Castelao (V) – por António Gomes Marques

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(continuação de Castelao IV)

Nos chamados álbuns de guerra  – Galicia mártir (1937), Atila en Galicia (1937) e Milicianos (1938, em Nova Iorque)-, Castelao mostra claramente o seu antifascismo e presta homenagem aos heróis e aos mártires em luta pela liberdade. Lembremos que, para além de perder o seu grande amigo Alexandre Bóveda e outros companheiros de luta pela autonomia da Galiza, perdeu também os seus primos direitos José Losada Castelao e Manuel Rodríguez Castelao, no facto trágico que ficou conhecido como o «asalto do bou Eva», ocorrido em 23 de Abril de 1937, no qual, para além dos primos de Castelao, membros do Partido Galeguista, morreram também os socialistas Manuel Martínez Moroño, José Rodríguez Lorenzo e Fernando Rodríguez Lorenzo, e os comunistas Luís Álvarez González, Camilo Campos Méndez e, os recentemente casados, Carmen Miguel Agra e Anxo Nogueira Nogueira.

O barco em que pretendiam fugir para França, foi assaltado pelos falangistas, mas os tripulantes decidiram, colectivamente, pôr fim à própria vida para não se entregarem aos assaltantes. Este suicídio colectivo constituiu um facto único durante a Guerra Civil de Espanha, sempre omitido pelo regime franquista e, inclusivamente, nunca dado a conhecer durante o chamado período de transição para o regime democrático.

Em 1938, por decisão do Ministro de Estado, Julio Álvarez del Vavo, Castelao realiza uma viagem à União Soviética, integrado numa comissão cultural da República  – de 20 de Abril a 20 de Maio, com passagem por Leninegrado, hoje São Petersburgo, Moscovo, Ucrânia Ocidental e Arzebeijão, assistindo, nomeadamente, a uma exposição sobre o martírio da Galiza, com obras suas.

Regressado da União Soviética, o Governo da República envia-o para os EUA, com a incumbência de dirigir uma campanha de ajuda à República, conseguindo juntar cerca de 50.000 dólares no circuito por algumas das principais cidades da América do Norte, para o que contou com a colaboração de algumas associações, como Sociedades Hispánicas Confederadas, Fronte Popular Antifascista Galega e Casa da Galicia – Unidad Galega.

Em Novembro estava em Cuba, perseguindo o mesmo objectivo e, em Fevereiro de 1939, regressa aos EUA com o intuito, conseguido, de obter fundos para os refugiados que conseguiam sair de Espanha. Permanece em Nova Iorque durante cerca de um ano, apesar de nunca se ter adaptado à vida da cidade e do país. Entretanto, em Setembro de 1939, foi nomeado Chefe do Partido Galeguista.

Nesta cidade americana, enquanto aguardava a autorização de residência na Argentina, acabou por se dedicar à escrita, escrevendo ali boa parte de «Sempre em Galiza», e completa a sua única obra teatral, «Os vellos non deben de namorarse», com algumas alterações ao texto que havia iniciado na Galiza em 1931, assim como aproveita esta estada para regressar aos seus desenhos, como «Debuxos de negros» comprova, desenhos estes iniciados em Cuba.

Em Abril de 1940 recebe a tão desejada autorização de residência, partindo para a Argentina, Buenos Aires, em Julho do mesmo ano. Quando chegou a esta cidade, sentiu que o consideravam um mito, o que lhe desagradou profundamente: «Comparavam-me a Curros e Rosalía, e se calhar por isso mesmo não concebiam que estivesse vivo», escreveu ele, dirigindo-se aos Galegos, em «Verbas de Chumbo» (Outubro, 1941). Disse também neste texto: «Eu estou vivo e livre, e sou ainda um galego quimicamente puro.» (v. Obras de Castelao-3)

Continua a trabalhar no seu livro «Sempre Galiza», que será por fim editado em 1944, e também prepara a edição de «As cruces de pedra na Galiza», mas a sua grande batalha, sem desprezar a ilustração de livros para crianças, é sempre em prol da Galiza, participando em conferências, discursando em vários actos, nomeadamente, nos aniversários do assassinato de Alexandre Bóveda e do Estatuto da Galiza.

