A RIQUEZA DA LITERATURA LUSÓFONA E A INUTILIDADE DO A.O. – por Paulo Rato

Continuamos a publicar, neste horário das 14 horas, textos que, tendo ou não o Acordo Ortográfico como tema central, são importantes para compreender as razões de quem pugna pela sua adopção e quem é contra esse acordo. Este texto de Paulo Rato responde a outro que terá sido publicado, mas que não conseguimos localizar.

No que se refere à literatura lusófona, a quanto aos mais antigos as referências são óbvias… – Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões… No que se refere a um gigante de contornos talvez nunca inteiramente definíveis, como o Pessoa, é muito difícil alguém alcançar uma tal imensidão de pensamento e recursos literários. Depois, temos o período em que a história das literaturas portuguesa e brasileira praticamente coincidem. E António Vieira nasceu no Brasil, era mestiço e integra essa coincidência. Depois, as normas começam a divergir cada vez mais. Pelo que as análises a fazer obrigam a ter isso em conta: é dentro dessa divergência normativa, progressivamente mais acelerada na linguagem falada, de que os escritores sucessivamente se apoderam, para elevar a língua, nos seus vários estádios, ao nível da obra de arte, que há que apreciar as características que definem e valoram uma obra literária. A partir, pelo menos, de Machado de Assis e Castro Alves, há figuras da literatura, já claramente só brasileira, que não consigo classificar nem acima nem abaixo dos autores portugueses que citas. Na poesia, sobretudo, há enormes autores brasileiros, muitos deles, simplesmente, pouco conhecidos em Portugal, até porque, nalguns casos, uma obra de altíssima qualidade pode sofrer pela sua pouca extensão. E não me refiro, naturalmente, a uma Cecília Meireles, um Drummond de Andrade, um Manuel Bandeira ou um singularíssimo João Cabral de Melo Neto, cujas expressões poéticas são por cá reconhecidas; nem de Jorge Amado ou Lígia Fagundes Teles. Falo, por exemplo, dos simbolistas Cruz e Sousa (prejudicado por ser negro e filho de escravos libertos, hoje reconhecido internacionalmente, após tardias traduções, como um dos maiores representantes desta corrente) ou Gilka Machado, de Adélia Prado, Carlos Nejar, Manoel de Barros (que Drummond considerava ser o “maior poeta brasileiro vivo”, quando lhe queriam atribuir, a ele, esse título), Mário Faustino (um cometa ofuscante, morto com apenas 32 anos)…; na prosa, de Clarice Lispector, Nélida Piñon, Ruben Fonseca…

 Nos PALOP – sem esquecer que o período de pertença comum à literatura de Portugal é ainda muito recente, talvez com particular projecção em Moçambique, com Sebastião Alba, um imenso Alberto Lacerda, um originalíssimo Reinaldo Ferreira (só conhecido pelo mal entendido – na realidade, irónico! – poema “Uma Casa Portuguesa, que morreu com apenas 37 anos), Rui Knopfli, um acutilante, profundo e camaleónico António Quadros/Grabato Dias/Mutimati Barnabé João, – há nomes de grande valia. A começar por Cabo-Verde: lembro os, para mim, mais destacados poetas, ocidentalizados e cultíssimos, João Vário (falecido há poucos anos, sem que a sua extensa e variada obra alcançasse a difusão e o destaque merecidos) e o bem mais jovem José Luís Tavares, um dos mais notáveis cultores da língua portuguesa, na actualidade; ou o mais “ilhéu” (na expressão e nos temas), de obra curta, mas tensa e densa, Corsino Fortes; e o romancista Germano de Almeida.

 Mia Couto, luso-moçambicano, mas inteiramente moçambicano na sua criação, tem um reconhecimento internacional inteiramente merecido, precisamente por um inimitável trabalho sobre a matéria da língua e uma capacidade de efabulação rara. Angola terá sido a terra que mais intensamente absorveu os seus poetas, colhendo deles um compromisso político que lhes terá tolhido alguma dimensão, ainda que conheça um bom número de excelentes ( e assaz comoventes) poemas, de um razoável número de autores –  que têm em comum a assumpção de uma linguagem popular (decisiva para o futuro da criação literária do novo país), enriquecida pela miscigenação com as línguas locais – muitos trazidos até nós na voz inesquecível de Rui Mingas. Não destaco, por isso, nenhum, embora tenha as minhas preferências por alguns que considero que poderiam, sem esse compromisso irrecusável, a que vieram acrescentar-se as violentas convulsões que se seguiram à independência, ter atingido a qualidade global cujo selo se descobre no que produziram. Já como narradores, creio que autores como Pepetela, Agualusa, João Melo ou o mais jovem Ondjaki já caracterizam, com distinção, uma literatura nacional angolana.

 Enfim, isto é assim um tanto ao correr da pena, sem outras bases que não as colhidas da memória que fica da leitura destas obras e sem pretensões “ensaísticas” ou de sustentação de uma “teoria”, a não ser a da atenção à tal “diferenciação” que as “normas geográficas” do português vão assumindo. Aliás, esta é mais uma das razões por que considero inúteis “acordos ortográficos”, que tentam “amarrar o fumo” e destituir-nos da riqueza que constitui essa crescente variedade.

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