CRIANÇAS-SOLDADOS – A NECESSIDADE DE EXPRESSAR O TRAUMATISMO por clara castilho

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Chegou-me às mãos este vídeo. É o Emmanuel Jal, uma criança soldado que perdeu a inocência demasiado cedo… Anda a ser discutido um Tratado ao Comércio de Armas (TCA), para regular o comércio de armas, sob a égide da Amnistia Internacional.

Brian Wood, representante da Amnistia Internacional para Controlo de Armas e Direitos Humanos, defende: ”O TCA deve exigir aos governos a prevenção das transferências de armas que irão ser usadas para cometer violência contra crianças e deve incluir regras que detenham o fluxo de armas com destino às forças de segurança governamentais e grupos armados responsáveis por crimes de guerra ou graves violações de direitos humanos, mas o esboço atual das regulamentações não é suficientemente forte para fazer uma diferença significativa”.

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Boris Cyrulnik, numa conferência em Lisboa, em 2005, na Escola Superior de Educação de Lisboa, organizada pelo Centro Dr. João dos Santos – Casa da Praia, falou-nos sobre as crianças-soldados.

“Através do meu trabalho com crianças-soldados, em África, pude verificar que elas estavam gravemente traumatizadas. Ao falar com elas e ao perguntar-lhes o que iriam fazer depois, dado que a guerra tinha terminado, a maioria respondeu-me que tinham medo da paz. Também no Líbano pude verificar isto. Durante a guerra eles sabem o que é preciso fazer, sabem quem são os seus amigos, quem são os inimigos, aprendem a lutar, a esconder-se, a roubar. Não têm medo da guerra, sabem o que fazer.

Quando chega a paz, não sabem e, então, sentem medo da paz. Um grande número destas crianças tinha-se alistado como mercenários em exércitos que pagam a quem faça a guerra. Mas a maioria destas crianças também disse que o que queriam era voltar à escola. À escola enquanto factor de resiliência. Tinham um handicap afectivo imenso, mas ainda estavam vivos. Na altura, não compreendemos que eles queriam voltar à escola, mas não às escolas das suas aldeias de origem, onde eram vistos como delinquentes ou criminosos. Era preciso mudá-los de escola. Demorámos muito tempo para percebermos isso, cometemos um erro.

No Ruanda, muitas das crianças feridas não conseguiam contar directamente o que lhes tinha acontecido, mas conseguiam fazê-lo sob a forma de poesia. E podemos ver crianças sem educação a fazer versos, tendo a coragem de escrever sob a forma de poesia o que não conseguiam dizer face a face. Até encontrámos homens que não sabiam ler nem escrever que ditavam para o gravador o seu sofrimento, a sua tragédia. E alguém escrevia e eles iam-se embora com o manuscrito. Eles afirmavam que o manuscrito era importante porque, apesar de não saberem ler, o seu sofrimento estava lá escrito e um dia poderiam dá-lo a ler aos seus filhos e aos seus netos. Dado que o sofrimento estava fora deles, alguém tinha escrito por eles o que lhes tinham acontecido, sentiam que podiam fazer qualquer coisa com as suas feridas.

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