POESIA AO AMANHECER – 185 – por Manuel Simões

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GONÇALVES CRESPO

                                                                                                     (1846 – 1883)

NA ROÇA

            Cercada de mestiças, no terreiro,

            cisma a Senhora Moça; vem descendo

            a noite, e pouco e pouco escurecendo

            o vale umbroso e o monte sobranceiro.

 

            Brilham insectos no capim rasteiro,

            vêm das matas os negros recolhendo;

            na longa estrada ecoa esmorecendo

            o monótono canto de um tropeiro.

 

            Atrás das grandes, pardas borboletas,

            crianças nuas lá se vão inquietas

            na varanda correndo ladrilhada.

 

            Desponta a lua; o sabiá gorjeia;

            enquanto às portas do curral ondeia

            a mugidora fila da boiada…

            (de “Miniaturas”)

Nasceu no Rio de Janeiro, de mãe negra, e licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Representante de uma corrente esteticista que ficaria na história das ideias literárias como movimento parnasianista, neste poema o Autor oferece-nos um quadro, com traços realistas, de ambiente brasileiro, onde não falta o “sabiá”. A sua obra poética ficou inscrita nos volumes “Miniaturas” (1871) e “Nocturnos” (1882), depois reunidos nas “Obras Completas”.

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