Castelao (III) – por António Gomes Marques

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(continuação de Castelao II)

Entre 1922 e 1923 publica o diário da sua viagem por França, Bélgica e Alemanha, viagem esta possível graças a uma bolsa concedida pela Junta de Ampliación de Estudios para estudar a arte daqueles países, trabalho este que viria a dar origem ao livro «Diario 1921», publicado em 1977. Em 1925 vê publicado o seu livro de desenhos «Cincoenta homes por dez reás».

Nesta década dos anos 20 do século passado, colabora diariamente com o jornal «Galicia», fundado em 1922 e, a partir de 1926, deixa aquele diário e passa a colaborar primeiro em «Faro de Vigo» e, depois, em «El Pueblo Gallego», não podendo também deixar de se referir as ilustrações e as capas que concebe para diversas publicações.

Colaborador do já referido Seminário de Estudos Galegos desde o seu início, sendo mesmo responsável pela secção de Arte e Literatura, Seminário esse que viria a publicar o seu estudo sobre «As cruces de pedra na Bretaña», em 1930, resultante da sua viagem de estudo à Bretanha no ano anterior, de novo com o apoio da Junta de Ampliación de Estudios, na companhia da esposa e depois da morte do filho Alfonso Xesús, com 13 anos, em 3 de Janeiro de 1928, o que veio agravar o seu estado emocional, já debilitado desde que teve a recaída da cegueira de que tinha padecido e que já referimos, afectando-lhe desta vez o olho direito e parte do esquerdo, obrigando-o a um tratamento muito rigoroso. Estes dois factos tornam-no inactivo por cerca de dois anos. Também com o apoio do Seminário viu publicado «As cruces de pedra na Galiza», em 1936.

Croix de Pennavern, Bretanha
Croix de Pennavern, Bretanha

Ainda na revista «Nós», em colaboração com Fermín Bouza-Brey, publica um estudo sobre «Escudos de Rianxo», idealizando um escudo para a Galiza, com o texto «Denantes mortos que escravos» (Antes mortos que escravos). Castelao reúne 33 escudos diferentes dos quais vai depois escolher-se o modelo para o escudo da Galiza.

A sua actividade política vai continuar e acentuar-se. Com a queda de Primo de Rivera no início de 1930, em redor da Organización Republicana Gallega Autónoma, começa a constituir-se o galeguismo político, participando Castelao, em representação do Partido Galeguista de Pontevedra, na VI Assembleia Nacionalista, vindo depois a ser um dos que assina o «Compromisso de Barrantes», de 25 de Setembro de 1930, compromisso esse que foi rejeitado por uma das figuras importantes da história da Galiza, Vítor José Ricardo Casas Rei, Director de «A Nosa Terra» onde Castelao, como já dissemos, colaborou assiduamente, que foi, por exemplo, um dos promotores do pacto pela Frente Popular e figura incontornável do republicanismo, lutando pela defesa da legalidade republicana em 1936, acabando detido, condenado e depois fuzilado, figura esta que merece ser estudada e apresentada na sua verdadeira dimensão, tarefa essa que cabe ao povo galego. Vítor Casas tinha 36 anos quando foi fuzilado por defender a legalidade da República!

Voltando a Castelao, lembremos que foi candidato independente por Pontevedra às Cortes Constituintes da II República Espanhola, sendo eleito deputado, tendo a Federación Republicana Gallega (FRG) conseguido obter 15 dos 47 assentos conseguidos pelo galegos, o que permitiu a formação de um grupo parlamentar, a que chamaram «Minoría gallega», sendo Castelao um dos que integraram este grupo, o qual vai depois constituir o Partido Galeguista, em 7 de Dezembro de 1931.

Fundação do Partido Galeguista
Fundação do Partido Galeguista

Castelao era membro das «Irmandades da Fala»  – organizações nacionalistas alegas muito activas entre 1916 e 1936, que procuraram que o galego fosse a língua oficial da Galiza, merecedoras de que aqui lhe tivéssemos dispensado algum espaço –, que se dissolveram, integrando o novo partido. Castelao, no que foi acompanhado por Otero Pedrayo, deixou de fazer parte da referida «Minoría gallega».

Demos a palavra ao historiador Pierre Vilar:

“A Ditadura governara e não transformara. A República quis transformar e governou com dificuldade. Pelo menos abordou, a partir dos seus dois primeiros anos, todos os grandes problemas. As Cortes constituintes, eleitas em Maio de 1931, apresentavam uma maioria republicana e socialista muito coerente: uma orientação reformadora parecia assegurada.

  1. 1931-1933. O «biénio» reformador.  À maior parte dos constituintes, intelectuais, juristas e velhos políticos, importavam, em primeiro lugar, os problemas da Constituição, da escola, da Igreja e do Exército, que tinham dominado a história do século XIX.

 

a) Os problemas políticos.

 

A Constituição tomou por modelo a de Weimar, a mais democrática da Europa. A Espanha foi proclamada «República de trabalhadores», o que fez sorrir. O parlamentarismo puro triunfou: Câmara única, Ministério sempre responsável, sufrágio universal abrangendo as mulheres e os operários. (…) Um Tribunal de garantias julgava todas as irregularidades constitucionais. As regiões podiam pedir um «estatuto» de autonomia, mas a palavra «federalismo» não aparecia.” (v. Pierre Vilar, «História de Espanha», págs. 102/3).

 

(continua)

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