PRAXEDES ENCRAVADO, por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Hoje de tarde entra-me pela redacção Praxedes encalmado, suado, com a viseira caída de quem traz grandes preocupações debaixo do couro cabeludo. Chama-me de parte ao vão de uma janela e, pegando-me afectuosamente por um botão do colete, murmurou-me em voz meiga:

― Você é meu amigo?

― Se sou!

― Palavra de honra?

― Palavra…

― Estou nas suas mãos. Só você me pode salvar. Há três dias que ando aflitíssimo da minha vida.

― Oh Praxedezinho, se não é dinheiro…

― Não é. A minha afliçãp é esta: o Quico não faz ideia nenhuma dos factos mais notáveis do reinado de D. Sancho II.

― O Gordo?

― Não. Um que foi rei de Portugal.

― E depois? Que tem isso? Também eu não sei e nem por isso deixo de viver satisfeito.

― Mas a desgraça é que o Quico vai fazer exame.

― Ah! Percebo. Quer que eu ensine ao seu pequeno o que se passou no tempo do tal Sancho.

― Não.

― Então o quê?

― Quero que me arranje um empenho para o lente. Você calcula lá! Há quinze dias que não faço outra coisa senão correr atrás de uma carta de recomendação. Eu já fui ao Caminho de Ferro a casa de um doutor que me disseram que era especialista em doenças de escrever ao professor. Estava fora, Daí fui ao Dafundo a casa de uma senhora viúva , que é muito amiga da mulher do homem. Tornou a casar e está na lua de mel. Disseram-me depois que um vidraceiro na rua da Prata tinha o professor na mão. Era mentira. Aconselharam-me que fosse a Sacavém, onde mora um irmão do lente. Estão de mal. Já escrevi para o Porto e indicaram-me uma corista a quem o tal sujeito não podia recusar nada. Afinal a corista está agora com um cadete. Já pedi bilhetes para quatro senadores, para o director geral da instrução pública, eu sei lá!… De súbito, tive a ideia de procurar um jornalista. Vocês conhecem toda a gente… Poder-se-á arranjar a coisa?

― E ouça-me cá: enquanto você anda nessa lufa-lufa, o que faz o menino Quico?

― Está em casa a desfiar casulos de bichos de seda, de que faz criação todos os anos.

― Ora em vez de estar entretido nesse grave problema, não era melhor que estivesse a estudar o D. Sancho e não era preferível que V. lhe puxasse, de quando em quando, as orelhas em lugar de andar à cata de empenhos para o seu insecto?

― Homem? Tem você razão. Nunca tinha pensado nisso.

7 de Julho de 1913

IN PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA. 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.

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