CARTA DE FARO DO ARGONAUTA JÚLIO MARQUES MOTA

Meu querido Amigo João Machado

Não te venho importunar com mais uma crónica sobre Faro. Não, não venho. Estou a despedir-me desta maravilhosa cidade que agora mais parece uma cidade de Far-West cheia de homens fardados que dão pela profissão de polícias, controlados depois por uma senhora ou por um senhor das empresas de exploração dos parques de estacionamento de viaturas desta linda cidade  e das colectas das multas eventualmente e em que muitos deles passam o tempo à procura de quem poderão multar.

O sentimento que a população me deu é que quando estes homens assim se portam , esta população sente que estes agentes da ordem  ou da desordem, já nem sei bem,  mais parecem então estar a portarem-se, mesmo que inconscientemente,  como ladrões legalizados, fardados,  impondo uma lei que a população sente como discricionária, uma lei de que discorda, uma lei contra qual ruidosamente se manifestou. Mas o poder e o seu Presidente Macário, homem que de poder gosta muito como se tem mostrado,  fizeram ouvidos de mercador, claramente a leste das pretensões do que deseja a população. Perguntem-lhes.

Pela parte que me toca o que vi e o que me contaram  faz-me lembrar o tempo dos corsários, o tempo de roubar em alto-mar, o  tempo do famoso direito de corso,  a partir do qual se pagava tributo à Rainha. Pessoalmente ainda, não sei qual  é a diferença, em termos de substância, entre o direito dos corsário e o direito da empresa ou empresas  de cariz privado que estão encarregues das respectivas multas nas ruas de Faro,   uma vez que o assalto é em ambos os casos garantido por lei, garantido pelo poder, legal, portanto.

Hoje, assisti a uma cena de espantar. Dois polícias percorriam a descer lentamente a rua paralela à Avenida do Liceu, acompanhados por uma majestática senhora, vigiando carro a carro, para apanhar os incautos que poderiam multar. Multas foram passadas e ouço a voz canina da mulher em questão que julgamos a “inspectora” da empresa,: e aquele, não se multa? A voz de um dos polícias foi nítida: esse não. Tem o bilhete de estacionamento, não se vê é dai!

Portanto, três pessoas à caça do mais pequeno descuido de um automobilista para o poderem multar. Imagine-se isso portanto em toda a cidade. Os empregos afinal criaram-se, não na esfera produtiva, não na esfera social ou de prestação de serviços, mas sim na caça ao dinheiro de quem já pouco tem, normalmente. Por um lado teremos os arrumadores de carros a pedir dinheiro, os drogados genericamente diríamos, e a roubar quando de outra maneira o não conseguem e, por outro, mais ávidos de dinheiro que os primeiros, os drogados, temos a Polícia e a sua inspectora ou inspector, a irem legalmente ao nosso bolso. Fardados e diplomados para tal, num serviço que é feito carro a carro, deslize a deslize, por isso, de multa a multa,  ou até na  ausência destes mesmos deslizes, com as multas na mesma a pagar,  como iremos mostrar !

Conto esta história no café que costumo frequentar. Conto o que vi. Meu amigo, dizem-me, esta cidade é pior do que as anedotas com que qualquer bom contador de histórias do Far West poderia querer expressar o que por aquelas bandas se poderia estar a passar  naqueles tempos. Dou-lhe já um exemplo passado na sua rua, ao pé do café que está a 50 metros de sua casa. Fico todo ouvidos. E a história é mesmo de pasmar. Um velhote, com alguma dificuldade motora, pára o seu Mercedes, arruma-o. Deixa parte de uma roda sobre o passeio. Fecha o carro e nesta cidade cheia de máquinas caça-niqueis mas fora de qualquer casino, em todas as ruas que ladeiam o centro histórico,  dirige-se à máquina caça-níqueis mais próxima, a uns 80 metros, para tirar o bilhete, caminha de costas relativamente ao carro. Azar, por um lado, sorte por outro. Um polícia de farda fardado e um inspector da empresa que exploram o parque de máquinas, que exploram os cidadãos desprotegidos desta cidade, começam a passar a multa. Um cliente do café sai disparado do café e dirige-se ao polícia e diz-lhe, senhor polícia, o dono do carro vai além, vai a caminho da máquina para comprar bilhete. Olhe, senhor polícia! O polícia nem ligou até que um segundo cliente veio e gritou que não havia direito, afinal por  quem teria como missão olhar pelos nossos direitos, penso eu. Confirme, senhor polícia,  confirme primeiro antes de passar a multa, com os diabos. Devagar, com o seu passo lento de que já andou muito na vida, pois andava com alguma dificuldade, fisicamente,  e com muitas dores até, dado a forma como andava, o automobilista  dono do Mercedes chegou então . Mostrou o bilhete que o polícia lhe pediu. O polícia avisou que para a próxima não lhe perdoava o pneu levemente em cima  do passeio. Entretanto com o papel meio preenchido multaram o carro que estava antes do dele. A lição mais imediata é que em Faro não se pode ser coxo, não se pode andar devagar quanto se trata de estacionar o carro, em suma nem sequer se pode ser nem velho nem coxo quando de um ticket se trata de pagar, neste país onde o cidadão deve ter sempre o porta-moedas disponível para os governos, nacionais,   regionais, locais se poderem servir à vontade. O Gaspar bem o tem mostrado à evidência.

