RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A política de rigor ? Não, nunca mais.

Françoise Fressoz

François Hollande - IVPhoto Reuters

Portanto, a França ganha um ano. Enfim, não, não é verdadeiramente assim. A França obteve de Bruxelas que poderia reduzir o seu défice público para  3% do PIB não até final de  2013, mas sim doze meses mais tarde.

Mas como a França  já está encostada à linha da recessão, esta frase não é realmente de uma grande ajuda: na verdade terá que ampliar os cortes de despesas públicas e de aumentar os impostos para cumprir o seu novo compromisso .

É toda a ambiguidade da situação actual e do discurso que a acompanha: a França aplica a política do rigor mas sem o dizer. Desde que foi eleito, François Hollande imagina-se o Senhor Crescimento da Europa. Ele bate-se contra “a austeridade sem fim”, ele coloca-se do lado dos países  em sofrimento, ele resiste tanto quanto pode na cena europeia e no plano de Angela Merkel e de David Cameron. Mas os factos são mesmo bem teimosos.

Quanto mais os meses passam, mais o seu governo deve apertar os parafusos, mais deve cortar nas despesas públicas, mais terá de reduzir o nível de vida das comunidades locais, mais deve combater o Estado-Providência.  Pensões de reforma, seguro contra o desemprego, política familiar, tudo vai passar por isto, tendo por trás a mão invisível de Bruxelas, que está disposta a conceder um prazo adicional mas desde que sejam levadas à prática as ‘reformas estruturais’.

É a doença francesa: o rigor cala o seu nome, ela parece-se até com uma doença que envergonhe. Mais ainda, não é assumida nem pelo actual presidente da República nem o foi pelo seu antecessor, que tinha aberto o seu mandato a pensar exonerar-se espectacularmente da disciplina orçamental de Bruxelas . O resultado foi que que as reformas , em cada um dos casos, parecem tão vergonhosas como parecem igualmente ser impostas pelo exterior.

Jean-Marc Ayrault reabre a processo do financiamento das pensões de reforma como o já tinha feito Nicolas Sarkozy em 2010, porque dado o peso da dívida, é necessário dar garantias a Bruxelas. É como se a França tivesse regularmente que atirar um osso para os dentes do mastim europeu e para o acalmar .

Estranha concepção de soberania nacional, que reflecte a incapacidade  francesa de ver a realidade, de pensar a longo prazo e a reconstruir o reagrupamento do povo francês em torno de um projecto de renovação da França. Este é contudo o objectivo do “sonho francês” sucessivamente evocado  durante a campanha pelo candidato Hollande : dar uma imagem, um objectivo de referência para os cinco anos do seu mandato para ultrapassar  as vicissitudes conjunturais.

O “sonho francês” tinha as mesmas virtudes que a “política de civilização” apresentada por Nicolas Sarkozy, em Janeiro de 2008, quando surgiram as primeiras dificuldades: encontrar um objectivo que  seja, que constitua, o cimento nacional. Mas nada aconteceu que viesse dar corpo às palavras de ordem, nada que nos permitisse vislumbrar olhar e ver o horizonte.

Resta apenas um caminho escarpado que não diz o seu nome. A política de rigor? Não, nunca mais.

Françoise Fressoz, La rigueur? Non, jamais, Le 19 heures de Françoise Fressoz | Un blog du Monde.fr cujo endereço electrónico é : fressoz.blog.lemonde.fr/  e foi obtido no blog a 22 de Fevereiro de 2013.

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