MUNDO CÃO – A CONFISSÃO DE FRACASSO – por José Goulão

O nome de Ashoka Mody diz pouco ao comum dos mortais. No entanto, as suas decisões e imposições refletiram-se na vida de milhões de europeus, prejudicando-os. O Sr. Mody não concorreu a eleições, não foi eleito por ninguém, mas decidiu diretamente sobre a vida dos irlandeses e, indiretamente, sobre o presente e futuro de gregos, cipriotas, portugueses, italianos, espanhóis. O Sr. Ashoka Mody foi o representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) dentro da troika que governa a República da Irlanda e agora que saiu do cargo, e até do próprio FMI, fez uma confissão assombrosa: a política económica aplicada contra a crise estava errada, fracassou e não funciona.

Há quem diga que os mea culpa ficam bem a quem os profere, demonstram nobreza de sentimentos e de caráter. Talvez o mais importante não seja discorrer sobre isso, porque dificilmente os milhões de pessoas que perderam os empregos, sofreram cortes nos seus salários e pensões, viram desaparecer direitos humanos elementares enquanto o Sr. Ashoka Mody esteve em funções não terão a mesma opinião. Sendo, aliás, o representante do FMI, por inerência, um economista encartado por muitos graus académicos custa a acreditar que ele não adivinhasse, desde o início, o destino que teria uma política como a que foi aplicar. Arrependeu-se, mas logo outros lhe pegaram na batuta.

A confissão poderia, é certo, ter uma utilidade. Forçar os principais mentores e executores da política que tem vindo a ser seguida supostamente para combater a crise na Europa a refletir sobre o assunto e a estudar alternativas, porque todos os sinais de crise continuam a agravar-se. E também as dívidas aumentam, negando todas as receitas usadas para as reduzir.

Acontece que os responsáveis fizeram orelhas moucas ao Sr. Mody. Reunidos na Irlanda, os ministros das Finanças dos países da Zona Euro e da união Europeia decidiram que austeridade deve ser continuada, e agravada, limitando-se a estender prazos de pagamento das dívidas por mais alguns anos, o que, na situação em que os países periféricos europeus se encontram, tem o mesmo efeito que usar aspirinas para curar cancros terminais.

No caso de Portugal, dois dias depois da declaração do ex-chefe do FMI para a Irlanda, país que o governo de Lisboa diz seguir como “exemplo”, o ministro das Finanças escreveu uma carta à troika pedindo mais austeridade. E recomendou que ela se exerça especialmente sobre subsídios de doença e de desemprego – um mal que bate todos os recordes no país.

Muitos que leem estas linhas terão dificuldade em acreditar que assim seja, mas podem crer que é a realidade nua e crua. Está escrito, e os senhores da troika já desembarcaram de novo em Lisboa para tratar do assunto. Até na Irlanda os jornalistas ficaram estupefatos quando o ministro português, Gaspar de seu nome, confrontado com a confissão do Sr. Ashoka Mody, declarou que a austeridade está certa, o erro é do ex-representante do FMI. Na televisão irlandesa um comentador notou que Gaspar parecia mais um técnico da troika do que o ministro das Finanças de um país.

Fala-se em insensibilidade, má-fé, até “crueldade social” do ministro, mas desenganem-se os que acham que se trata de uma questão pessoal. Nada disso. Gaspar cumpre apenas a lógica do sistema económico-política que, sob o comando da chanceler alemã, e no interesse exclusivo do capital e finanças da Alemanha, dirige a União Europeia.

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