E outra  lição a tirar é que entre o arrumar o carro junto ao passeio, comprar o ticket e coloca-lo no tablier não se pode olhar para uma Marylin Monroe que passe entretanto e com aquele andar de ancas que deixava toda a gente embasbacada e parada. Imagine-se um polícia de papel na mão a multar  apenas  porque o velhote gosta do que é belo e sabe admirá-lo, parado.

Mais tarde vou ao pé do teatro Letes comprar um frango assado. Filho da minha mãe camponesa que tudo queria saber, mesmo sem saber ler nem escrever, contei esta segunda história e quis saber mais à volta da exploração do parque de máquinas, do parque de multas que Macário inventou. O homem do restaurante contou-me uma outra história. Sabe, um dia destes vim ao estabelecimento ao meio da tarde. Na parte a não pagar não havia lugar, coloquei o meu carro na parte a pagar. Dou por mim, tinha apenas dois apenas uma moeda de dois euros. Pago, não pago, eis a minha questão. E pensei, são apenas cinco minutos que eu preciso. Pago, não pago, pensei. Mas estou num país de ladrões, não vá o diabo tecê-las, é melhor pagar. E paguei os dois euros. Coloquei o bilhete dentro do carro. Fui à minha vida e, quando cheguei, dez minutos depois, estava multado! Multado, como? Disseram-me e bastava-me ver a hora, olhe que a polícia anda aí. Fui à procura, encontrei um polícia e a “inspectora” . Mostrei-lhes a multa, mostrei-lhes o meu ticket de dois euros pagos. Disseram-me a multa está passada, o ticket não estava visível, a multa está aplicada, agora nada a fazer. Pode no melhor dos casos fazer um pedido para Lisboa. O nosso vendedor de frangos não teve a sorte do automobilista da manhã  que eu vi, pois não teve ninguém que dissesse à senhora “inspectora” que o ticket estava lá embora não muito visível

À noite fui-me despedir de um tio que tenho nesta cidade, advogado de profissão e fui ao café de nome O seu café . Riu-se de tudo isto e contou-me um outro exemplo: um dia estacionou o carro junto ao Hotel Eva. Dirigiu-se à máquina caça-níqueis e, de repente, ouviu: olha,  aqui está outro. Virou-se e deu com o polícia com o “livrinho” já na mão, apontado para o bolso deste advogado diríamos nós. Esperem lá, mas já nem dão tempo para se tirar o ticket, é assim, perguntou ele aos agentes em questão.

Aqui uma outra lição, não encontre nunca um amigo qualquer em Faro quando se trata de arrumar o carro e de ir tirar o ticket, pois um minuto a mais é fatal, multa pesada, multa sem ticket, é multa de estacionamento proibido, e a polícia não espera,  é mais rápida  que a nossa sombra. Mais rápido que a nossa sombra, como no Far West, como no Lucky Luke. Lembram-se?  Simples, muito simples, portanto.

Senti nojo por um Macário que teima em continuar a estar como Presidente de Faro, senti nojo por uma Chefia de uma Instituição,  a da Polícia, uma Instituição  que devia ser nobre a defender os seus cidadãos, na aplicação de leis em que estes mesmos cidadãos  se sentissem enquadrados, a cumprir ordens que tivessem o seu consentimento publicamente reconhecido em vez de ser obrigada a comportar-se e  a funcionar como os corsários de outrora não com barcos mas relativamente aos cidadãos de agora, senti, por outro lado,  pena de todos estes comerciantes que se sentem cercados, murados, com os clientes muitos deles desviados de vir à Baixa,  por esta política de pirataria autêntica que acaba por roubar também todos os comerciantes, porque lhes fazem perder clientes e num momento em que já há tão poucos, em que temos as lojas sucessivamente a fechar, como falámos na crónica nº 7 sobre Faro, em que temos o emprego no sector do comércio a baixar drasticamente. Mas quem se interessa pelos empregos  de toda esta gente, gente agora descartável, gente a quem se lhes podem dar cursos de alemão como relatei na última crónica  citada.   Perguntem-lhes, a todos os cidadãos de Faro, e eles vos responderão, se o que aqui é relatado é ou não verdade, por mais surrealista que vos pareça e a mim também  se não tivesse presenciado.

Curiosamente nesses deambulares meus e de um ou outro amigo pela noite de Faro a querer perceber o que economicamente aqui se passa  no sector importante da restauração, de noite, garanto, eu nunca vi nenhum polícia. Para que serve então nesta cidade a Polícia, alguém me diz?

