EDITORIAL: ALEXANDRE HERCULANO

Diário de Bordo - II

 

Faz hoje 203 anos que nasceu Alexandre Herculano de Carvalho Araújo. Recordar este homem é um dever, mesmo por quem não o considere um escritor extraordinário, ou que lhe atribui, ao longo da sua vida, opções políticas discutíveis. Mas o facto é que ele deu contributos enormes para a cultura portuguesa, desde a historiografia científica, com a sua História de Portugal, a primeira a ser elaborada com o necessário espírito crítico, a História da Inquisição em  Portugal e a organização do Portugaliae Monumenta Historica, até ao lançamento do romantismo em Portugal, na poesia e na prosa.

Na política Herculano defendeu a democracia representativa, tendo jurado fidelidade à Carta Constitucional e tomado posição contra o setembrismo, em 1836, o que lhe vale perder o seu posto de bibliotecário no Porto. Foi eleito deputado depois do afastamento de Passos Manuel, mas, quando desenganado pelos excessos de Costa Cabral, não hesitou em afastar-se novamente. Longe dos lugares cimeiros da política, mas sempre activo e empenhado, após a Regeneração, apoia  o Duque de Saldanha, colaborando na elaboração do plano do primeiro governo resultante daquele movimento revolucionário, mas recusando sempre ser ministro, afirmando não ter queda para governar. Entretanto, expõe as suas ideias sobre temas como o casamento civil, o ensino feminino, a concordata e outros temas correlativos, o que lhe acarreta ser  fortemente atacado nos púlpitos. O ter sido o primeiro a reduzir a proporções terrenas a batalha de Ourique, não considerando a hipotética aparição de Cristo a D. Afonso Henriques, é-lhe fortemente exprobado, como refere Oliveira Martins, citado por Agostinho de Campos, na introdução à antologia que este organizou em 1919.

Herculano não apoiou  a política fontista, que achava excessivamente centrada no progresso material. Depois afasta-se da Academia Real das Ciências, desgostoso com os critérios seguidos nas nomeações governamentais, que inclusive lhe criaram dificuldades no prosseguimento dos seus estudos. A morte de D. Pedro V, seu antigo pupilo, consolida os seus intuitos de afastamento, e de auto-exílio. Contudo, mesmo na quinta de Vale de Lobos, continuou a tomar posição, como com o caso das Conferências do Casino.

Os seus enormes méritos, o carácter inovador dos seus estudos, granjearam-lhe o respeito de muitos, mas não impediram  os ataques dos que não quiseram reconhecer a sua sinceridade e a sua grandeza, e não suportavam a sua independência. A maneira digna como sempre procurou enfrentar esses ataques são um exemplo para os políticos de hoje, a cuja maioria falta a espinha dorsal capaz de os enfrentar.

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