Por fim, em Agosto de 1941, acontece a estreia da sua peça «Os vellos non deben de namorarse», sendo ele o autor da decoração, dos figurinos e das máscaras, continuando a viver das ilustrações que vai fazendo para vários livros.

Em 1944 constitui-se o Consello de Galiza, o qual escolhe Castelao como seu Presidente. Na mesma altura, retoma-se o Pacto Galeuzca, na esperança de se ver restabelecida a República em Espanha, dada a vitória das forças aliadas na II Grande Guerra Mundial já ser tida como certa, pacto aquele que se construía na expectativa de obter a soberania por parte da Galiza, da Catalunha e do País Basco, intenção esta que já vinha do final do século XIX. Neste retomar do Pacto Galeuzca, Castelao tem também uma grande participação.

Em 24 de Janeiro de 1945 morre a sua mãe, em Rianxo. Neste ano, funda a revista «Galeuzca» com os bascos e os catalães.

Finda a II Guerra Mundial, Simone de Beauvoir visitou Espanha e Portugal e, no segundo volume das suas Memórias, fala da explosão de três bombas que tinham matado dois falangistas, «como represálias, Franco fuzilara, oficialmente, treze comunistas; muitos outros eram abatidos sem ruído, e torturavam nas prisões. Que esperavam os americanos para expulsar Franco? perguntava-me. Mas não duvidava de que o decidissem fazer muito em breve.» («Sob o Signo da História», pág. 33). Estas dúvidas de Simone de Beauvoir depressa se deciparam e, em 1946, já também os democratas ibéricos tinham perdido a esperança no restabelecimento da democracia em Portugal e Espanha.

Os republicanos espanhóis no exílio designavam as instituições que no exterior reivindicavam a representação da legalidade da Constituição de 1931, representação essa que se manteve de 1939 a 1977, localizando a sede do governo no exílio, após a vitória dos fascistas de Franco, na Cidade do México, mudando-a para Paris, França, em 8 de Fevereiro de 1946. Mas a divisão entre os republicanos era profunda, e mais profunda se tornaria com a mudança provocada com a crise de Danzig, em 28 de Abril de 1939, ou seja, menos de um mês após a vitória dos franquistas (1 de Abril de 1939), quando no Reichtag Hitler discursa exigindo a devolução desta cidade, seguindo-se o Pacto Germano-Soviético. Passemos a palavra a Martin Gilbert: “Enquanto Arthur Owens levava a cabo a sua missão na Holanda, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Joachim von Ribbentrop, ia a caminho de Moscovo. Aí, em dois dias de negociações, ele aceitou, em nome da Alemanha, a zona da Polónia a leste do rio Vístula ¾ área que compreendia as regiões mais povoadas e industrializadas da Polónia ¾ ao mesmo tempo que reconhecia a soberania da União Soviética na Polónia do Leste e ¾ ponto que constituiu uma exigência inesperada dos soviéticos ¾ sobre a Lituânia. O tratado que dava corpo a esta nova divisão da Polónia foi assinado às cinco da manhã de 29 de Setembro. Foi denominado, sem fazer referência aos Estados lituano e polaco que assim acabavam de desaparecer, «Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético». Foi o próprio Estaline quem desenhou a nova fronteira no mapa, que em seguida assinou. Como contrapartida pelo facto de Lvov, com os seus poços de petróleo, ter ficado do lado soviético da linha divisória, Estaline comprometeu-se a fornecer à Alemanha 300 000 toneladas de petróleo por ano.” (A Segunda Guerra Mundial, pág. 29). Se as divisões entre as forças republicanas durante a guerra civil foram permanentes, como iria agora explicar o Partido Comunista Espanhol o pacto de Estaline com Hitler? Como aceitar que o principal aliado de Franco, cujo auxílio militar foi fundamental para este derrotar a República, fosse agora aliado de Estaline?

