Este texto, foi escrito por Vasco de Castro, expressamente para o nosso blogue. Têmo-lo guardado para uma projectada edição de homenagem a Alfredo Margarido. Como a organização dessa edição ainda vai tardar, resolvemos publicar o artigo, repetindo-o quando a edição referida se concretizar. Este espaço dedicado aos livros, é o mais adequado para recordar um homem que viveu para a Literatura – criando textos, traduzindo, prefaciando, anotando, criticando.
Que dizer de Alfredo Margarido?
Que dizer de um Amigo, quando parte para a sua porção de eternidade, no curso efémero de tudo e de todos para la de um sentimento chocado, sentido?
Com Margarido partilhava raízes próximas, das serranias ásperas trasmontanas e nos tempos de sombrias tiranias. Uma herança precisa de rebeldia genética, matriz celta e hebraica, e que será o no essencial do nosso comportamento colectivo de séculos desde os afrontamentos com os barões galegos, mais as investidas africanas, a pirataria no indico e nos mares da China, o ouro do Brasil, etc., etc… e a memoria sublimada, alegoria no génio do Camões ate Pessoa, um desassossego insistente a moldar carácter e deriva.
Alfredo Margarido aceitou-me sempre com delicadas ternuras imensas. Ainda na Lisboa abafada dos anos 1950, depois em Paris e, finalmente, no bucolismo de Sintra, em tardes de celebrações intimas. Recordo-o, já em penosa fragilidade fisica, vir almoçar, por duas vezes, um mes antes da sua morte, a esta aldeia, entre serra e Atlântico onde me acoito, era uma despedida.
Recentemente, reli o seu Teixeira de Pascoais e o prefácio a tradução do Retrato do Artista Quando Jovem, de J. Joyce, textos deslumbrantes da medida singular de uma cultura vasta e inteligência activa.
Nâo saberei dizer do seu percurso académico, universitário, em Franca e Lisboa, caminhei diversamente. Recebia-o como um homem da Renascença no século vinte, onde as nossas vidas fluíam… entre paixões e desencantos, muitos e diversos, mas onde permanecia o prazer, a alegria de viver, de sentir e decifrar o mundo. Seja, um espírito alerta, habitado febrilmente por uma curiosidade emotiva, generosa, um estado mental de bondade afectiva, suprema qualidade.
Guardo momentos epifanicos, das contingências dos dias. Assim…
– No Boulemich, Quartier Latin, Paris, um fim de tarde de Setembro 1962, ou primavera de 1963, não sei bem quando um olhar terno e vivo e um braço estendido deteve a minha solitária deambulação e nos surpreendemos exilados recentes, no respirar o oxigénio insolente partilhado, reconhecido, no quotidiano francês, em espontânea confraternização. Depois em Abri11974, a 27 ou 28 desse mes convulso e de ruptura, uma reunido ansiosa em sala muito discursiva, nos confins do bairro xve de Paris onde tres dezenas de exilados discutiram contraditoriamente do regresso a patria sonhada, do como e para quê… e Margarido oferecia-nos considerações sábias… E, no Porto, quinze anos passados, o reencontro na Faculdade de Letras, num Congresso sobre Literaturas Marginais, organizado por Arnaldo Saraiva, onde partilhamos uma mesa de debate moderada por Margarido, e o contacto perdido então renovado para uma vintena de anos mais, de múltiplos encontros e correspondência.
Na minha mesa de trabalho guardo objectos oferecidos por Margarido, souvenirs das suas idas frequentes a Paris, lembranças delicadas uma pequena agenda do ano 2000, com foto na capa do «Flore», um postal do «Select» Montparnasse, e uma chávena, em porcelana, do «La Coupola», Montparnasse, em precioso design-192o. Objectos que, da sua aparente banalidade, continuam um diálogo familiar no seu olhar suave contínuo, e significam uma presença viva, que profundamente me emociona, ate sempre.

