A HISTÓRIA PODE DAR ALGUMA AJUDA -XIII – por Carlos Leça da Veiga

Não é leite derramado; é uma força que obriga a pensar!

Quando uma maioria parlamentar, com o beneplácito da mais alta magistratura nacional, aceita ser manobrada por um poder político alienígena, a História, cujos ensinamentos nunca são demais, obriga a fazer recordar que há muito património nacional cuja invocação – já tão em desuso – talvez sirva para poder “avisar a malta” e, sobretudo, para conseguir ajudar a fazer-se alto ao caos político e à miséria social que o europeísmo, o federal de sobremaneira, perfilha, defende, incentiva e, não é demasiado dizê-lo, já impõe.

Em 1415, por uma multiplicidade de razões que, qualquer delas, na sucessão dos anos nunca conseguiu obter muitos créditos mas que, nem por isso, deixou de alcançar os seus desideratos, a dinastia de Avis, pela força das armas, conquistou para Portugal a cidade de Ceuta e, assim, deu o primeiro passo no sentido de inaugurar a expansão colonial portuguesa.

Com este modo de proceder-se que, hoje em dia, por esse mundo fora, numa total incorrecção, inda há quem ouse usar, começou a construir-se o império colonial português com cujas consequências, boas e más, quer se queira quer não, a generalidade da Humanidade – sorte dela – sofreu um ror de inflexões. Somem-se todos os prós e todos os contras dessa saga extraordinária e, por fim, a justiça mandará dizer terem sido dados imensos passos cujo sentido e significado, observado o contexto mundial do seu tempo, não parece merecerem acirrar-se-lhes uma qualquer condenação, dir-se-á mesmo, bem pelo contrário.

Se vários acontecimentos e desígnios podem não ter sido os mais desejáveis, a seu par, foram cometidos tantos outros que, sem favor, só são dignos do maior louvor. Se entrementes foram percorridos caminhos tortuosos e, quantas vezes, muito mais que quanto bastasse quem, por esse mundo fora – tantos foram os expansionismos – não os terá palmilhado e, ao arrepio de feliz evolução de Portugal, está à vista, ainda o faz. Espera-se que alguém, um impoluto, possa dar um passo em frente!

Em 1434, dezanove anos após aquela primeira lança em África, coube aos portugueses, sob o comando de Gil Eanes, cometerem a proeza, a seu tempo duma audácia extraordinária, de terem ultrapassado o Cabo Bojador e, então – por ser a verdade mais inteira – ter sido dada por finda a Idade Média e, de facto, aberto as portas muito promissoras da Idade Moderna.

Toda a Humanidade, fosse qual fosse o mais remoto dos escaninhos por onde pudesse ter poiso, acabaria por beneficiar com a descoberta de que a Terra não acabava ali e que, para lá do Bojador havia vida, não havia monstros, um mar que matava, mistérios, horrores e lendas, antes sim, um espaço aberto para que, com arte e muito saber, pudesse caminhar-se. Em 1434, com a passagem do Cabo Bojador, milhares de anos do velhíssimo historial humano morreram às mãos sábias dalguns portugueses cujas memórias, com toda a impropriedade – maldito o europeísmo imperante – deixaram de receber a exaltação mais devida e mais constante. No mundo do seu tempo, isso é um facto incontroverso, foram os maiores e, de verdade, os mais inigualáveis.

A Idade Média, ao invés de quanto a historiografia indica, na realidade, acabou nesta data de 1434 e não naqueloutra de 1453, em que aconteceu a queda, sempre badalada e um tanto desmesurada, da cidade de Constantinopla.

Com a passagem do Bojador toda a Humanidade, directa ou indirectamente, acabou por alcançar benefícios extraordinários. Com a queda de Constantinopla, ao que consta, nada de útil para os Humanos mas, apenas, bastas arrelias nas hostes fradescas, anjos na procura incansável do seu sexo, um novo arrumo nas fileiras da religiosidade e, inaceitável, turcos otomanos instalados onde jamais deviam ter posto o pé.

