CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 41 – por José Brandão

Na grade reuniam-se, porém, aos costumes africanos, os costumes franceses. O requinte devoto adquirira entre nós um carácter mais sensual. A imagem loura, feminina, infantil do pastor bucólico, S. Francisco de Sales, o filho dos colóquios doces das Filoteias e das Chantal, o camarada do sire de Urfé, amável autor da Astrea e ex-amante de Margarida, refugiada em Sabóia, presidia em espírito no locutório de Belém. O padre Teodoro, extático, com os braços cruzados sobre o peito, os olhos em alvo, mudo, ou conciso em voz ténue, assistia às visitas. Soror Teresa era forte em aritmética, a madre especial em gramática, soror Francisca muito boa moralista e excelente costureira. O padre Teodoro, esse melífluo autor da Formosura de Deus, do Pastor Evangélico, do Feliz Independente, da Lisboa Destruída e outros poemas de maçadora memória, criava ali a sua melhor obra, um viveiro de prodígios; e a sala da grade, deliciosamente fresca, perfumada de jasmins, com uma luz tépida, era ao mesmo tempo a dourada gaiola das salésias e das pombas, dos papagaios e canários que voejavam soltos, chilreando dos seus poleiros para o seio das meigas freiras. E nesta deliciosa mansão as visitas comiam doces, ouvindo os discursos seráficos do confessor…

Quando algum primo tinha sérios e secretos assuntos de família a comunicar, o confessor, a madre retiravam-se prudentemente, por discrição. Diz-se que muito se namorava nas grades, e que o amor das freiras era o mais apetecido e o mais picante. A severidade do hábito, o composto da figura emoldurada na touca irritavam. Para os capelães e confessores, as freiras eram uma tentação constante, vivendo com elas no convento, no confessionário. O ter freira não lhes ultrajava a gravidade. A arte de namorar, cultivada por todas as classes, tinha prescrições especiais nos conventos, por causa dos vestidos de feitio diverso, e dos encontros das grades. Mostrar o sapato com pejo, por acaso, mas de modo a enlouquecer; voltar a cara piedosamente, ao ouvir as confissões galantes; ter os trejeitos melindrosos; indicar desafectadamente as formas, eram, entre outras, as regras do amor devoto. Preceito universal se considerava fugir dos frades franciscanos, vadios em moços, zelosos em velhos. A madre, confidente discreta, acudia, nalgum momento de crise, a chamar a esquecida que, por notícias de família — questões mundanas, indignas das filhas do Senhor! — deixava o coro, as matinas ou a novena. Já na igreja os fidalgos, de joelhos, curvados, batiam nos peitos; já os padres estavam no altar; já os músicos entoavam as contradanças e minuetes de Haydn e Jomelli com que o Eterno era invocado. — Adeus!… Um beijo furtivo, um doce rebuçado, ficavam como penhor das futuras notícias que, dali por dias, o primo levaria.

Nem todos os padres eram seráficos: além de os haver plebeus e grosseirões, havia-os livres-pensadores, que não poupavam sarcasmos à Igreja, e tinham publicamente mulheres e filhos. Estas contradições extravagantes eram, de resto, comuns em todas as classes.

A fidalguia apresentava também uma combinação de brutalidade soez e de requinte precioso, que por toda a parte constitui o traço particular próprio da sociedade portuguesa no fim do XVIII século, e ainda na primeira metade do actual.

O maior fidalgo da corte era, no tempo de D. Maria I, o marquês de Marialva. Um pátio precedia a entrada do palácio, e esse pátio parecia uma casa de posta: as seges de um lado, as cavalariças de outro, montes de estrume pelos cantos, e um rebanho de porcos, pulando e grunhindo, por entre os monturos. Nos palácios do campo, atravessava-se o pátio sobre um tapete espesso de mato, para ali deitado a apodrecer, para estrume. As estrebarias, por baixo das salas, davam a toda a casa um cheiro imundo, e por toda ela se ouviam as patadas e o relincho dos cavalos. O nome de Marialva ficou célebre na equitação.

A plebe dos criados e parasitas formigava no pátio, o marquês distribuía trezentas rações de arroz. A turba dos cortesãos chegava de tarde para passar a noite. Na sociedade dos fidalgos não havia demasiada escolha, porque a grossaria nos costumes não deixava excluir os plebeus. A mistura nas classes correspondia ao disparate dos usos, e o nome que melhor define o conjunto de coisas e pessoas é o de grotesco.

Na varanda do palácio de Belém, sobre o rio, acudiam a tomar o fresco e a fazer companhia ao velho marquês personagens plebeus, seus parasitas: era o frade, volumoso e comilão, de facécias de taberna; era o boticário esguio, vestido de negro; o anão das senhoras, fazendo esgares, ou chiando numa frauta de cana; o aparatoso brigadeiro, no seu fardamento já velho, fanfarrão, impudente, governador licenciado dalguma fortaleza distante; era um toureiro célebre, ou picador famoso; era, finalmente, o orate improvisador, disparando a torto e a direito esguichos de versos, na sua fúria repentista.

Enquanto na varanda a sociedade contava anedotas grosseiras e partidas de toureio, de caça e de comezainas, do fundo da estrebaria vinham os sons de viola e canto: um fadinho batido com os arneiros pelo filho segundo, mendigo em casa, embaraço constante, madraço e mariola — quando não era frade, ou não o tinham mandado para o Ultramar num cavalinho de pau. Por outro lado as senhoras, depois de se divertirem com as criadas, cochichando para passar a tarde calmosa no jardim, catando a cabeça, recolhiam-se, porque já chegara o querido bispo do Algarve: um colosso de tamanho e de cortesia, armado de um par de famosos óculos verdes. Sentados todos no chão, encruzados, as senhoras à roda, o bispo no meio, rezavam o terço e ladainhas; depois vinham os brincos e pulhas, os jogos de prendas, as venetas, em que o prelado era célebre. Todas as senhoras o adoravam, e por isso o feliz era sempre regalado com os doces mais primorosos.

À hora da ceia os criados gravemente aprumados, com tochas acesas, alumiavam o corredor da sala perfumada com braseiros e caçoilas. Comiam-se então os guisados doces, gordurosos e pesados, cuja digestão laboriosa esgotava a máxima parte das forças. Por isso, fora da mesa, eram todos grotescos, e, não é injúria dizê-lo, idiotas.

O marquês tinha a mania dos relógios: só no quarto de cama havia dez que davam horas e quartos, com assobios, cucos, minuetes e procissões. Toda a casa tresandava a cânfora, para defender dos parasitas as curiosidades: obras de conchas e jaspe, marfins, louças, cruzes e santos; toda a casa fedia a alfazema, que se queimava a toda a hora, para varrer os maus cheiros das alcovas que serviam para tudo. O marquês babava-se, e como era entusiasta de D. João V, celebrava agora a morte de Pombal, falando com volubilidade e calor, no meio de uma chuva de perdigotos.

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