DOIS COMENTÁRIOS AO DEBATE SOBRE O AO

Temos sido forçados a cortar comentários que revelam posições xenófobas e enfermam de maniqueísmo primário. Continuaremos a fazê-lo. Em contrapartida, usaremos este espaço horário que antecede a publicação dos textos sobre o Acordo Ortográfico para dar relevo a comentários que, argumentando num ou noutro sentido, observem a única regra que é imposta – a de respeitar as opiniões alheias. Neste blogue, ninguém impõe nada a ninguém, por mais inteligente que se considere e por mais estúpidos que, na sua opinião, sejam os outros. Aqui não se aceita que alguém queira impor com adjectivação insultuosa o que só pode ser feito com argumentação bem fundamentada. Escolhemos dois comentários de sinal oposto – o de António Gil Hernández, que defende a adopção do AO, e o de Paulo Rato, que o recusa.

O PERIGO DE QUE A LÍNGUA SE DISSOLVA – (comentário ao artigo “O Acordo Tortográfico”, de Miguel Esteves Cardoso ) – por António Gil Hernández

Bom, eu disse e digo o que venho a dizer desde a minha experiência (cativa, mas prolongada) de licenciado em filologia românica: o português é língua “independentista” a respeito das mais línguas românicas ou neolatinas, nomeadamente a francesa (que tão modélica foi para a portuguesa até a reforma de 1911), a italiana, a castelhana e mesmo a catalã.

Entendo que a unidade da língua evidencia-se na ORTHOGRAPHIA (num determinado MODELO de escrita correta), a corresponder-se com diferentes realizações orais, cultas e menos cultas (por assim dizer).

Contudo, essa unidade evidenciada na grafia surge ou alicerça no discurso da UNIDADE DA LÍNGUA HISTÓRICA, que os notáveis hão de sustentar e reelaborar. É por isso que, do meu ponto de vista, acho que o perigo mais grave para a língua portuguesa não é tanto a discussão sobre a GRAFIA, mas a dúvida cada vez maior da própria UNIDADE da língua. Parece operar entre determinados notáveis sobretudo portugueses, mas não só um desejo, uma ânsia por ligar língua e território nacional.

E nestas “convicções” os galegos têm experiência triste e mesmo esmagadora… Poderiam aprender um pouco deles (e desculpe o conselho talvez arrogante): mergulhados na HISPANOFONIA, em que a UNIDADE DA LÍNGUA é radicalmente sustida pelas instituições do reino europeu e das repúblicas hispanoamericanas, os galegos são OBRIGADOS A APRENDER UMA LÍNGUA DE SEU QUE OS AFASTA DA LUSOFONIA. Mas a que preço? Simplesmente para os galego-utentes desaparecerem.

Dissolvam a língua, a UNIDADE (também gráfica) DA LÍNGUA e acabarão dissolvidos também como nação.

(Conste que recebi esta lição do portugalego Rodrigues Lapa… E confrontei-a com a minha experiência de filólogo, que acima digo, e mais de hispanófono de nação. Desculpem o atrevimento. E calo.)

O FAMIGERADO “ESPETADOR” (comentário ao artigo “O Acordo Ortográfico 20 anos depois”, de Henrique Monteiro) – por Paulo Rato

Onde é que o AO prevê o famigerado “espetador” (com o significado presumível de “quem assiste a espetáculos”), que tanto irrita HM? Se bem me recordo, em lado nenhum da ortorrômbica coisa…

De facto, ao que julgo saber, a grafia “espetador” (com o referido significado) resulta, não do AO (a sua falta de rigor não chegou a tanto), mas do feliz casamento da ignorância generalizada de quem escreve por jornais e revistas com a displicência esbanjada na elaboração do dito AO, cujos principais autores não tiveram em conta os seus efeitos na infeliz realidade cultural em que se iria inserir, no seio da qual as palavras que se “ouvem” são apenas as que integram o reduzidíssimo vocabulário da grande maioria da população (um vocabulário cada vez mais pobre, graças ao rolo compressor da omnipresente e culturalmente medíocre televisão), quantas vezes, não variadamente pronunciado, conforme as regiões, mas simplesmente MAL pronunciado: ou saltitamos de puro prazer ante pérolas do tipo “estivestes”? Ou a recente confusão dos tempos verbais – também assaz difundida hertzianamente – entre passado e presente, aliás, essa sim, entusiasticamente sustentada pelo AO: acabamos ou acabámos? “tira-se pelo sentido”? não me façam rir… E os “pêlos” e “pelos” (que o televisês também já homofonizou…)? E o “pára” e “para”? PARA quê dificultar a fluência da leitura com obstáculos deste tipo? Onde PARA (?) a inteligência de quem tal engendrou?

Mas, sobre isto, já se disse mais do que o suficiente. Pela minha parte, não na defesa de uma inexistente “pureza da língua” (nem sei o que isso poderia ser), mas na oposição: antes de mais à “ânsia” mui portuguesa e provinciana da “defesa da língua”, através de AOs absoluta e comprovadamente inúteis, no passado como em todos os futuros possíveis (o que não exclui, reafirmo – antes que alguém me interprete enviesadamente – o estabelecimento de diversas “normas ortográficas”, que transcrevam a prosódia e a norma linguística correntes em cada país lusófono), de que outras línguas de similar dispersão geográfica, como a inglesa, a castelhana ou a francesa, nunca sentiram necessidade; e, só depois, à irresponsabilidade científica com que este AO foi elaborado (parafraseando Jorge de Sena, “com todo o respeito necessário” à erudição “que se veste e que prestou serviço”).

Tenho o maior respeito intelectual por figuras como Lindley Cintra, Celso Cruz, Antônio Houaiss e outros. Mas: respeito não significa o endeusamento de quem o merece, nem a petrificação “ad aeternum” do seu pensamento e do trabalho que a efemeridade da vida humana lhes permitiu realizar; as posições destes linguistas não se compadecem, nem com uma redução da complexidade do seu pensamento a rasa planície sem acidentes, nem com certos matizes importantes das opiniões expressas por alguns (nomeadamente LC) sobre a versão final do AO…

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