
Hoje de tarde entra-me pela redacção Praxedes encalmado, suado, com a viseira caída de quem traz grandes preocupações debaixo do couro cabeludo. Chama-me de parte ao vão de uma janela e, pegando-me afectuosamente por um botão do colete, murmurou-me em voz meiga:
― Você é meu amigo?
― Se sou!
― Palavra de honra?
― Palavra…
― Estou nas suas mãos. Só você me pode salvar. Há três dias que ando aflitíssimo da minha vida.
― Oh Praxedezinho, se não é dinheiro…
― Não é. A minha afliçãp é esta: o Quico não faz ideia nenhuma dos factos mais notáveis do reinado de D. Sancho II.
― O Gordo?
― Não. Um que foi rei de Portugal.
― E depois? Que tem isso? Também eu não sei e nem por isso deixo de viver satisfeito.
― Mas a desgraça é que o Quico vai fazer exame.
― Ah! Percebo. Quer que eu ensine ao seu pequeno o que se passou no tempo do tal Sancho.
― Não.
― Então o quê?
― Quero que me arranje um empenho para o lente. Você calcula lá! Há quinze dias que não faço outra coisa senão correr atrás de uma carta de recomendação. Eu já fui ao Caminho de Ferro a casa de um doutor que me disseram que era especialista em doenças de escrever ao professor. Estava fora, Daí fui ao Dafundo a casa de uma senhora viúva , que é muito amiga da mulher do homem. Tornou a casar e está na lua de mel. Disseram-me depois que um vidraceiro na rua da Prata tinha o professor na mão. Era mentira. Aconselharam-me que fosse a Sacavém, onde mora um irmão do lente. Estão de mal. Já escrevi para o Porto e indicaram-me uma corista a quem o tal sujeito não podia recusar nada. Afinal a corista está agora com um cadete. Já pedi bilhetes para quatro senadores, para o director geral da instrução pública, eu sei lá!… De súbito, tive a ideia de procurar um jornalista. Vocês conhecem toda a gente… Poder-se-á arranjar a coisa?
― E ouça-me cá: enquanto você anda nessa lufa-lufa, o que faz o menino Quico?
― Está em casa a desfiar casulos de bichos de seda, de que faz criação todos os anos.
― Ora em vez de estar entretido nesse grave problema, não era melhor que estivesse a estudar o D. Sancho e não era preferível que V. lhe puxasse, de quando em quando, as orelhas em lugar de andar à cata de empenhos para o seu insecto?
― Homem? Tem você razão. Nunca tinha pensado nisso.
7 de Julho de 1913
IN PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA. 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.
