RAINHA JINGA – por Fernando Correia da Silva

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Tu, rainha Jinga, ultrapassas as sempre latentes rivalidades tribais e consegues armar, com vários povos vizinhos de Ndongo e Matamba, uma aliança contra a escravidão. São eles os dos territórios do Congo, do Kassanje, de Dembos e Kissama. Mas há sempre quem esteja disposto a trair a aliança, desde que possa fazer bons negócios com os portugueses. E entre os “bons negócios” está, obviamente, o tráfico de escravos…

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Em 1621 é fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais. E logo em 1624 uma esquadra holandesa queima e afunda seis navios portugueses no porto de Luanda. Aproveitas a súbita desorientação dos portugueses para libertares escravos, já concentrados em campos e à espera de embarque para o Brasil. Prometes-lhes a liberdade desde que integrem as tuas forças. Eles gritam abaixo a escravidão, abaixo a escravidão! e estão contigo.  

Em 1641 os holandeses voltam a Luanda, capturando frota de vinte navios portugueses. Tu, Jinga, fazes um pacto com eles e acabas por chefiar trezentos dos seus guerreiros e assim consegues controlar a maior parte do litoral e do interior do país, também as principais rotas de comércio.

Em 1648 chega do Brasil, comandando poderosa esquadra, o novo governador Salvador Correia de Sá, o qual expulsa os holandeses das águas angolanas. Ele também tenta que tu prestes vassalagem à coroa portuguesa, mas não consegue, és um osso muito duro de roer…

A guerra entre brancos e pretos continua durante cerca de quarenta anos; tu, Jinga, a comandares a guerrilha e o ataque aos fortes militares.

As coisas só sossegam um pouco porque, no Brasil, os escravos reproduziram-se em cativeiro e por isso a mão de obra já é quase a suficiente para as necessidades dos senhores de engenho, senhores de escravos. Os portugueses chegam mesmo a libertar a tua irmã Cambu detida em Luanda durante dez anos.

A propósito: no Brasil, perto de Recife, há um filho de angolanos, Zumbi dos Palmares, que lidera a revolta contra os portugueses como tu a lideras em Angola.

Ao sentires que chega a velhice, referes-te aos guerreiros jaga (teus primeiros aliados) e confessas ao missionário Antoine Gaete:

 – Agora estou velha, padre, e mereço indulgência. Quando eu era jovem, nunca ficava atrás de qualquer jaga na rapidez de andar e na habilidade da mão. Havia tempos em que não hesitava em fazer frente a 25 soldados brancos armados. É verdade, não sabia manejar fuzil mas, para desfechar golpes de espada, também são necessárias a coragem, a audácia e o juízo.

Com 81 ou 82 anos faleces em 1663. O teu nome é reverenciado não só em Angola, mas também entre os negros do Brasil.

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