A LÓGICA DOS PARAÍSOS FISCAIS NA DINÂMICA DA ABSORÇÃO E REPARTIÇÃO DO EXCEDENTE ECONÓMICO, NA DINÂMICA DO CAPITALISMO MODERNO

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

  1. Os paraísos fiscais: uma leitura elegante e curiosa

Jean Claude Werrebrouck

Jean Claude Werrebrouck,  Les paradis fiscaux, disponível no site A crise dos anos 2010, cujo endereço é o seguinte:
http://www.lacrisedesannees2010.com/

A operação de ‘offshoreleaks’ sobre os  paraísos fiscais que está a decorrer  e o trabalho duro que lhe corresponde confirmam que a globalização continua a ser uma bela história que contamos às nossas criancinhas. O mundo dos mercados globalizados e generalizados está longe de ser um mundo bom, não é líquido e está também cheio de “grumos” irredutíveis  ou de  inacessíveis buracos negros às vezes.

A globalização não é de maneira nenhuma o declínio de Estados que à força de  cooperarem,  depois de terem andado a guerrearem-se, acabariam assim por eventualmente se dissolverem. A globalização não é, inversamente, senão uma transformação do seu modo de existência e acessoriamente da sua multiplicação. Vindo de uma longa evolução, aquilo a que agora chamamos a política enquanto que substância  comum a um grupo de pessoas  foi gradualmente sendo controlado  por alguns dos  seus membros, por aqueles que se tornaram os representantes do que mais tarde passou a chamar-se de Estado.   Basicamente, a essência do Estado é a apropriação a título privado das ferramentas do que é o político, o que fundamenta pois a sua natureza profundamente predatória. Estrutura espacialmente geradora de clivagens  em que os predadores se encarregam  de  estabelecer fronteiras, garantindo um domínio reservado a cada um deles. Numa tal mundo a guerra entre  os ‘povos’ em vias de constituição tem como objectivo a redefinição na partilha da predação global  entre o que é chamado de “empresários  políticos… ‘. A ordem humana é composta de “grumos” chamados  reinos ou impérios.

Como muito mais tarde o vieram a fazer os empresários económicos, eles dominam de modo privado os meios de produção (escravos a trabalharem para o Estado, camponeses sujeitos a trabalhos obrigatórios quase como escravos, camponeses tributáveis , etc.) e estão   em concorrência com outros empresários políticos, onde os preços de mercado são substituídos pela guerra.

Muito mais tarde ainda, o aumento do peso da economia torna-se uma fonte de predação que convém talvez ser promovida, se, no entanto,  é possível ‘partilhar’: os empresários políticos acabam por proteger os empresários económicos que multiplicam a riqueza disponível… e passível de tributação … O tempo mercantilista introduz-se na cena global e nós estamos já no final da Idade Média. E é já uma globalização que gera potencialmente novos “grumos” com os seus predadores locais, particularmente interessados nos  metais preciosos,  predadores ancestrais dos paraísos fiscais que fazem segundo as palavras de Marx a  “acumulação primitiva de capital”. Um pouco como hoje, onde o dinheiro sujo que chega a  Chipre regressa, limpinho, à  Rússia.

Se ao longo do tempo e talvez em correspondência com o crescer da importância assumida pela economia, emerge a ideia de direito humano, a predação deverá ser redefinida, o imposto tornando-se “consentido” pelo cidadão e a predação que lhe corresponde  a tornar-se democraticamente distribuída. A forma “Estado de direito” é a nova cara do Estado. A ficção de um interesse geral faz na verdade a sua armadura ideológica.

Se a economia se torna um facto  socialmente dominando as fronteiras desenhadas pelos  empresários políticos estas são contestadas pelos  empresários económicos mais dinâmicos. Ser-lhes-à necessária toda uma outra globalização e os seus actores tornar-se-ão cada vez  mais gananciosos: devemos acabar com certas fronteiras, pelo menos parcialmente privatizar este grande monumento soberano privilegiado que é a moeda e com esta a exprimir  fronteiras inaceitáveis, suprimir esses bloqueios que são os direitos aduaneiros ou as normas nacionais, etc.

Como a moeda não pode ser livre porque tem que se apoiar sobre uma base jurídica,  portanto política, e como nenhum fórum político global emerge para exercer essa papel , é necessário  contentar-se  com a sua privatização parcial: as taxas de câmbio entre as moedas que permaneceram  legais, são simplesmente definidas pelo mercado e não sujeitas ao plano do  político, facilitando-se assim a livre circulação de capitais. Mas também uma especulação altamente lucrativa.

(continua)

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