(continuação)
A exposição era coletiva, havia quadros, havia esculturas, havia bebida e cavaco. Conseguimos encontrar as telas de Augusto Grácio, achámos-lhes uma acentuada dimensão surrealista. A responsável pela galeria informava-nos que o artista não estaria presente, quando um homem se interpôs.
– Admiro o cinzento do seu cabelo… Qual é a técnica de pintura?
Senhora bonita e elegante, que se mantém imperturbável. Eu fixo o homem com curiosidade. Tem pingos de tinta vermelha no chapéu castanho.
– O senhor também expõe?
– Não: sou fotógrafo.
– Como se chama?
Do nome não percebo mais do que a consonância aristocrata. Antes de eu inquirir qual a ortografia, o que é costume em França, por aqui os apelidos resumirem o mundo, ele poisa a máquina fotográfica – uma Leica que, pelo aspeto, sobreviveu a grandes aventuras – e tira do bolso um papel rasgado. Leio outro nome, um número de telefone.
– Jean-Pierre Léaud… O ator?
– Quer apontar?
Isabelle e eu rimo-nos.
– Se calhar prefere o Depardieu…
E começa a procurar no telemóvel. O chapéu borsalino pouco revela de um rosto moreno. Cinquenta e tal anos. Talvez sessenta. É baixo e, dentro da gabardina, parece magro.
– Onde podemos ver as suas fotografias? Na Internet?
– Não quero nada na Internet… Estão lá todas sem o meu nome!
Tiro o caderno do bolso.
– Escreva o seu nome para eu as procurar numa livraria.
Quando ele mo entrega, reparo que, uma vez mais, não compreendo porém, com o endereço eletrónico, este muito legível, posso contactar o artista. Quase me sentei num expositor de esculturas, o Fotógrafo encostou-se ao meu lado e Isabelle fecha um triângulo para além do qual a multidão bebe, conversa e vê obras de arte. Entretanto já ele nos narrou os primeiros casamentos. Vai casar-se pela quarta vez. Sinto um odor a vinho e urina – estaremos a conversar com um sem-abrigo mitómano? O homem exprime-se todavia num francês culto e elegante, evoca agora Serge Gainsbourg, dandy, alcóolico, provocador, que ele diz ter acompanhado até à morte.
– A partir de sexta-feira retiro-me num convento trapista: preciso de gravar as minhas memórias. Tenho o contrato assinado, almocei ainda hoje com o editor, que não cessa de reclamar o texto…
(Continua.)
