POESIA AO AMANHECER – 179 – por Manuel Simões

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GUILHERME D’AZEVEDO

(1839 – 1882)

POEMA XVII

Ó máquinas febris! eu sinto a cada passo,

nos silvos que soltais, aquele canto imenso,

que a nova geração nos lábios traz suspenso

como a estância viril duma epopeia d’aço!

Enquanto o velho mundo arfando de cansaço

prostrado cai na luta; em fumo negro e denso

levanta-se a espiral desse moderno incenso

que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

Vós sois as criações fulgentes, fabulosas,

que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas,

mordeis o pedestal da velha Majestade!

E as grandes combustões que sempre vos consomem

começam, num cadinho, a refundir o homem

fazendo ressurgir mais larga a Humanidade.

(de “A Alma Nova”)

Estreia-se com “Aparições” (1867), na esteira de Lamartine, depois do que publicou “Radiações da Noite” (1871), livro saudado por Antero como início de inspiração social, o que veio a confirmar-se com “A Alma Nova” (1874), volume cujo primeiro título terá sido “Poesia da Revolução”. Foi um dos promotores das “conferências do Casino Lisbonense”. Notável cronista, colabora com Rafael Bordalo Pinheiro no “António Maria” (1879) e depois no “Álbum das Glórias” (1880), aqui com o pseudónimo de João Rialto.

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