Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Curiosamente chego de férias passadas algures, de que talvez venha a fazer uma crónica sobre as ruas em que Durão Barroso viveu e cresceu, e eis que encontro um texto enviado pelo nosso amigo Domenico Mario Nuti dedicado à Dama de Ferro com o desejo de que esta enferruje em paz. Curioso título.
Curiosamente publicamos há ainda dois a três dias, em conjunto com Luís Peres Lopes, um texto sobre o Feiticeiro de Oz em que considerávamos como um bom exemplo de bruxa má do filme, e nos nossos tempos, exactamente a dama de ferro, Margaret Thatcher. Com o presente texto Domenico Mario Nuti vem-nos dizer que tínhamos razão.
Um texto que deveria ser escrito e publicado em todos os jornais naquele dia, um texto que Cameron deveria ter lido como “elogio fúnebre”, se tivesse o mínimo de seriedade intelectual e, já agora, a sugestão de Ken Loach deveria ele ter seguido. Os desempregados em fim de linha, pelo menos esses, eles agradeceriam
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
xxxxxx
A Dama de Ferro : que enferruje em paz
Domenico Mario Nuti
Margaret Hilda Thatcher (1925-2013) uma vez famosa afirmou, numa entrevista a Woman’s Own de 31 de Outubro de 1987, que ” a sociedade é uma coisa que não existe. Há indivíduos, homens e mulheres e há famílias”. Naturalmente ela foi muitas vezes criticada por uma tal afirmação, inclusive por mim, quando repetidamente a citei e critiquei vigorosamente quer em aulas, conferências ou seminários.
Tomada à letra uma tal afirmação é claramente falsa. Evidentemente, o conjunto de indivíduos e as suas famílias estão interligados numa grande e forte mescla de relações – através de instituições económicas, políticas e sociais – conhecidas como “o tecido social “. O total é infinitamente maior do que a soma de suas partes individuais.
Mas o que Thatcher realmente quis dizer é que a sociedade somos todos nós e não é uma entidade externa distinta do conjunto de todos os indivíduos e das suas famílias, de tal modo que assim com ela podemos passar a dizer: “Nenhum governo pode fazer seja o que for que não seja através do povo e o povo, depois, este deve olhar com atenção e em primeiro lugar para o que é feito .” Uma chamada perfeitamente simples e inocente de auto-ajuda e de contenção quanto à confiança nas transferências governamentais feitas a partir do orçamento para quem, no fim de contas, foi quem as pagou, os contribuintes. Claro, ela estava a negligenciar o facto de que as transferências feitas no âmbito do Estado Providência não são necessariamente sempre um desincentivo para criar rendimento e riqueza e também a negligenciar que as transferências representam igualmente um estímulo sobre a procura e, portanto, podem gerar emprego e rendimento, e que uma sociedade mais coesa e mais igualitária pode valer a pena ser alcançada – pelo menos até certo ponto – mesmo se a redistribuição tiver tido um custo líquido em termos de eficiência. Mas mesmo que estas omissões e reservas sejam opiniões legítimas, embora possivelmente equivocadas, Thatcher não merece ser criticada nesta base. Portanto as desculpas mesmo tardias, mas sinceras, são pois devidas e aqui estão sem quaisquer reservas.
No entanto, ainda existem muitas razões extremamente graves para nos lembrarmos dela. O princípio geral, que é o de que não se deve “falar mal dos mortos”, não se pode nem deve nunca aplicar às figuras públicas influentes (como nos é recordado por Glenn Greenvald, Guardian, 8 de Abril): Noblesse oblige. Eu vivi na Inglaterra durante a maior parte da sua carreira política, de 1962 a 1982, e intermitentemente depois da sua saída do governo em 1990, e não tenho nenhuma simpatia particular por ela. A Madame Thatcher – a quem eu nunca seria capaz de a tratar por Lady – para mim será sempre Thatcher a mulher que roubou o leite às crianças (como em 1971, quando Ministro da educação do governo de Heath, ela aboliu a distribuição de leite gratuitamente às crianças com idades entre os 7 e os 11 anos). Nem importa sequer a destruição da indústria britânica de carvão: a extracção do carvão é uma profissão bastante atraente e a cultura é apenas encarada como uma doença literária romântica e mórbida à D. H. Lawrence e os mineiros deveriam ter sido aposentados de forma gradual pelos governos trabalhistas nos últimos trinta anos, em vez de os terem mantido artificialmente em actividade como se fossem um exército de reserva dos eleitores trabalhistas . Mas não havia nenhuma razão para enfrentá-los, como o fez Thatcher e mandar a polícia a cavalo atacá-los: ela poderia até facilmente chantageá-los com os resultados da exploração do gás no mar do Norte.
