Pequena Crónica de Faro: sobre um país que estão a fechar, que estão a acorrentar
Júlio Marques Mota
20 de Março de 2013
Parte I
Saio de Coimbra. A chuva cai copiosamente, não há sol, o dia está triste e saio da cidade, vou de “férias”, eu que não tenho já de marcar o ponto. De saída fecho bem a porta de casa.
Aqui lembro-me de Edward Hugh, lembro-me da sua última reportagem sobre Espanha, sobre a sua frase sibilina que cito de memória: ninguém espera por Rajoy, ninguém espera por nada em Espanha, espera-se apenas que o último a sair de Espanha desligue as luzes e feche a porta.
Feche a porta, é a frase que se martela aos ouvidos e interrogo-me: será que eu não vivo também num país em que o seu povo está lentamente a fechar-se, a fechar a porta e a apagar as luzes?
Relembro dois acontecimentos recentes ainda em Coimbra. Vou comprar o jornal e o meu vendedor diz-me: sabe, morreu o Zé barbeiro. Lembro o Zé barbeiro, as suas mãos finas, não as mãos como as de Eduardo Mãos de Tesoura, mas as mãos de quem passou a vida a dar ares de elegante a quem o era e a quem o não era também. O Zé barbeiro de muita clientela que repentinamente se esfumou, o sector serviços que rebentou neste país que, de repente, um país cheio de gente sem dinheiro se transformou, o Zé barbeiro com empregados desde há dezenas de anos por si bem conhecidos e pelos seus clientes também, o Zé barbeiro com despesas mensais e sem receitas para as pagar, esse suicidou-se, fechou ele não a porta de um país, fechou a porta da sua vida. Como em Itália o fizeram também dezenas de pequenos empresários, o que levou até a uma vigília de protesto contra a situação e em defesa de medidas de apoio aos pequenos empresários que se estavam a suicidar. A tudo isto, Monti e Bruxelas ficaram indiferentes, naturalmente assim.
O meu vendedor de jornais quando me fala do assunto ainda disse baixinho e para si mesmo mas que eu ouvi: era bom que o Gaspar soubesse disso. Contradição de monta: o meu vendedor de jornais é um homem de esquerda de boa cepa e de forte consciência. Tão forte que concordará com o que diz o José Vítor Malheiros: “a única preocupação de Gaspar é garantir que os portugueses se mantêm suficientemente activos para poder pagar aos credores e suficientemente passivos para permitir que o governo os roube sem tugir nem mugir. Como isso tem acontecido, o seu principal objectivo tem sido alcançado. Tudo o resto – o desalento, o sofrimento, a doença, a miséria, os suicídios, a emigração forçada, tudo isso é secundário. Gaspar é o capitalismo financeiro sem pátria em toda a sua brutal franqueza”. Por outras palavras, Gaspar é um homem sem coração e o nosso vendedor de jornais sabe-o, e sabe-o com tanta ou mais certeza que eu. Porque o disse, então? Porque no fundo da sua velhice, onde já muito longinquamente ainda mora a sua infância e as recordações da vida que sobre o José barbeiro há-de ter, é o sonho de uma criança que lentamente deixa transparecer nessa frase. Olho-o, espantado, e saio. Lembro-me então do Edward Hugh.
Subo a rua, passo pelo meu farmacêutico a desejar-lhe boa Páscoa, eu, que sem ponto para marcar ia de férias. Diz-me: sabe, estive mal, fui parar ao Hospital, com complicações cardíacas. Fizeram-me uma série de exames e felizmente parece não haver nada, salvo muito stress, muito mesmo. Mas, pergunto eu, com a sua idade, cerca de 35, não entendo.
Penso ser um jovem de vida relativamente abastada, e é. Mas aqui encontro também um paralelo, na sua versão bem menos dramática certamente, mas no mesmo registo. Sabe, as vendas reduziram-se.
Lembra-se do medicamento que lhe vendi para o seu primo, ontem?
