas produto de ideias, menosprezando o poder de relação, confina-se ao processo neuronal que a gerou e que pode ser relativamente pobre. A Arte é aquilo que vive atrás da aparência das coisas. Para que a obra adquira grandeza, os processos formais devem ser ofuscados pelo seu próprio efeito.» E, mais à frente, continua: «A Arte é sempre uma prática de meditação, uma tomada de consciência, a livre expansão de nós mesmos, inteligência viva, diálogo e libertação das forças vitais dentro de uma disciplina ética. Dito de outra maneira, a Arte é sempre impacto, desconcerto de espírito e agente de transcendência das formas físicas e de mudança das formas de ver e pensar.»
As transcrições foram longas, mas foram-me necessárias.