MUNDO CÃO – O SR. SELASSIÉ E A DEMOCRACIA – por José Goulão

Como temos obrigação de saber, a União Europeia considera-se uma espécie de farol e fiscal da democracia. Nessa matéria sente-se acima de qualquer suspeita, imune a qualquer denúncia, escudada contra a mais fundamentada e procedente acusação.

Ignoro as credenciais do Sr. Abebe Selassié como democrata. Sei que não é europeu, é etíope, desempenha funções de tecnocrata ao serviço do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, nessa qualidade, chefia a troika (representantes da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu) que governa Portugal com a colaboração dos ministros da equipa de Passos Coelho.

O Sr. Selassié é o governador-geral da República Portuguesa, um país teoricamente soberano, membro da União Europeia e transformado, por via do controlo das suas dívidas contraídas nos mercados, à revelia do povo, num protetorado económico de Berlim através dos instrumentos manipulados em Bruxelas.

Nada se passa nem se decide em Portugal sem o conhecimento e o aval do Sr. Selassié. Não há salário, nem pensão, privatização, decisão fiscal, orientação económica sem que o Sr. Selassié diga de sua justiça. Não há, em suma, Orçamento do Estado Português sem a chancela do Sr. Selassié, apenas autorizada depois de passar sob as lupas do FMI, da Comissão Europeia, dos polícias do euro instalados em Frankfurt, na sede do Banco Central Europeu.

Nos casos dos bons alunos, como a elite governante portuguesa se gaba de ser perante os mestres europeus (ou não), este era o sistema perfeito para obrigar os cidadãos portugueses a pagar, com os devidos juros, os supostos desmandos cometidos para tentarem construir um Estado social.

Até que, das profundezas da democracia emergiu uma coisa que o governo julgava morta e, afinal, estava apenas mal enterrada: a Constituição da República Portuguesa. O Tribunal Constitucional, o filtro que avalia a conformidade das leis com a Lei Fundamental, detetou, pelo segundo ano consecutivo, que o Orçamento do Sr. Selassié, abençoado pela imperatriz Merkel, viola a Constituição adotada democraticamente pelos portugueses.

Aqui d’el rei, gritou o governo da República, acusando o Tribunal Constitucional de não o deixar governar. Entre as instituições legítimas e democráticas de Portugal e o chefe da troika, o primeiro ministro português escolheu o Sr. Selassié. E para lhe obedecer vai castigar ainda mais a educação, a segurança social, o património, a saúde dos portugueses.

Há poucos dias, ainda antes do parecer do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento, o Sr. Selassié reconheceu que os resultados do desemprego em Portugal são “infelizes” e “piores do que o esperado”, declarou-se “desapontado” por os preços da energia subirem em vez de descerem e garantiu que “não existe muito mais a fazer para estimular o crescimento” num país afogado numa recessão de 3,5 por cento. O Sr. Selassié e a sua troika são, pois, incompetentes, mentirosos e mal intencionados. No entanto, o primeiro ministro Passos Coelho colocou-se ao lado do governador-geral e contra a Constituição da República, por sinal com uma sede de vingança que o situa, sem reservas, do lado de fora do país e da democracia.

Quase quatro décadas depois do derrube do fascismo, Portugal caiu nas garras da ditadura personalizada no Sr. Selassié. Os seus seguidores internos, estejam ou não no governo, são meros – mas raivosos – paus mandados.

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