COLO DE GARÇA – por Fernando Correia da Silva

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Imagem3Viajar no tempo é meu condão. Aponto ao sec. XIV, pois quero certificar-me de ocorrência que me intriga. No caminho vejo três poetas, três vezes paro eu.  Abordo-os, um a um. Digo-lhes ao que vou, convido, aceitam, embarcam. São eles: Luís de Camões, nascido em 1542; António Ferreira, nascido em 1528; e Garcia de Resende, nascido talvez em 1470.

Em 1340 arribamos a Coimbra e ali descemos. É noite. Grande agitação pelas ruas e vielas, cantorias, arraiais, bailaricos, todo o povo a festejar o regresso de D. Afonso IV. Homem bravo, fora ele quem acudira a Afonso XI de Castela para, na batalha do Salado, em conjunto derrotarem a moirama da Península Ibérica.

Um rancho com tochas acesas sai de um beco. Logo depois, cercado por tocadores de trompas e adufes, em passos ligeiros e bem marcados, surge um folião que a todos arrasta para a dança coletiva.

Garcia de Resende reconhece o dançarino:

– Mas é D. Pedro, o filho d’El-Rei D. Afonso IV…

E tem razão, é D. Pedro que, apesar de Príncipe herdeiro, não se recusa a conviver, a bailar e a divertir-se com a arraia-miúda.

Diz Camões:

– O Príncipe a bailar e não tarda muito vai casar…

Palavras ditas e, sem sabermos como tal aconteceu, logo nos encontramos na Sé de Lisboa a assistir à benção nupcial. Já corre o mês de Agosto, sol é o que não falta à beira-Tejo. Casamento, mas de conveniência, como são todos os que se realizam entre os nobres dos vários reinos ibéricos (e europeus…). A noiva, D. Constança, é fidalga castelhana cujo pai mantém um contencioso com Afonso XI de Castela. Talvez por isso, faz parte do séquito de D. Constança, D. Inês de Castro, dama galega cujos irmãos também hostilizam D. Afonso XI.

D. Constança é a noiva, sabemos disso. Mas D. Pedro fica é deslumbrado com formosura de D. Inês que, por sinal, é sua prima segunda (os tais cruzamentos de sangue dos nobres ibéricos…).

Também Camões queda embevecido, murmura:

– Colo de garça…

Vontade minha é dizer “quanto mais prima, mais se lhe arrima…” Mas não digo, a situação é delicada, gracejos perdem o sentido. Pergunto apenas:

– Quem pode resistir a tamanha boniteza? Bem entendo a perturbação do Príncipe…

António Ferreira mostra-se inquieto, assusta-se, assusta-nos:

– Vem aí uma tragédia, prevejo…

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