GIRO DO HORIZONTE – NÃO ASSUNTOS – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]Nota da Coordenação – este artigo foi escrito antes de ter sido emitido o comentário político de ser emitido o comentário político de José Sócrates.

Há uma frase-feita no discurso vulgar para referir algo que é insólito: “vê-se (ou lê-se) e não se acredita”. O que me traz aqui é o inverso, apesar de também insólito: “lê-se e não surpreende”. Porque dali, de onde vêm estes gestos marcados pela mesquinhez, pela vingança, pelo ajuste de contas, pelo desajustamento à função institucional que exerce, já nada surpreende.

O presidente da República Portuguesa, em Bogotá, em representação oficial de Portugal, num acontecimento cultural com a dimensão da abertura de uma Feira do Livro e em cuja comitiva incluiu uma significativa representação de escritores portugueses, discursa e omite José Saramago, o único escritor português prémio Nobel da Literatura que, pasme-se, até tinha um seu livro póstumo a ser lançado nessa mesma Feira do Livro. O Nobel português que é o autor mais lido e distinguido no mundo, com destaque para os países de língua castelhana da América Latina onde éparticularmenteapreciado o seu “Jangada de pedra”, metáfora apologética da aproximação de culturas que também estão na origem da ibero-americana, foi ignorado pelo presidente do seu país na terra desse outro enorme Nobel da Literatura, Gabriel Garcia Márquez, com quem Saramago mantinha uma relação de profunda amizade. A agressão ofensiva de Cavaco Silva teve vários destinatários. Pela minha parte acuso o toque.

Sabemos que Saramago foi sempre de grande severidade em relação ao presidente Cavaco Silva, como já o fora em relação ao primeiro-ministro Cavaco Silva, responsável pelo governo que exercera um lastimável acto de boicoteao seu livro “O Evangelho segundo “Jesus Cristo”, mas nunca deixou de o reconhecer como o presidente legítimo do seu país. E, como bem disse Francisco José Viegas, José Saramago foi o português que mais divulgou o nome de Portugal. E, acrescento eu, mais continua a divulgar. O presidente da República tem de assumir-se como presidente de todos os portugueses, mesmo daqueles que não concordam com ele e dos quais manifestamente não gosta e não pode escorregar em atitudes marcadas pela pequenez, que ofendem a nossa cultura e o respeito que a generalidade dos portugueses nutre pela memória do maior vulto da sua literatura contemporânea. Na História de Portugal a figura de Cavaco Silva será a de um anão ao pé da de José Saramago.

É um gesto que se inscreve na linha do desabafo público pela insuficiência das suas pensões, da ardilosa cabala sobre as escutas no seu gabinete promovidas pelo governo de José Sócrates, da querela institucional com o seu discurso de posse no segundo mandato, do deslocado ajuste de contas no prefácio das suas intervenções. Não está à altura da dignidade e superioridade moral que se exige a quem exerce um cargo de Estado que é também um símbolo da Nação e da Pátria. Não creio que contribua para a retórica em que tanto tem insistido nas suas últimas raras intervenções, o apelo ao consenso, à coesão de todos os portugueses neste momento dramático que vivemos. Demonstra que, afinal, são apelos vazios de autenticidade, porque é ele próprio que divide os portugueses nos seus e nos outros.

Francisco José Viegas, no D.N. de 19 de Abril, incoerentemente com o louvor que fez de Saramago e que atrás citei, diz que a omissão de Cavaco Silva é “um não assunto”. Foi mal que lhe ficou da sua infeliz passagem pelo governo de Passos Coelho, que também se referiu ao escândalo da licenciatura de Relvas como um não assunto. Este poder passou a tratar os temas incómodos e que tem dificuldade em gerir, como não assuntos. Afinal são assuntos que adia e que mais tarde lhe rebentam nas mãos com estrondo.

Aguardemos os episódios seguintes.

22 de Abril de 2013

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