Nem há aqui nenhuma necessidade de iniciar uma guerra de classes através da utilização de um imposto regressivo e odioso, ou negar ao irlandeses em greve de fome na prisão de Maze o seu estatuto político, provocando assim a sua morte. Margareth Thatcher baixou os impostos e cortou nas despesa sociais e nos subsídios à indústria, promovendo a desindustrialização e o desemprego na Inglaterra (que subiu para um valor recorde de quase 13 por cento durante o seu reinado); ela privatizou as habitações sociais sem construir outras e vendeu todos os tipos de bens públicos, incluindo as infra-estruturas públicas (siderurgias, vias aéreas, etc.) e serviços públicos de base, tais como os serviços de abastecimento de água, telecomunicações, gás e electricidade, levando assim a uma transferência massiva de riqueza pública para o sector privado. Ela desregulou as actividades económicas, especialmente a finança, e reduziu a dimensão do Estado. Ao fazê-lo ela dinamizou assim um pouco a concorrência – o que ela poderia ter feito se ela quisesse, mesmo sem nenhuma privatização- mas não promoveu o crescimento económico no Reino Unido, de que ela é amplamente creditada de ter feito, o que não é verdade.
Thatcher nunca percebeu nada de macroeconomia – ou ela não teria então escrito (o seu Path to Power, 1995): “Não há melhor maneira de compreender a economia do mercado livre do que a vida numa loja na esquina duma rua qualquer.” Com infinitamente maior confiança do que a que é aplicável à sua afirmação anteriormente citada sobre a sociedade, poderíamos dizer que “não há nada disto num sistema de mercado”. De modo a fundamentar a ingénua e muito simplificada visão de mercado dos seus mentores (Milton Friedmann e Friederich von Hayek, Alan Walters e Keith Joseph e todos aqueles que pertencem à Sociedade Mount Pelerin) como sendo o mercado livre constituído por um sistema de auto‑regulados equilíbrios, teríamos então necessidade de ter um sistema de mercados completos, ou seja, mercados exclusivos, à vista e inter-temporais , instantâneos e não-sequenciais, para todos os bens e serviços enumeráveis e contingentes . Em vez disso temos apenas um número relativamente pequeno de mercados à vista , uma mão cheia de mercados, com a excepção do mercado de trabalho, existentes principalmente para as matérias primas, as commodities, bens primários homogéneos assim como para o dinheiro em que, na verdade, todos são sequenciais e raramente contingentes para todos os Estados do mundo. No sistema de mercado tal como nós o conhecemos, sabemos que os agentes económicos actuam com base em expectativas, assim como com base nos preços num mundo típica e claramente keynesiano de inadequada e instável procura efectiva e de desemprego involuntário.
As políticas praticadas com base numa abordagem tão hiper liberal (então rotulada de monetarista) que ela partilhou com Ronald Reagan, ganharam uma enorme força em 1980 e tiveram enormes consequências negativas ao longo do tempo e do espaço. Elas contaminaram e corromperam a abordagem do novo Partido Trabalhista de Tony Blair e de Gordon Brown, elas afectaram profundamente o caminho da transição do bloco soviético de planeamento central para a economia de mercado e provocaram imensos e desnecessários custos sociais e prepararam o caminho para a Grande Recessão a nível global despoletada a partir de 2008 e que até agora ainda está a provocar muita miséria.
Internacionalmente, ela reforçou o seu fraco apoio interno, declarando a guerra à Argentina sobre a possessão colonial da Grã-Bretanha nas Malvinas, em vez de conduzir negociações políticas; as suas lágrimas sobre a consequente perda de vidas que se verificou, reveladas por artigos recentemente publicados pelo gabinete de guerra, são só a evidência da sua hipocrisia. Ela desempenhou um papel chave na política que levou à primeira guerra do Golfo e defendeu o ataque de 2003 no Iraque. Ela considerou Nelson Mandela e o ANC como “terroristas”, enquanto ganhou e manteve na qualidade de amigos, ditadores tais como Augusto Pinochet, Saddam Hussein e General Sukharto (“um dos nossos melhores e mais valiosos amigos”). Ela opôs-se a reunificação alemã e à criação do euro, mas felizmente ela foi derrotada pela Alemanha e pela França que as acordaram entre eles.
Para alguém tão oposto a que o Estado cuide dos seus cidadãos “desde o berço atá à cova”, é irónico que a Margaret Thatcher lhe tenha sido dado um pródigo “e cerimonial funeral com honras militares” ontem na Catedral de São Paulo com um custo estimado de £10-12milhões de libras. É então correcta e justa a proposta sugerida por Ken Loach de que o seu funeral deveria ter sido “privatizado”, ou seja, “deveria ser colocado em leilão e deveria ser aceite a oferta mais barata. Seria isso o que ela quereria”.

A frase “Iron Lady? Rust In Peace” (creio ser esta a transcrição exacta), que DMN em boa hora retomou no título do seu texto, constava de um cartaz exibido numa das muitas manifestações de regozijo pela morte da perniciosa criatura, que se realizaram no Reino Unido, logo após o feliz e retardado acontecimento. Aliás, tendo-a visto quando estava ainda em Itália, creio que numa foto do jornal “La Repubblica”, já tive oportunidade de dar a conhecer esse exemplar e rigoroso epitáfio a vários amigos, em Portugal.
Espero que ninguém se perturbe com o meu apoio a tais manifestações de regozijo: um fascista morto não deixa de ter sido um fascista vivo; e a morte não apaga os crimes praticados em vida.