CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 42 – por José Brandão

Amava os saraus; e um sarau é a ocasião de ver de perto os homens e escutar as suas opiniões, as suas ideias. Estava o esperançoso conde de Vila Nova, depois marquês de Abrantes, que tinha uma paixão: acompanhar o Viático. De dia, de noite, escutava em permanência, trazendo sempre o criado com a capa encarnada e a campainha de prata; e como ouviu tocar os sinos, foi correndo aos pulinhos, sem dizer adeus, envergando a opa. O herdeiro de Angeja, doido pela janela, de ninguém fazia caso, e pregado contra uma varanda, via de noite a estrada empoeirada, depois de ter observado o dia inteiro a sua rua. O conde de S. Lourenço, que viera com ambos, era asmático, portuguêsmente obeso, com duas barbas e dois bobos para o distraírem às noites, um bocado, antes do terço; e deixava, por toda a parte onde passava, um rasto de espirros e uma esteira desse rapé tão adorado que já no colo se dava às crianças.

Os peraltas e as franças ou sécias falavam agitadamente, com grande mobilidade, agudeza e repentes, em coisas preciosas. Esta era Sol-entre-Nuvens; os olhos doutra Figas-de-Cupido, por serem pretos, Ciúmes-da-Vista, os azuis, Traições-à-Beata os pardos; os pés chamavam-se Onças-de-Neve, as mãos Jasmins-de-Carne. As mães sisudas eram Vénus-Maduras. As meninas, polvilhadas, mosqueadas de sinais, meneavam os leques, mordendo os beiços para encurtar a boca, ajustando o broche para mostrar as mãos e os anéis. Os sinais formavam uma ciência: o da testa era majestoso, o das fontes discreto, apaixonado o do canto do olho, atrevido o do nariz, o da face galante, o dos lábios garrido, o da orelha tentador, o da barba provocante, e louqinho o da asa do nariz. Os sinais traduziam, assim, todo o requinte dos sentimentos amorosos; ao passo que os penteados, em piras, estrelas, cestos, polvilhados de amido ou diamante, com laços, flores, fios de pérolas e colchetes, fitas, plumas, e belezas ornando a testa ou as fontes, acusavam a extravagância pretensiosa e de mau-gosto, do pensamento, da literatura e da moda, em uma sociedade em decomposição podre.

O estóico briche do marquês de Pombal estava condenado — só ressuscitou em 1820 — e o faceira, vestido de veludo e seda, camisa de holanda, chapéu de plumas com presilha e botão de diamantes, sapatos afivelados, cabelos frisados a ferro e empoados, cheio de rendas e presunção, traduzia na figura o tolo requinte de uma sociedade ignara.

Essas importações francesas adquiriram na música uma expressão nacional. Enquanto à sociedade de Luis XV bastava o requinte, o português sensual e grosseiro, amavioso de feitio antigo, juntava-lhe a brutalidade e a ternura. A modinha brasileira era o encanto doce de uma sociedade licenciosa. Havia mulatos célebres, autênticos, aplaudidos nos salões por darem ao lundum um acento libidinoso como ninguém: era uma feiticeira melodia sibarita, em lânguidos compassos entrecortados, como quando falta o fôlego, numa embriaguez de sensualidade voluptuosa.

Não esquecia o Policarpo, castrado da capela da rainha, que cantava ao cravo, acompanhado por algum frade, organista no seu convento, e mestre de música nas casas fidalgas; não faltava a tocata do saltério e a harpa hebreia pelos dois anões, também célebres na época. Mas o lundum, acompanhado à guitarra, ensandecia as meninas.

Depois do lundum, a velha marquesa, alta, com o rosário, de pérolas e topázios enrolado no pulso, a cruz de brilhantes pendente, dizia, lembrando-se de outros tempos: «Lá vai!» Era um mote, que os peraltas orates glosavam. E as meninas, derretidas, aplaudiam com afectação: belo! sublime! precioso!

Porém, as pessoas graves, os desembargadores e bispos, os monsenhores da Patriarcal e os ministros e padres-mestres das Ordens ocupavam-se de gamão ou voltarete, conversando sabiamente das coisas do tempo. O tema obrigatório era a apoteose do piedoso D. João V, a condenação de Pombal, que se dizia assim: «o Sebastião José», sentindo-se respeitosamente a fraqueza do rei defunto em se ter deixado governar por tal forma. Aplaudia-se a insistência dos Távoras para obterem a reabilitação, censurando-se os escrúpulos da rainha, que não queria ofender a memória do pai. Lamentavam-se os pobres jesuítas exilados, e, a propósito, o desembargador Sampaio tirou do bolso e leu a carta do irmão que escrevia de Urbania: «Já tenho dito 81 missas das 112 que encomendou, e espero carta sua para saber se posso meter algumas das que vêm oferecer, e me servia para as despesas ordinárias; porque estar 112 dias sem receber dinheiro algum de missas, vivendo nós pobremente, dá seu incómodo; acrescendo mais que esta gente, persuadindo-se que nós seremos aqui de pouca duração, querem agora cumprir todos os seus legados, enquanto têm aqui tanto sacerdote: de facto nos vieram agora 950 missas da esmola de 100 réis cada uma».

Ouvida a carta e lamentada a penúria do padre, todos concordaram em que o desembargador devia consentir que o irmão fosse vendendo as suas missas, a tostão, aos de Urbania, para ir comendo.

Daí começaram as conversas ponderosas sobre a sorte das vítimas do Sebastião José; e por entre as graves dissertações políticas, em que se discutiam os empenhos capazes de mover fulano ou sicrano, vinham incidentemente os casos mais notáveis do dia. Este visitara o Lausperene em S. Roque; aquele fora na véspera com os filhos, as meninas à Conceição, os rapazes aos Arrábidos: eram quem livrava de bexigas. Um desembargador possuía, moída em pó, uma pérola da rainha defunta; misturada em água, curava as quartãs. Por mãos do outro correra o processo de uma mulher formosa que comia crianças: tomava-as como ama, porque tinha abundância de leite, e os meninos desapareciam: estava agora na Inquisição, depois de ter devorado mais de vinte.

Este caso fez sensação: trocaram-se perguntas, deram-se explicações, e a propósito dele, não se sabe como, levantou-se uma questão de teologia e de história. O prior de S. Julião ponderava que fora Henrique VIII em pessoa quem fizera saltar os miolos a S. Tomás de Cantuária; e o arcebispo de Tessalonica afirmava, com autoridade, que Lutero era sem dúvida alguma a besta designada no Apocalipse.

Passando à religião, acorreram anedotas freiráticas, e voltou-se a fazer apoteose do senhor rei D. João V. Falou-se do milagre do Senhor dos Passos da Graça: um judeu que lhe dera uma dentada na perna, ficando os dentes cravados no pau, como se fosse carne. Agora mesmo um mouro se convertera vendo o milagre, e ficara de sacristão em S. Roque. Monsenhor Acciaioli, aos pulinhos, esfregava as mãos, contente e risonho, pela conversão recente de certa inglesa protestante. «Figas, demónio!» e dava estalinhos com os dedos.

Leave a Reply