Lembro, respondi. Pois é, dantes custava cerca de 20 euros e agora custa-lhe cinco euros e com a receita médica pagará 3,5 euros. Ou seja as minhas receitas desceram para um quarto do seu valor ou mesmo menos, talvez para um quinto, com as pessoas a gastarem menos medicamentos, por falta de dinheiro. As despesas com pessoal, como vê, essas mantêm-se. Adicione ainda os meus cortes num rendimento que já era baixo. E que faço ao pessoal, quando muito dele tem mais anos de casa que eu de vida? Diga-me? Só lhe respondi a ele que é um homem de direita, conservador: a crise há-de passar quando este povo de tudo isto e para tudo isto acordar. Aguente-se e não dramatize mais a sua situação, disse-lhe.
Saí então de Coimbra. Poderia por aqui multiplicar os exemplos mas falo aqui apenas sobre estes últimos, os últimos que me vêm à cabeça quando estou a fechar a porta e me lembro de Edward Hugh.
Passo várias estações de serviço. A estação de Santarém, de bombas BP, tinha gente, não muita, mas tinha. Compro aqui uma sandes, porque é a única estação de serviço que julgo de alguma qualidade e quero uma mini. Não há mini’s!
É domingo, é tempo de férias, as da Páscoa. Depois ao nível das estações de serviço, é uma desgraça completa. Carros estacionados, muito poucos. Gente a comer dentro das estações de serviço, ninguém! Em cada uma das que parei, fui para as mesas dos pobres, de madeira quase preta e áspera, comer uma sandes que trazia de casa e uma cerveja que ia lá dentro comprar. Mini? Não havia mini’s e fora do balcão dessas estações de serviço, ninguém ouvia esta resposta, porque não havia lá ninguém para lá dos empregados. Cá fora nas mesas destinadas aos pobres estão um outro casal de avós com os seus netos e nesse dia sem sol e com chuviscos, havia ainda quem à maneira talvez de Jean Renoir quisesse fazer daquele passeio, claramente triste, uma festa: havia sempre uma toalha limpa e colorida que se colocava sobre a mesa de tábuas escuras para lhe dar alegria, como se alegremente estivessem num piquenique. Mas havia uma diferença, em Renoir partia-se de um mundo sem direitos para um mundo com direitos e ainda não se sabia o que fazer deles, enquanto agora, é o contrário, parte-se de um mundo de direitos, a que agora chamam de privilégios e parte-se para o mundo do nada.
Os meninos, esses ainda riam, mas claramente menos do que o habitual para a idade. Para trás deixavam os pais e sabiam que talvez tenham ficado para trás por dificuldades financeiras. Penso ainda nos homens que exploram estas estações de serviço. Cedo ou tarde irão fechar. Terão ganho um concurso para exploração da estação de serviço, penso eu, têm despesas fixas relativamente elevadas para as receitas que agora estão a obter. O drama, como em todas as crises, é que as despesas, os passivos, estão fixos, a margem de manobra é pequena e as receitas caem a pique, ou seja, repentinamente as pessoas ficam endividadas e com as dívidas a aumentar e sentem então que têm de se ir embora, que têm que fechar a porta. E lembro-me de Edward Hugh.
Chego ao Algarve, calmamente, por uma auto-estrada sempre ou quase sempre vazia. Um investimento brutal de um país, um rendimento de miséria para o investimento realizado. Se estamos com uma parceria público-privada, bom, é então um vazio que nos sai do nosso bolso.
São, por um lado, receitas que o Estado não pode tributar, porque como receitas deixam de existir, são depois impostos que adicionalmente teremos de pagar, quer para o défice criado quer para os lucros privados que deixaram de existir. Auto-estradas vazias. Será que os portugueses já se foram embora? E volto a pensar em Edward Hugh e nas auto-estradas de Barcelona vazias em que havia já aí alguém que apagava as luzes!
(continua)