De 1434 para 1922, sem que seja possível, por ser demasiado incorrecto, não querer respeitar e assinalar os faustos notabilíssimos da evolução histórica de Portugal, parece imprescindível – hoje como nunca – dar o maior dos realces aqueles acontecimentos nacionais com cujas consequências constantes, inequívocas, imorredouras e extremamente valiosas toda a Humanidade, para todo o sempre, tem de continuar a venerar.

Sem, jamais, poder esquecer-se a saga heróica das Descobertas, de que a passagem do Bojador foi acto determinante e, também, sem aceitar fugir a deixar-se expresso o maior apreço por uma miríade dos eventos que enobreceram a nossa História nacional, há um acontecimento com a data de 30 de Março de 1922 que, tal como a passagem do Cabo do Bojador, revolucionou, e de que maneira, todo o viver da Humanidade e, mau grado alguns atropelos, que não obra dos portugueses, proporcionou-lhe – continua a proporcionar-lhe – um progresso inestimável e imparável.

Naquele 30 de Março de há noventa e um anos, Carlos Gago Coutinho e Artur Sacadura Cabral, um e outro, Oficiais da Armada, deram início à Primeira Travessia Aérea do Atlântico e, depois de muitas vicissitudes, num tempo de voo de sessenta e duas horas e vinte e seis minutos, ao percorrerem, em etapas sucessivas, 8383 quilómetros de navegação aérea e esgotarem três aviões, estabeleceram a primeira ligação aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Deste feito heróico mas, sobretudo, deste fruto autêntico da mais aprimorada ciência, toda a Humanidade, todos os dias, a toda a hora, isso é inexorável, tem de sentir presença e influência.,.

O nosso Almirante Carlos Gago Coutinho, Homem sábio e um cientista mundial de primeira plana, para além de muitas outras notabilíssimas produções científicas, introduziu a instrumentação científica na navegação aérea ao inventar uma modificação fundamental no já velho sextante. Foi mais uma Descoberta da Ciência portuguesa que, lado a lado, com a perícia profissional dum Oficial da Aviação Naval de elevadíssima categoria, como foi o Comandante Sacadura Cabral, permitiu, mais outra vez, na História da Humanidade, dar-se um passo gigantesco.

Gago Coutinho – sabe muito bem poder repetir-se – fez Historia e fê-la com um quilate científico de alto valor. Desta maneira, não pode fugir-se a ter de dizer que alterou radicalmente a História do mundo.

Os portugueses têm sabido venerar, como devem, as figuras destes nossos heróis de 1434 e de 1922?

 A História que, sempre, é capaz dar alguma ajuda precisa, também, que os seus destinatários – no caso, todos nós portugueses – saibam e queiram não esquecer que, por igual, devem dar-lhe o apoio mais merecido.

Em Lisboa, o Aeroporto da Portela, não deveria designar-se, por ser duma correcção ímpar, como Aeroporto Internacional do Almirante Gago Coutinho?

E no Porto, nas Pedras Rubras, não devia figurar a designação de Aeroporto Internacional do Comandante Sacadura Cabral?

Nas suas chegadas ao nosso País, milhares e milhares de visitantes deviam ter a possibilidade de ver, em cada um dos dois grandes aeroportos, algo de monumental que seja alusivo ao heroísmo dessa extraordinária façanha que foi a Primeira Travessia Aérea do Atlântico.

3 Comments

  1. Sim ao Aeroporto Internacional do Almirante Gago Coutinho (Lisboa)!
    Sim ao Aeroporto Internacional do Comandante Sacadura Cabral (Porto)!

    E pra que servem governo, deputados e demais autoridades?
    E a Sociedade de Geografia dorme em serviço?

  2. Eu aceitaria de bom grado o nome do almirante Gago Coutinho, associado ao Comandante Sacadura Cabral para o aeroporto internacional de Lisboa….
    QUANTO ao aeroporto de Pedras Rubras deveria chamar -se Aeroporto Humberto Delgado, pois foi o homem da Força Aérea que enfrentou o ditador Salazar na campanha presidencial de 1958 e, a sua campanha rumo à vitória teve um impulso decisivo nesta mui nobre e leal cidade do Porto.

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