De Faro algumas imagens da política camarária, aqui vos deixo.

Vejam o belo edifício antigo do Tribunal do Trabalho que no seu restauro em tempos consumiu alguns milhões, e agora fechado, a degradar-se, está à espera de mais milhões para novo restauro ou então à espera de uma venda qualquer a um estrangeiro qualquer.

Faro - IV

Júlio - V

Vejam o pórtico de entrada na parte murada da cidade: debaixo do pórtico pura e simplesmente chove.

Júlio - VI

 Júlio - VII

Vejam o painel do Largo S. Francisco de Assis:

Júlio - VIII

Vejam uma rua vazia com os prédios quase todos degradados na rua da Livraria-Papelaria Portugal, e com uma rua outrora cheia mas agora, em tempos de crise completamente vazia:

Júlio - IX

Júlio - XI

Vejam uma simples tampa de esgotos que de noite cada vez que um carro lhe passa por cima acorda todos os moradores do prédio ao lado pois o barulho que faz parece uma bomba a rebentar  e destas tampas elas abundam por esta cidade de Faro tão mal tratada. Mas, sobretudo, vejam o novo emblema de Faro que aqui vos ofereço, e que está à venda por uma imobiliária que suponho americana. Vejam e percebem que este emblema é também o emblema do país, degradado, completamente degradado e que querem pôr à venda por  e para estrangeiros, para ainda ficar mais defraudado. A minha neta propôs-me que se desse o titulo de O novo emblema da cidade de Faro,  sugestão que aceitei prontamente:

Julio - X

E assim me despeço desta bela cidade que nenhum Macário, nenhum Gaspar, nenhum Passos Coelho, hão-de ser capazes de poder afundar. É a nossa  História que o diz, é a História de Faro que também já o testemunhou  e é também as suas gentes que agora e amanhã que com o seu sentir o hão-de também de  garantir.

Júlio Marques Mota

1 Comment

  1. Um leitor devidamente identificado pediu-nos para meter o comentário seguinte:

    A caça à multa das empresas municipais de “mobilidade e estacionamento” é doença epidémica. O caso que aconteceu comigo é revelador.

    Na mui progressista Almada manda uma senhora que elegeu os automobilistas como inimigos. Com efeito, não satisfeita com a concepção e construção do chamado Metro Sul do Tejo (popularmente designado por comboio de Almada) tendo por objectivo principal explícito expulsar os automóveis da cidade (de facto o que conseguiu foi arruinar o comércio do centro de Almada e engrossar os proveitos das lojas do Forum), criou uma coisa chamada Ecalma uma empresa municipal que, entre outras coisas, se dedica à mesma tarefa que descreves na tua crónica – passar multas aos incautos. O problema principal é que quanto mais cumpridores forem os donos dos automóveis menos frequentes são as multas e menos rentável é a empresa. Tanto mais que os custos de pessoal são elevados dada a necessidade de criar emprego para a família, os amigos e os camaradas (por esta ordem).

    Uma das soluções encontradas foi aumentar o valor das multas. Só que foi contraproducente porque aumentou o grau de cumprimento das regras. Daí passou-se para a arbitrariedade de que dás testemunho. A consequência foi o aumento da violência sobre os fiscais o que fez aumentar os custos porque passaram a ser acompanhados (ou acompanhadas) por polícias.

    Mas a tia Mimi (nome mimoso pelo qual é conhecida a presidente de Almada), esperta como um alho, descobriu a maneira mais expedita de rentabilizar o negócio – não se multam os carros, rebocam-se! Assim, o desgraçado que, como eu, tiver a triste ideia de, à hora do almoço de um dia de semana, estacionar o carro no parque em frente ao Museu da Cidade onde estariam mais uns 5 ou 6 carros (o parque dá para uns 20 a 30, pelo menos) para ir ao restaurante do dito Museu, terá provavelmente a surpresa de, 5 minutos depois da chegada, não encontrar o carro onde o deixou e ter que pagar, por junto, mais de 100 euros de multa e reboque! Assim, poupa-se nos custos (os requisitos de pessoal de rua são menores) e aumentam-se os proveitos tornando a empresa viável. Promove-se o emprego qualificado (substituição dos vigilantes por funcionários de escritório) e evita-se o “perigo” da extinção da Ecalma por aplicação do critério da não rentabilidade das empresas municipais! Eis a grande lição de Economia da tia Mimi! É evidente que quem paga é o mexilhão como o teu amigo,

    PS Também me aconselharam a não pagar justificando a atitude “para Lisboa” com a arbitrariedade da empresa. No entanto, o reboque do carro está previsto no regulamento municipal sobre veículos não se restringindo (como acontece em Lisboa) aos casos em que dificulta (ou impede) a mobilidade dos outros veículos ou dos peões. Por mim, deixei de ir a Almada ao dia de semana pelo menos das 7 da manhã às 7 de tarde. Tenho que arranjar outro barbeiro.

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