A unidade dos republicanos era mais aparente do que real, como a derrota veio a confirmar até no destino dado aos refugiados. Milhares foram para França e outros para a África do Norte. Com o início da Segunda Guerra Mundial e com a derrota de França infligida pelos alemães, o governo Pétain acaba por aceitar entregar à Alemanha muitos milhares de espanhóis, entre eles o socialista Largo Caballero, que acabarão por conhecer os «campos da morte». “Outros, também muito numerosos, particularmente no sudoeste, participarão na resistência dos «maquisards» franceses.

Os Estados Unidos, cuja população na sua maioria condenou o franquismo, aceitam apenas um pequeno contingente de refugiados.

Por seu lado, a U. R. S. S. reserva aos seus partidários espanhóis uma lamentável decepção. Certamente, o governo russo aceita receber grande número, mas, se oferece a certos dirigentes do P. C. Espanhol condições de vida privilegiadas, outros, colocados em novas condições de vida, num país estrangeiro pela língua e pelo espírito, encontrarão grandes dificuldades. Não somente não encontram na Rússia de 39 o paraíso prometido pelos seus dirigentes, como são muitas vezes dispersos, isolados, colocados em condições de trabalho tornadas ainda mais penosas pelo clima, difícil de suportar pelos mediterrânicos. Os testemunhos que possuímos sobre a sua sorte podem ser suspeitos de parcialidade, pois emanam de antigos comunistas que abandonaram o partido; (…)

Com o exílio, inicia-se a era das controvérsias. Na verdade, há muito tempo que os partidos republicanos não procuram esconder os seus desacordos. Pelo menos, fizeram por aparentar, enquanto durou a guerra, crer na unidade num combate contra um adversário comum, o franquismo. Com a derrota, este elo desapareceu. E, pelo contrário, políticos e militares encontram-se face ao desastre que eles têm de explicar. A hora é de justificações. A censura e o cuidado de impedir o adversário de explorar as dissenções no campo republicano dissimularam ao grande público muitas divergências; mas a derrota faz desaparecer escrúpulos desta ordem e as discussões tornam-se ásperas entre os aliados da véspera no próprio interior dos partidos, que conhecem na emigração as divisões mais ou menos profundas, mais ou menos duráveis.

As zangas entre emigrados são sempre penosas; pelo menos aqui explicam-se pela persistência das ilusões sobre as «democracias» entre a maioria dos dirigentes políticos no exílio, e a esperança alimentada durante anos de fazer desmoronar do exterior o regime de Franco. Bem entendido, nem a actividade política dos «governos no exílio», nem mesmo as guerrilhas que se mantêm ou aparecem ainda vários anos depois do fim da guerra civil justificam por si só a confiança no «futuro da emigração»; mas todos sabem que terminada a guerra mundial as potências ocidentais podem, se assim o desejarem, derrubar Franco, para quem a vitória militar não foi senão o começo de dificuldades económicas e políticas sérias…” (A Revolução e a Guerra de Espanha, págs 563/5).

A desconfiança em relação aos comunistas da União Soviética só seria atenuada com a invasão da URSS pelas tropas alemãs, iniciada a 22 de Junho de 1941, fazendo renascer as esperanças dos republicanos na vitória dos aliados, a qual, pensavam, seria a derrota de Franco.

A esperança nos aliados em fazerem desmoronar o regime fascista de Franco sabemos no que deu. Franco continuou a assassinar, em processos sumários, milhares de oposicionistas, sobretudo entre 1936 e 1945. A resposta de alguns dos aliados foi clara: em 27 de Fevereiro de 1939 a França e a Grã-Bretanha reconhecem o governo de Francisco Franco na Espanha; em 1953, Franco inicia relações diplomáticas com os EUA, o que levou também à instalação de bases americanas em território espanhol, e, dois anos depois, vê o seu regime reconhecido pela Organização das Nações Unidas.

(continua)

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