PARIS NÃO É CERTAMENTE – 3 -por Manuela Degerinee

(Conclusão)

A conversa diverte-nos, por isso nos detemos: eu mais curiosa, Isabelle mais misteriosa.

– E estas meninas?

Recuo à anterior conversa.

– Mark Twain ditava as memórias a uma secretária, o ritmo de anotação dela correspondia ao ritmo mental dele…

– Eu passo a gravação a um especialista: quem escreve é ele.

Algumas editoras pagam a escritores para redigirem livros que serão editados com nomes de celebridades: atores, cantores, políticos… Estes autores são, na gíria editorial, “les nègres”. Digamos: os escravos. (Uma profissão que, mais de uma vez, pensei em seguir.)

– Qual é o nome dele?

Os “escravos” são obrigados – por contrato – a nunca revelarem que escreveram as tais obras; mas aqui é o memorialista quem revela a identidade do escritor.

– Eu chamo-lhe “Y a Matière” (Há Matéria). É o que ele repete quando nos encontramos. Trata-se de narrar a infância, a adolescência, os encontros, a prisão… Por fraude. Tenho vivido muito… Vocês fazem o quê?

– A minha amiga é universitária.

– Professora de português…

E eis que o Fotógrafo nos fala num português correto. Quase sem sotaque.

– A minha primeira mulher era brasileira. Judia… Os brasileiros contam muitas anedotas com portugueses.

– Todas muito finas.

– Você também é professora?

– Sou escritora.

– Conheço de cor as obras de Proust e Céline: os maiores.

Em Paris ninguém diz que está a ler mas a “reler” Em Busca do Tempo Perdido. Que no entanto poucos leram até ao fim.

– De cor e salteadas?

Longtemps je me suis couché de bonne heure… É o incipit. Posso continuar, se quiser ouvir. Eh… Diga lá o nome da última governanta de Marcel Proust.

Não, não é Françoise; a última esteve oito anos ao serviço do escritor. É a das entrevistas. E a do poema: “Grande, fina, bela e magra”…

– Celeste?

– Celeste Albaret!

– Eu também gosto dos romances de Patrick Modiano…

– Estive em casa dele há pouco tempo. Quer o número? Tenho-o aqui…

No dia seguinte confirmo o que já suspeitara: o endereço eletrónico que o Fotógrafo escreveu no meu caderno não existe. Restam-me ainda a morada e o número de telefone para investigar… Mas agora hesito. Receio vir a descobrir que aquele homem saiu com a Leica e o borsalino não da cidade de Paris… mas da neve.

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